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domingo, 24 de março de 2024

O que aprendi trabalhando com pessoas especiais

Trabalhar todos os dias com pessoas especiais é uma experiência que muda muitas de nossas referências enquanto seres-humanos. Uma destas referências é a noção de valor e capacidade de cada pessoa em si. Durante nossas vidas é comum ouvirmos falar de indivíduos que não se achavam capazes de ter uma rotina funcional, que acreditavam que por uma tragédia do destino não foram agraciados com praticamente nenhuma habilidade, que são incapazes e não entendem porque habitam este mundo. Em tempos de redes sociais, onde por todo lado a ideia de indivíduos perfeitos e conquistadores, idealizadores de grandes projetos, é vendida como se fosse praticamente o único caminho para a grandeza humana, este desconforto da “pessoa comum” é ainda mais presente e profundo.

Isto é tudo uma grande bobagem. Uma ficção para atrair os desocupados e entediados, assim como vender ideias de felicidades não apenas ilusórias, como grosseiras e vulgares. Digo isto porque o fato é que há uma diversidade avassaladora de boas maneiras de se viver esta vida e os falatórios populares estão longe de conseguirem abarcar todas as combinações existenciais disponíveis ao nosso redor. No campo do valor humano, todos podem se sentir especiais apenas por existirem, pois, a mera existência já é um acontecimento especial e extraordinário.

Não existe absolutamente ninguém sem valor, sem habilidades e sem capacidades incríveis. Se você colocar um pássaro dentro da água, ele não nadará porque é um incompetente, preguiçoso ou incapaz, ele não nadará porque sua natureza não pertence àquele ambiente, ele foi feito para o ar, para o livre movimento de suas asas rasgando os céus e coordenando seus movimentos ao soprar dos ventos.

Se você por algum momento achar que não tem tanto valor, que não é tão capaz, que não sabe porque está aqui, pare imediatamente. Você provavelmente está no lugar errado, está fazendo escolhas erradas e está entrando em um ciclo de enganos que traem sua própria natureza. Concentre-se no seu “eu”, entenda quem você é e siga sua procura sem pressa. Em algum momento encontrará seu lugar, e ficará surpreso com sua capacidade, criatividade, poder e destreza para fazer tudo que se propõe.

Imagine um homem primitivo que recebe um martelo sem ter a mínima ideia para que serve. Ele tenta cortar um pão com o martelo, tenta caçar um cervo, tenta coletar água no rio, e tudo se torna um fracasso com aquela ferramenta imprestável simplesmente porque ele não sabe para o que ela serve. Até que certo dia, meio frustrado e desesperançoso, o homem usa seu martelo marretando uma rocha, que se quebra em pedaços afiados. Ao ver a rocha quebrada e as novas formas à sua frente, ele começa a perceber a utilidade daquela poderosa ferramenta. Com o tempo ele passa a encontrar uma infinidade de utilidades para a mesma, passando a executar todo tipo de projeto que o ajuda a melhorar de vida, além de se proteger de possíveis ameaças.

Somos como homens primitivos agraciados com vocações fantásticas, porém estas vocações não nos são reveladas, nós temos que adentrar uma jornada de autoconhecimento e experiência própria para conseguir descobri-las. Este é um processo que requer calma e paciência, e talvez este seja uma das maiores dificuldades de nossa apressada geração.


Mas o que tudo isso tem a ver com pessoas com necessidades especiais?

Simples, absolutamente todas elas também têm condições de contribuir e realizar uma série de coisas, mesmo com todas as suas aparentes “limitações”. Trabalhando com dezenas de pessoas com síndrome de down, autistas, entre outras condições mentais, isto tudo ficou muito mais claro para mim. A ideia de que absolutamente todo ser-humano tem um valor inestimável.

As pessoas com necessidades especiais que vivem em comunidades Camphill ao redor do mundo são simplesmente impressionantes. Com anos de prática e boa educação, tornam-se bons padeiros, fazendeiros, cozinheiros, comunicadores, artistas, entre outras infinidades de ocupações que nos deparamos ao viver em um lugar como esse. Todas as vezes que vi uma pessoa com alto grau de autismo executando algum trabalho difícil, fiquei completamente envergonhado e constrangido ao lembrar de todas as vezes que ousei reclamar da minha vida e de minhas obrigações, e mais ainda das vezes em que tive alguma crise de autoestima e questionei minhas próprias capacidades de viver neste mundo. É simplesmente um choque de realidade, algo até difícil de explicar a quem não vive aqui, e por isso que sempre digo à minha esposa que Camphill é um negócio que “só vendo para acreditar”.

Portanto a maior lição de vida para mim ao trabalhar com estas pessoas é que absolutamente todos nós somos capazes e valiosos, e a junção entre estar em lugares errados e a venda de vidas artificiais que vemos na mídia e redes sociais nos levam a estados mentais de compreensões completamente equivocadas sobre a realidade da existência humana, levando-nos a conclusões mais equivocadas ainda sobre nosso valor como indivíduos.

Este mundo é muito amplo, complexo e cheio de possibilidades. Nunca lhe permita acreditar que sua existência tem menos valor que a de outros, ou que não há nada para você. Possivelmente o único problema é que você na verdade sequer se encontrou ainda, e que vem se enganando há anos, ou talvez décadas, afastando-se da sua própria realidade e, consequentemente, de onde deve estar.

sábado, 2 de dezembro de 2023

A libertadora certeza de que não sei de nada

Desde o fim do tempo de escola lembro que passei a me interessar mais por entender como o mundo funcionava. Não tanto o mundo natural, mas o social. Isto me aproximou das ideias políticas, sociais e econômicas, além da história, que diferentemente do que acontecia no período escolar, passou a me atrair de uma forma mais orgânica, de um interesse que realmente vinha do meu ser, e não de um professor ou um ambiente de sala de aula.

Neste tempo, mergulhei principalmente no que chamo de “esquerdosfera”, todo o universo de interpretação dos fatos sociais e históricos sob a ótica da esquerda política e acadêmica, que entendo como tendo sua grande base fundamentada por Marx e Rousseau. Este é o caminho natural de qualquer jovem que se interessa por entender a grande estrutura social em que vive, e é por isso que a grande maioria das pessoas que mergulham um pouco no assunto se tornam o que chamaríamos de “esquerdistas”. A interpretação do mundo pela ótica destas ideias é extremamente atraente, simples de entender e fornecedora de muitas respostas. E como queremos respostas quando estamos curiosos!

Após este período de iniciação passei a me sentir muito seguro sobre vários assuntos e estava mergulhado em idealismo. Porém não é da minha personalidade se acomodar na “segurança”. Aproveitando o primeiro ano na faculdade de economia, passei a me interessar por pensadores que atacavam frontalmente o que eu acreditava, afinal eles deveriam existir, não é mesmo? Foi então que conheci os liberais, cheios de argumentos e ideias muito interessantes que colocavam em dúvida tudo que acreditava. De repente Marx e Rousseau não eram tão grandes assim, e Adam Smith e Hobbes passavam a chamar muita atenção.

Eu poderia passar horas escrevendo sobre todo este conflito de ideias que passei a viver nesta época, mas este não é o assunto do texto. O ponto importante foi que nesta época eu me deparei com uma ideia muito marcante encontrada na mentalidade de muitos liberais, mas de um em especial, Friedrich Hayek, que não era nada mais que uma simples constatação: o conhecimento está disperso na sociedade e indivíduos sabem pouco, muito pouco.

Este pensamento foi um meteoro na minha jornada de compreensão do mundo. Colocado da forma acima, parece simples, mas na verdade ele traz uma série de reflexões sobre o mundo moderno e a “pretensão do conhecimento”, como o próprio Hayek chamava, chegando a escrever um livro intitulado “A Arrogância Fatal”, que em outras coisas descrevia como políticos e planejadores sociais tentavam solucionar os problemas humanos e sociais e quase sempre fracassavam em suas empreitadas, não apenas não solucionando os problemas, como os agravando.

E Hayek não era qualquer pensador, era um ganhador de Prêmio Nobel de Economia. Nada mais nada menos que um vencedor de Prêmio Nobel tinha como uma de suas grandes mensagens, em outras palavras, o seguinte: nós não sabemos nada! É claro que ele não queria dizer que não sabemos nada literalmente, o que ele queria dizer é que vivemos em um mundo complexo, e muitas das ideias decoradas de sofisticado racionalismo não são mais que especulações ou uma parte muito superficial do conhecimento de determinado assunto. Hayek enxergava em nosso tempo uma certa arrogância, uma tendência irresistível das pessoas em querem ser especialistas em assunto que nem os especialistas dominam completamente.

Partindo desta premissa, passei a perceber que aquela máxima popularmente conhecida fazia muito sentido: “quanto mais busco o saber, menos sei”. Ao analisar os assuntos que me dispus a me aprofundar durante toda a minha vida, percebi que quanto mais adentrava naquele campo, mais me sentia ignorante, mais me sentia inseguro sobre a verdade e a exatidão dos fatos. Neste caminho, algo solidificou ainda mais esta ideia em meu íntimo: o estudo da estatística, matéria obrigatória nos cursos de economia. Ao entender como os estudos, pesquisas e levantamento de dados são feitos, ficou ainda mais claro para mim como tudo é tão frágil, tão aberto a interpretações e manipulações, e como nossa sociedade neste século XXI se tornou um show de horrores estatísticos com pessoas de todos os tipos usando dados soltos sobre determinados assuntos para “provarem” seus pontos e posarem de detentoras do conhecimento.

Mais recentemente fiquei estarrecido com a pandemia de Covid-19 que transformou a “ciência” em uma ferramenta de embate político. Milhares de pessoas que mal sabem descrever o que é ciência e método científico, passando a dizer que “acreditam na ciência”, como se a ciência fosse uma fonte de respostas seguras e imutáveis que devem ser assimiladas e aceitas sem questionamentos. Que sacrilégio. Ora, a grande característica da investigação científica é justamente o ceticismo, a insegurança, a cautela nas observações e processamento dos dados. A ciência é tudo de incerteza e praticamente nada de segurança. Conclusões científicas seguras somente são consideradas seguras após um grande período de aceitação unânime, e ainda assim qualquer cientista minimamente honesto sabe que a mais segura das conclusões pode ser desafiada, questionada e refutada, e foi assim que a ciência se desenvolveu durante seus séculos mais nobres em nossa história. Como uma grande arena de batalha, em que visões aceitas eram refutadas e substituídas do dia para a noite. A instabilidade e a imprevisibilidade foram as bases do modelo científico moderno, e foi justamente seu caráter incerto que o tornou alvo de ataques por parte daqueles que desejavam um mundo estável baseado nos preceitos e tradições religiosas.

Então como, diante de todos esses fatos, políticos e pessoas aleatórias sem nenhuma formação científica passaram a dizer que “apoiam a ciência”? Ora, se você apoia a ciência você apoia a incerteza! E não apenas isso, em geral o que observo em nossos dias é uma pretensão do conhecimento implacável a avassaladora nos mais diferentes campos: nutrição, fármacos, atividades físicas, psicologia etc etc. As pessoas hoje em dia estão achando que encontraram as respostas para tudo e que uma está mais certa que a outra. Parece um grande hospício de senhores e senhoras certezas.

Entendam: vocês não sabem de nada! Este mundo e a maioria dos assuntos que vocês discutem é extremamente complexo, as variáveis são muitas, a previsibilidade é quase inexistente, e este é o mundo como ele é. Este lugar incerto que está mais para uma grande aventura, cheia de surpresas que moldarão seu caráter em questão de horas. Libertem-se! Libertem-se da pretensão do conhecimento! Tirem este fardo de suas costas e vivam uma vida leve! Sejam humildes! Abracem o desconhecido! Digam para si mesmos: eu sei pouco, muito pouco, e está tudo bem!

Como é libertador aceitar a imensidão de variáveis desde mundo, do ser-humano, das sociedades humanas, da biologia, da química, da história, da psicologia, da astronomia. Como é fascinante saber tão pouco e poder investigar os fatos sem querer uma resposta final para tudo. A vida é uma grande incerteza, e é nesta incerteza que nos entregamos e mergulhamos na maravilhosa obra do criador. Se ele quisesse que soubéssemos tudo, provavelmente nos faria diferentes, não tão pequenos e limitados.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

O que mais valorizo em países livres

Vez ou outra me pego pensando sobre o que mais me causa desconforto no Brasil. Por algum tempo, talvez por apreciar o estudo da economia, tendi a acreditar que os assuntos econômicos me pareciam mais relevantes. Porém os anos foram passando, minhas visões foram amadurecendo e comecei a enxergar uma importância cada vez mais maior em algo que é muito falado, mas talvez não seja tão compreendido e bem dimensionado: a falta de segurança.

Falando assim o leitor pode estar se preparando para mais um daqueles desabafos clichês de alguém que tem medo de ser assaltado ou que fica revoltado com o noticiário constante de crimes bárbaros que quase nunca são solucionados. Mas não, ao meu ver a falta de segurança no Brasil é algo que há muito tempo passou dessa preocupação corriqueira de sofrer um assalto, tendo já ganhado proporções que alteraram com certa profundidade o psicológico coletivo e como a sociedade brasileira se organiza cultural e estruturalmente.

Ao tocar no assunto, alguém já pode se antecipar e dizer: “mas o Brasil sempre foi assim!”. E eu respondo: não, o Brasil nunca foi um país muito ordeiro, mas também nunca chegou a ser o caos e a completa hegemonia do crime como vemos hoje. Basta olhar os números para observar o aumento de crimes violentos nos últimos 50 anos, em especial a partir dos anos 90, com o aprofundamento das políticas socialdemocratas. E se você não gostar muito de números, basta conversar com alguém que viveu da década de 90 para trás. Naquele tempo já havia coisas como assaltos, roubos, insegurança etc, mas nada comparado ao cenário atual. As grandes cidades brasileiras eram muito mais tranquilas, e os interiores mais ainda, completa paz e estabilidade com crimes pontuais que vez ou outra chocavam a população.

Eu nasci no início da década de 90 e, portanto, pude testemunhar o avassalador colapso de nossa liberdade à medida em que o tempo foi passando. De lá para cá, saímos de uma realidade em que praticamente não tínhamos preocupações com o crime, usufruindo de uma paz em ir e vir e desfrutar de lugares públicos, a um contexto radicalmente diferente, em que gastamos considerável parte de nossas rendas para pagar vigilância humana, câmeras, cercas elétricas, alarmes, controles de acesso cada vez mais sofisticados, carros blindados (quem pode), assim como fomos adquirindo todo um padrão de comportamento para nos protegermos de sermos alvos.

A ascensão meteórica do crime na sociedade brasileira mudou nosso comportamento e até a estrutura de nossas cidades, áreas públicas se tornaram subutilizadas e shoppings fechados ganharam um forte impulso, passando a ser pontos de encontro e sociabilidade da população. O brasileiro não para o carro na rua sem olhar desconfiado em todas as direções, não para em um sinal de trânsito sem olhar no retrovisor se há alguma moto se aproximando, não pega um ônibus sem analisar as pessoas ao redor e tentar identificar possíveis ameaças, não deixa um pertence na areia da praia enquanto toma um rápido banho de mar, não deixa que um familiar ande a pé por ser uma área perigosa etc.

Quando um estrangeiro chega aqui, fica impressionado com o tanto de orientações alarmistas que os brasileiros fazem, achando que todo esse medo é exagero. E com frequência pode ser mesmo, mas carrega um fundo de verdade: o brasileiro vive apavorado, e quando alguém acostumado a ser livre chega no país, os residentes tentam passar a ele ou ela todas as restrições de liberdade que deve ter ciência para que se proteja.

Isso tudo já se tornou repetitivo pois já faz mais de 10 anos que se tornou uma realidade a ser aceita e até não questionada, em razão do “espírito da época”, que passou a tratar o crime como um “probleminha de comportamento” que deve ser “administrado” de forma branda e “humanista”. Cenário em que criminosos são tratados como vítimas e vítimas que se revoltam são tratadas como criminosos, uma realidade angustiante para quem busca uma justiça objetiva e comum, dentro da lógica tradicional de que quem prejudica o outro deve ser punido, sistema óbvio que funcionou relativamente bem em todas as civilizações minimamente estáveis.

O fato de o assunto ter se tornado repetitivo e muitos terem até deixado de reclamar é o que me causa mais perplexidade. O brasileiro, como que em um experimento social de adaptação de longo prazo, acostumou-se a ser confinado, aceitou sua tragédia e desistiu de lutar. É como se um homem livre tivesse se tornado escravo e por muitos anos tivesse tentado se rebelar, mas ao ver que nada acontecia, cansou, e aceitou sua triste realidade. Hoje uma pessoa de classe média comum vive em um condomínio de segurança máxima, pega seu carro, e vai de um ponto ao outro sem se expor, pulando de “ilha” em “ilha” para tocar sua vida como se tudo fosse normal, com frequência acreditando que esta é uma vida livre e ordinária de qualquer pessoa que vive em uma sociedade funcional. Se durante esta rotina ela ver alguém sendo assaltado na rua, trata-se de um evento corriqueiro, nada a se preocupar, nem a polícia é mais acionada. É assustador.

Mas o assustador mesmo é que isso não é assustador para grande parte dos brasileiros, pois os mesmos sequer sabem que existe algo diferente. Eu, como muitos que moraram em países ordeiros no exterior, ficamos perplexos com a aceitação geral da população, com a quase total entrega das liberdades a grupos criminosos e até grupos políticos que não confrontam o problema. Por isso é tão difícil a readaptação no Brasil após uma temporada fora. Quando você passa um tempo considerável em um país livre, o retorno ao “confinamento” é avassalador. É claro que isso também varia de pessoa para pessoa, e aqui chegamos ao motivo de eu falar sobre isso, pois este é um relato pessoal, e eu sou um desses que se sente muito mal com esta realidade.

Passados alguns anos de reflexão, entendi que o bem que mais vale para mim é a liberdade de ir e vir, de usufruir o mundo sem estar sempre se sentindo ameaçado, como se estivesse sempre fugindo em um estado de alerta que muito se assemelha a realidades de conflitos bélicos. Hoje em dia viver em uma capital brasileira exige um nível de alerta e mobilização preventiva maior que a de um homem medieval vivendo em um vilarejo pacato e isolado composto por algumas dezenas de pessoas. Lembro-me que os momentos mais felizes da minha vida foram em ocasiões em que pude desfrutar de grande liberdade e segurança em experiências em lugares públicos que tive no exterior: passeios de bicicleta e caminhadas no meio da estrada, acampamentos, voltar de um jantar no meio da noite pelas ruas de uma cidade etc. Coisas que parecem banais, mas têm um valor inestimável.

Imagine que existisse uma empresa brasileira que nos vendesse a mesma sensação de segurança e liberdade que temos em países ordeiros no exterior, como se fosse uma mágica. Você pagaria mensalmente um valor para ter a sensação de um europeu, um americano ou um canadense. Quanto isso custaria? Já passou para pensar? É difícil até de precificar tal serviço, pois reflete um valor imenso e abstrato. Mas tenho certeza que quem pudesse, estaria disposto a arcar com tal despesa, viabilizando uma experiência existencial muito mais rica e estimulante.

Após muito refletir, entendi que o que me fascina no estrangeiro não é tanto a possibilidade de conquistas econômicas, mas sim a liberdade que o cidadão comum perdeu no Brasil. Para quem já experimentou a liberdade, viver em confinamento é uma angústia que até acabamos aceitando, mas nunca realmente superamos. Isto também me traz outras conclusões, de que talvez não queiramos tantas coisas assim, de que não sejamos tão exigentes. Se tivéssemos um país minimamente funcional, com uma justiça previsível e confiável e o cenário da criminalidade controlado, imagino que muitos brasileiros que hoje vivem no exterior cogitariam retornar. Porém a realidade é dura, pois não há previsão para que o Brasil saia desta, devendo o estado de confinamento se prolongar por décadas.

Lembro-me daquela clássica lição de ciência política: para se construir algo bom (como a liberdade) precisamos de décadas ou séculos, mas para se destruir, bastam alguns anos. Não subestimem a possibilidade de a situação piorar ainda mais, como por exemplo com a restrição da liberdade de expressão. Isto pode acontecer de repente, e se consolidar com poucos meses. Sendo que esta é apenas uma das frontes de liberdades civis que o brasileiro pode perder, havendo algumas poucas outras que ainda se sustentam.

Adendo: esta é a realidade de um homem de classe média em uma capital do Nordeste, a situação pode variar muito a depender do gênero, posição geográfica e situação econômica de cada indivíduo.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

O resgate do conteúdo sem dopamina

Desde que as redes sociais visualmente atraentes se consolidaram, temos a impressão de que a velha leitura tem tido cada vez menos espaço. É verdade que livros ainda são vendidos e muitos gostam de passar mais de uma hora lendo textos, porém é inegável o espaço avassalador conquistado pelas imagens e vídeos. Eu mesmo sou muito adepto dos vídeos, inclusive sou assinante do YouTube Premium, modalidade de serviço para quem não quer ver comerciais durante o uso da plataforma, além de outras vantagens interessantes.

Apesar de ter me adaptado como consumidor destas grandes plataformas, sempre me senti um pouco desajustado pela quase extinção do “conteúdo denso”, essa coisa geralmente escrita que exige tempo, paciência, processamento e reflexão. Como uma pessoa que gosta de tanto ler como escrever, é um desconforto ser obrigado a se ajustar nas limitações de caracteres das redes sociais. Por esta razão é tão prazeroso ter um blog. Apesar de praticamente não ter visibilidade, poucas coisas parecem ser tão saudáveis para alma do que a possibilidade de se expressar livremente por meio das palavras escritas.

Não sei como o leitor se sente, mas sou daquelas pessoas que precisam se expressar de alguma forma, e a forma que melhor me conforta é a escrita. Na verdade, tenho a sensação de que todos os seres-humanos necessitam de alguma forma expressar o que sentem e o que são, entretanto, esta coisa pode ser feita de variadas maneiras: pela pintura, teatro, música, gastronomia, esportes, trabalho e até, pasmem, pelo falatório de um bar estimulado pelo consumo de álcool ou qualquer substância com poderes de desinibir os indivíduos. Provavelmente algum psicólogo já falou sobre isso, deve haver alguma teoria por trás da ideia de que pessoas sem canais de livre expressão podem apresentar uma série de problemas psíquicos que tendem a se tornar um grande mal.

Seres vivos – e aqui falamos de humanos – carregam um ímpeto vital que os empurram para a ação e a comunicação. Não adianta você querer ficar parado, inerte, recusando viver. A vida lhe empurra, e não aceitar este empurrão é como optar por um vagaroso processo suicida. É proibido ficar parado. Como costumo pensar e dizer: mesmo que você não saiba o que fazer, faça alguma coisa. Movimente-se. Tenha apetite pela vida, por caminhar, aprender, crescer, e se aventurar. Você já está aqui, mergulhe no turbilhão da existência e encontre seu caminho.

Expressar-se é uma consequência natural daquele que abraça a vida, daquele que deseja viver. E para aqueles que preferem se expressar de forma mais densa, este mundo que se tornou demasiado superficial se torna um desafio. Mas abraçar desafios também faz parte da aventura. Outro dia uma pessoa participando de um longo podcast disse que estava surpresa com a audiência deste modelo de conteúdo, acreditando que sim, há espaço para longas horas de diálogos sobre assuntos complexos. Esta observação me fez enxergar o cenário com mais otimismo, imaginando que talvez um dia muita gente se canse do hiper estímulo das redes e procure um conteúdo mais lento e denso como este simples texto. É verdade que cada modalidade tem suas vantagens e desvantagens, mas espero que possamos nos recordar dos incomparáveis prazeres de uma boa leitura além das tempestades dopaminérgicas das redes sociais.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Ser apolítico é um posicionamento político

Nos últimos anos, com o cenário político brasileiro se tornando cada dia mais acalorado, foi comum escutar muitos lados e visões sobre assuntos políticos. Um desses assuntos foi a tentativa geral de definir melhor o que seria "esquerda" e o que seria "direita", algo que, ao meu ver, foi muito positivo, considerando o estágio de maturação da democracia brasileira.

Neste cenário, uma crítica muito comum da "esquerda" sobre a "direita" é que pessoas mais à "direita" muito frequentemente não estão "conscientes" do processo histórico e do contexto social no qual elas mesmas estão inseridas. Em outras palavras, o "esquerdista" lê um pouco de Marx e um pouco de outros autores "progressistas" e começa a achar que descobriu a "falha da matrix", como se todo mundo que não tivesse tido acesso às preciosas "informações" que ele teve acesso não passasse de um bando de alienados. Se você é de "direita", então você não tem a "sensibilidade" que só o "humanista ungido de esquerda tem". Esta é uma das origens da soberba intelectual entre os "progressistas", soberba esta que Thomas Sowell disseca impiedosamente em sua obra "Os Intelectuais e a Sociedade" (vale à pena ler este livro).

É até compreensível o porquê deles pensarem assim. Pessoas mais "direitistas" costumam alimentar certo ceticismo em relação à política e não se atrair muito por ideologias, o que acaba dando a impressão de que são "apolíticas", enquanto pessoas "esquerdistas" costumam ser mais interessadas em movimentos sociais, ideais abstratos, palavras de ordem e na própria política institucional em si. Uma grande dificuldade que tive como estudante liberal em uma universidade brasileira foi justamente tentar convencer pessoas que eu percebia serem liberais a contribuírem de alguma forma com a causa da liberdade no campus. Estudantes das áreas de gestão, engenharias, tecnologia, medicina, entre outras, costumam ser muito práticos e não se interessarem muito por política. Em contrapartida, estudantes de cursos de humanas são altamente engajados em movimentações políticas. Resultado? Quando falamos de "ocupações de espaços", a direita leva uma surra nas universidades. Isso se dá porque a esquerda tem ideias melhores ou um maior número de adeptos? Não. Isso se dá porque liberais e conservadores não gostam de política, deixando o caminho livre para que haja um domínio avassalador da esquerda.

Mas vindo ao ponto central deste texto, o fato de serem mais "apolíticos" faz com que os direitistas sejam pessoas alienadas e sem consciência? Eis onde está um grande equívoco da esquerda. A característica fundamental da "direita", segundo Russell Kirk, é a negação da ideologia. Conservadores não se nutrem de um determinado sistema de ideias, e sim de fontes de orientação históricas, como os costumes, as convenções, a religião, a sabedoria dos mais velhos, as tradições etc. Ou seja, se você se referir negativamente a uma pessoa de "direita" como alguém "sem ideologia", saiba que, na verdade, você está a elogiando, pois seu posicionamento político é justamente ser contra ideologias. Entendendo ideologias como sistemas artificiais de ideias formuladas para se chegar a um determinado fim, e não para entender a estrutura da realidade (que é extremamente complexa).

Se você é de esquerda, tem uma ideologia, e acha que um direitista é "alienado", saiba que, se este direitista conhecer as ideias do que defende, talvez ele considere você o "alienado" da história, justamente por você ser muito "letrado" em ideias que fogem do mundo real. Esquerdistas acham que se as pessoas conhecerem suas belas ideias, o mundo será um lugar melhor, mas o que vemos é que, com muita frequência, pessoas apolíticas são bastante engajadas cuidando de suas famílias, servindo suas comunidades, trabalhando, estudando e concentrando suas energias, de forma geral, na manutenção da ordem em seus pequenos raios de atuação. Enquanto isso, os "progressistas" falam muito e fazem pouco. Costumam ser pessoas boas e idealistas, mas ficam muito concentradas no campo das ideias, desejando um mundo melhor pela via política, e não por seus empreendimentos individuais.

O que é melhor? Uma pessoa "apolítica" que tenta ter uma vida em ordem ou uma pessoa "politizada" com uma vida caótica querendo salvar o mundo? Esta é uma bifurcação que, ao ser pensada, possivelmente lhe definirá como alguém de "esquerda" ou "direita". Você já percebeu como esquerdistas costumam ser adversos à caridade e ao trabalho voluntário? Esta característica nos ajuda a enxergar melhor o cenário. Grupos que praticam a caridade - geralmente ligados a igrejas, centros espíritas etc - costumam ser compostos por pessoas que não são muito "politizadas", mas têm um grande coração e tentam melhorar suas comunidades, enquanto os "politizados" declaram para todos os lados o "amor" que sentem pela humanidade mas não movem um dedo para realmente ajudar alguém necessitado. Fatalmente o segundo grupo alcançará o poder político (de tanto tentar) enquanto o primeiro grupo continuará servindo a comunidade sem saber que, aos poucos, pode estar sob o controle do segundo grupo.

Se você for uma pessoa "prática" que quer liberdade para exercer seus valores e ampliar suas liberdades, eu entendo o fato de você não gostar muito de política, mas tente reavaliar a situação, talvez não seja interessante para a sua vida ficar à mercê de pessoas que falam muito e fazem pouco, afinal, se você não se envolver, provavelmente elas estarão no poder e, uma vez no poder, elas podem lhe atrapalhar muito. Mas se você for do tipo "politizado" que acha que detém a "verdade iluminada" enquanto os outros não passam de "brinquedinhos da burguesia", lembre-se que, talvez, você pode ser o "brinquedinho", e o cara sem ideologia ao lado é justamente o indivíduo livre que você dificilmente se tornará. Ser "apolítico" é um posicionamento político. Um posicionamento político que diz não às ideologias.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Coletivismo não é fraternidade e Individualismo não é egoísmo

Resultado de imagem para coletivismoUma das grandes dificuldades no processo de difusão do pensamento liberal é a desmistificação de alguns termos que até então parecem favorecer os socialistas. Dois desses termos, muito citados na literatura liberal, é o "individualismo" e o "coletivismo". O primeiro nós ouvimos desde que somos crianças: "Não podemos ser individualistas, temos que dividir.", o mundo nos diz. E com toda razão, a solidariedade e a partilha são parte de nossa cultura e considero algo benéfico.

Acontece que, quando falamos de Ciência Política, o "individualismo" não significa esta noção de egoísmo e mesquinharia, e sim a liberdade de determinada pessoa agir da maneira que quiser, contanto que não fira as leis que regem a sociedade (e sim, as leis são necessárias). No modelo "individualista", o Estado é formado em torno da proteção do indivíduo, e não de grupos, isto garante que a autonomia de cada pessoa seja respeitada, protegendo, em especial, as minorias, aquelas que a esquerda costuma defender sempre mas não admite que são as mais perseguidas quando seus regimes socialistas se encaminham para realidades autoritárias.

O segundo termo, "coletivismo", soa como algo benevolente, ligado à fraternidade entre os homens: "Pensemos no coletivo!", dizem. E não há nada demais nisso, contanto que se atue coletivamente de forma voluntária, e não se utilize a força coercitiva do Estado para criar estruturas de proteção a determinados grupos (o que acontece muito no Brasil). Um modelo de Estado coletivista não pode conviver com um modelo individualista, quanto mais coletivista um Estado, mais ele compromete a autonomia individual e força as pessoas a se sujeitarem a um suposto "bem comum", e foi exatamente isto que aconteceu com as ideologias colocadas em prática ao longo do século XX. No começo, parecia uma salvação coletiva rumo a um paraíso, depois, logo se transformou em um inferno administrado por uma elite despótica.

Há de se destacar que uma pessoa que defende um regime político "individualista" não necessariamente é alguém que pensa apenas em si mesma, pelo contrário, talvez esta pessoa esteja bem inserida socialmente e coletivamente, mas por uma convicção ética prefere um modelo que proteja as "minorias" e até ela mesma (caso um dia ela se torna alguém "diferente" do todo"). Assim como uma pessoa "coletivista" talvez não seja tão fraternal assim. Muitos coletivistas - e aqui destaco os socialistas - são daqueles que endossam uma ideologia política que poderia salvar a humanidade mas não têm a coragem de mover uma palha para ajudar alguém mais próximo, como um familiar que está logo ali ao lado. Em outras palavras, são aquelas pessoas que "amam" a humanidade mas odeiam o ser-humano.

Estados individualistas formam estruturas sociais voluntaristas, enquanto Estados coletivistas formam estruturas sociais coercitivas. Há uma grande tendência a nos deixarmos levar por promessas de regimes coletivistas, pois costumam prometer "fins" compensadores, entretanto devemos haver cuidado com essas promessas, afinal um grande Estado capaz de "fazer o bem" é um grande Estado capaz de fazer o mal. Portanto, por via das dúvidas, talvez seja melhor manter este Estado contido, evitando assim processos de tiranização. Isto é Ciência Política clássica, coisas que fundaram nossa civilização, mas parece que há a necessidade de sempre relembrarmos, principalmente em um país em que seus cidadãos cedem tanto poder aos governantes, abrindo mão da própria liberdade em troca de promessas de direitos e segurança econômica.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Porque a direita brasileira é tão desorganizada


Durante meus anos de faculdade, período em que construí minha formação no curso de Ciências Econômicas, muito me preocupava a situação do Brasil com o caminho que o país seguia ao continuar sob o controle do Partido dos Trabalhadores. Com esta preocupação, passei a me envolver mais com política e ajudei a fundar um grupo de estudos liberal em minha universidade. Este envolvimento não foi só no âmbito das articulações, mas principalmente nos estudos. Percebi que a única forma de se opor à força das tendências socialistas que imperavam no país, era conhecendo "o que pensa o outro lado", foi então que encontrei Hayek, Friedman, Mises, Ortega y Gasset, Bastiat, Kirk, Scruton e uma série de outros pensadores muito conhecidos no exterior, mas curiosamente ocultados no cenário nacional.

À medida que ia aprofundando nos estudos e conhecendo a dinâmica da guerra política brasileira, fui me surpreendendo com o tamanho da força que a esquerda tinha, muito embora o brasileiro não fosse lá esse povo letrado e "por dentro" de ideias políticas. Você só percebe a bolha em que nossa gente está, quando passa a ler coisas que os acadêmicos brasileiros não gostam. Se você tiver morado no exterior, este enclausuramento intelectual fica mais visível ainda. Foi então que passei a querer entender: por que praticamente não existem "vozes de direita" no Brasil? Ora, aparentemente toda democracia que se preze tem um partido conservador, liberal, liberal-conservador ou algo do tipo, mas neste país não havia absolutamente nada.

Já ouvi uma teoria de que isso tem tudo a ver com o "desgaste" da direita após os anos de domínio coercitivo dos militares, e tenho de concordar que isto realmente faz sentido, mas um ponto que passei a observar é que, a grosso modo, esquerdistas são intensamento engajados em política, enquanto direitistas só querem cuidar de suas próprias vidas e não se envolver em assunto desgastantes como "os problemas inerentes à sociedade e à administração pública". Durante muito tempo, inclusive, envolver-se com política era algo que levantava enormes preconceitos, como se fosse "coisa de quem não tem o que fazer", o que deixava o caminho totalmente aberto para os esquerdistas dominarem todas as esferas do Estado, educação e linhas editoriais.

Uma coisa que tentava explicar para os meus colegas "estudantes de gestão" é que, de fato, suas carreiras eram muito importantes, mas se eles ignorassem completamente a política ficariam nas mãos daqueles que se interessam, e então eu apontava o dedo em direção aos blocos dos cursos de humanas, onde o debate político é intenso, constante e acalorado, sendo pautado quase que completamente pelos esquerdistas, tanto pelos alunos quanto pelos professores marxistas que parece que vivem em função de seus "ideais revolucionários", transformando o campus universitário em uma espécie de quartel general das suas articulações ideológicas.

Envolver-se com política enquanto se está estudando em uma faculdade "apolítica" é extremamente desgastante, as pessoas simplesmente não gostam de "misturar as coisas", e se você tentar promover algo que desperte consciências, é simplesmente mal visto, como uma espécie de "agitador inconveniente". Cenário totalmente diferente dos cursos de humanas, onde aqueles que promovem assuntos políticos de forma saudável e civilizada são respeitados e até destacados pelos próprios professores. Alunos de administração, por exemplo, costumam ser economicamente liberais, mas se interessam muito pouco por política, e então não entendem porque é tão difícil empreender no Brasil, ou mesmo ser um empregado, enfrentando longas jornadas de trabalho para ganhar um pequeno salário que é dividido com o governo.

Por negligenciar suas próprias cidadanias, os "direitistas" acabam ficando nas mãos dos esquerdistas. Insistem em reclamar dos políticos e falar mal de tudo e de todos, mas não fazem nada para contribuir na "guerra ideológica", apenas continuam "cuidando de seus negócios", não entendendo muito bem porque o país parece estar entrando em uma espécie de caos entrópico. Esta omissão em não tentar entender o que acontece na política de seu própria país, custou caro a todos nós com os escândalos promovidos pelo Partido dos Trabalhadores enquanto governavam. Felizmente Dilma Rousseff sofreu impeachment e eventos piores não aconteceram (e tinham tudo para acontecer).

Mas parece que as coisas estão mudando, ao jogar o sistema político em uma grave crise moral, e o povo em calamidade econômica, o PT acabou por gerar uma enorme força de reação, forçando milhares de brasileiros a se interessarem por política, talvez por terem visto o que estava acontecendo na Venezuela, passando a se preocuparem com a manutenção de suas próprias vidas. Mas esta "reação momentânea" não é suficiente, caso queira transformar o Brasil em um país digno de atenção, aqueles que se identificam com a direita devem passar a ocupar espaços de forma sustentável e prolongada, criando no longo prazo uma nova cultura política em nosso país.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O ser-humano é imperfeito e vacilante, e isto deveria nos dizer muita coisa


Durante a maior parte da história de nossa civilização, as pessoas tinham plena consciência de que o ser-humano era uma criatura limitada. A doutrina do pecado original, tanto familiar aos cristãos, formava a base imaginária que sustentava uma posição de humildade e de uma visão de piedade sobre o mundo. Somos pecadores, somos miseráveis, somos imperfeitos e, portanto, devemos agir com calma e prudência. Por mais que houvesse barbaridades, elas eram julgadas por esta visão, além de uma consciência da existência de um ser supremo que vigiava tudo que fazíamos.

Com o advento do mundo moderno e do cientificismo, esta estrutura imaginativa foi substituída por uma crença demasiada na razão metódica, que sugeria a elevação do homem ao patamar de super-poderoso, um ser que tudo poderia fazer e tudo poderia entender, abolindo de seu dicionário conceitos simples e tradicionais como "mistério". A idéia de "mistério" para o homem moderno é uma idéia de mediocridade, devendo ser superada para que a espécie humana busque compreender a estrutura do universo, revelando o que "instituições retrógradas" - como a Igreja - impediam de ser revelado. Lembro aqui que cientificismo não quer dizer propriamente ciência natural, aquela prática muito comum entre padres e os fundadores das universidades ocidentais. Cientificismo é tomado aqui como uma espécie de ideologia, um embotamento mental resultado da elevação da ciência a uma condição de fonte monopolista de toda verdade e conhecimento (o que explica o enfraquecimento da filosofia clássica nos últimos trezentos anos).

Esta quebra de mentalidade se alastrou pela civilização, deixamos Deus de lado, negamos as limitações do homem e o colocamos como o grande redentor da espécie. Transformar este planeta em um paraíso não seria tão difícil assim com grandes mentes no comando. Tal crença, aliada à consagração do materialismo tanto por marxistas quanto por alguns burgueses, conduziu-nos a ideologias políticas que resultariam em graves instabilidades, tendo como pontos máximos as duas grandes guerras mundiais do século XX, além da revolução bolchevique de 1918. Para o historiador Arnold Toynbee (1889-1975), esta foi a era da desordem. Nunca antes na história humana a vida foi tratada de forma tão insignificante, vista como um empecilho para a construção de mundos "perfeitos" que desconsideravam presunçosamente todas as grandes lições da história, assim como a compreensão da natureza humana, entendida com muito gênio e sacrifício ao longo de vários séculos. Milhões de vidas foram ceifadas na Europa, em especial na Alemanha e na Rússia, e mais tarde também na Ásia, tendo como protagonista a China de Mao Tsé-Tung (1983-1976). 

Mesmo com toda esta barbárie do século XX, é comum ainda termos a idade média como a principal época da "escuridão" e do sofrimento humano, e esta visão parte muito mais por iniciativas propagandistas modernas do que pela realidade histórica registrada. É assustador como o terrores do comunismo, por exemplo, são tratados com tanta brandura por pessoas que se autoproclamam "humanistas", como se esta ideologia só precisasse de alguns reparos para que fosse colocada em funcionamento de forma mais satisfatória. A verdade é que, mesmo com todos os fatos históricos observados, ainda esperamos que o homem cure as chagas deste mundo e proporcione o "Céu na Terra". Tal pensamento não só nos reveste de utopia - o que na prática nos idiotiza - como gera um ambiente muito propício à ascensão de tiranos e demagogos que usarão tais equívocos filosóficos para conquistarem o poder. Quando o homem se torna um louco em seu interior, e esta loucura se torna o norte cognitivo das massas, é só questão de tempo para que loucos se tornem governantes.

Ainda hoje, mesmo com a queda de várias destas ideologias, líderes cheios de planos mirabolantes para salvar o mundo ainda são escutados, respeitados e até eleitos para cargos de grandes responsabilidades. O que podemos esperar é que aqueles que ainda preservam a sanidade, possam perceber que contar com a salvação da humanidade pela própria humanidade é uma tremenda armadilha, e que o resultado tende a ser muito pior do que a mera manutenção da ordem, da justiça e da liberdade, no sentido clássico das palavras. Se aceitarmos a realidade e as limitações do homem, podemos lutar por um mundo razoavelmente bom, onde há um alto nível de tolerância e a justiça e a liberdade podem prevalecer, mas se cairmos em armadilhas ideológicas, podemos perder tudo isto de uma só vez. Nas palavras de Friedrich Hölderlin (1770-1843): "O que sempre fez do estado um verdadeiro inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso". Tenhamos em mente, antes de qualquer coisa, que não somos Deuses, e temos muito o que aprender. Apenas isto já seria suficiente para acalmar os ânimos de um mundo em constante e exaustiva ebulição.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Porque deixei de ser vegetariano



Antes de discorrer sobre os motivos que me levaram a abandonar três anos como vegetariano, devo dizer que provavelmente frustrarei alguns "inimigos" do vegetarianismo que esperam alguma descrição catastrófica dos efeitos biologicamente destrutivos de não se alimentar de carne. Estes amigos buscam vorazmente relatos de indivíduos que ficaram "doentes" após um tempo adotando uma dieta vegetariana. Bom, este não é meu caso, não fiquei "doente" e não foi por motivos de saúde que abandonei este estilo de vida.

Devo destacar, inclusive, as vantagens de ser vegetariano. Uma dieta sem carne, conduzida por alguém bem educado sobre alimentação, pode melhorar e muito a qualidade de vida, a saúde e a performance nos esportes. Normalmente os vegetarianos bem empenhados acabam tendo uma alimentação muito superior à de um cidadão médio, uma vez que reconhecem suas restrições e aprendem a se alimentar melhor, tendo uma relação mais íntima com o que ingerem, buscando mais informações sobre os benefícios e malefícios de cada alimento.

Portanto, minha decisão por deixar o vegetarianismo não é de cunho biológico, não tive nenhum problema físico ao deixar de comer carne, pelo contrário, tive muitos ganhos, como alta imunidade contra doenças, bom sono, melhora nos processos digestivos etc. Entretanto devo deixar o alerta aos aventureiros, para ter este estilo de vida não basta deixar de comer carne, você deverá saber substituir sua velha dieta e passar a comer muitos alimentos com os quais não tinha tanta familiaridade, como frutas e verduras que não costumavam fazer parte do seu dia a dia.

Pois bem, o que me trouxe de volta para a alimentação "comum" foi um aspecto cultural, mais precisamente algo que passei a chamar de "custo social". Alguém que pensa em se tornar vegetariano no Brasil deve ter consciência de que vive em uma cultura onde o consumo de carne está profundamente arraigado, de forma tal que muitas tradições e costumes estão vinculados a esta prática, havendo um alto teor de questões de sociabilidade envolvidas em qualquer decisão que gire em torno da alimentação.

A alimentação não é só uma decisão sobre o que vamos ingerir para nutrir nosso corpo, mas algo que remete fortemente à nossa participação na sociedade. Coisas como "tomar um café" ou "fazer um churrasco" no Brasil significam muito mais que um "café" ou um "churrasco", são códigos de convivência intimamente ligados à nossa história e à nossa identidade como povo. Em alguns países, um estrangeiro que se recusa a experimentar a comida local automaticamente é rejeitado, como alguém que não se pode confiar, ou mesmo como um inimigo. Por mais que preguemos uma sociedade tolerante, poucas coisas são mais frustrantes do que receber alguém na sua casa e esta pessoa ter um tipo de alimentação completamente diferente da sua, você tem dificuldades em saber o que pode servir ou como agradar este visitante. Quando esta pessoa tem um discurso moralista, isto pode ficar ainda mais inconveniente.

Quando um brasileiro decide ser vegetariano, ele deve ter consciência de que está promovendo uma violenta ruptura com a cultura em que está inserido. Isto pode soar até como uma novidade para alguns, mas isso acontece porque tentamos acreditar que estamos em um mundo onde as escolhas são muito livres e todos devem acatar o que decidimos fazer com nossas próprias vidas. Tal idéia pode ser verdade na teoria, mas a realidade prática não se importa muito com teorias. A tendência para uma pessoa "excêntrica" é que ela seja aos poucos excluída daquele núcleo cultural em que determinada população vive, núcleo cultural que não adianta ser ignorado, pois costumes alimentares são parte indispensável na composição das convenções de uma nação, e o consumo de carne faz parte da história do Brasil.

Em outras palavras, ao decidir por um estilo de vida vegetariano, você está decidindo por uma ruptura cultural, e isto pode ter como consequência uma gradual exclusão social. É claro que é possível buscar outras pessoas com um estilo de vida semelhante e tentar se relacionar (principalmente se você estiver em uma cidade grande), mas isto provavelmente resultará em uma esfera de interações muito limitada, o que moldará sua vida e seu destino de forma decisiva. Pode parecer exagero, mas a decisão por um estilo de vida alimentar tem impactos tão fortes quanto à conversão a uma determinada religião, ou mesmo à escolha de uma carreira profissional. É coisa séria, muito séria.

Além disso tudo, particularmente também acredito que há algo transcendente no compartilhar de uma refeição, algo que não está tanto ao nosso alcance compreender, mas tem tudo a ver com amizade, lealdade, companheirismo e celebração. Partilhar um alimento vai muito além de meramente se alimentar, tendo ligação íntima com a construção de vínculos que podem ser duradouros. Deixar de participar diretamente do churrasco, compartilhando a mesma carne que os outros estão degustando, e ficar no cantinho do evento comendo uma "alternativa" vegetariana, impõe um distanciamento metafísico insuperável entre a maioria e sua conduta particular. Por mais nobre que sejam seus motivos, como proteger os animais, você está implicitamente declarando que não pertence àquele grupo.

Devo deixar claro que não estou dizendo que sou contra o vegetarianismo, apenas penso que aqueles que querem adotar este estilo de vida, devem ter em mente o "custo social" de tal empreitada. Às vezes não é fácil ser um "herege" alimentar, e se você for jovem então, acaba sendo pior ainda, pois jovens tendem a ter uma vida social mais movimentada, e deixar de ter vínculos nesta idade poderá lhe conduzir a uma maturidade solitária. Uma alternativa que deixaria como sugestão, caso alguém queira deixar de comer carne, é reduzir a quantidade consumida deste produto drasticamente, mas não proceder com uma ruptura total com a dieta "comum", desta forma, haverá um meio termo, ideais podem ser alcançados e vínculos sociais podem ser conservados.

Não me arrependo de ter deixado o vegetarianismo, apesar de também achar que o brasileiro come carne demais e deveria aprender a consumir outros grupos alimentares. Voltando a viver nos costumes, reaproximei-me de amigos e familiares, além de fazer novas amizades em situações onde o alimento era protagonista no cenário das interações. Eventos sociais que envolvessem comida nunca mais foram um problema, de forma que minha energia mental (antes preocupada com "o que comer") fosse redirecionada a outros problemas e desafios, como por exemplo ser alguém mais agradável, tolerante e cortês, coisas que exigem certo esforço, disciplina e aprimoramento individual. Portanto, saiba que ser vegetariano tem várias vantagens, mas não esqueça desse negócio chamado "custo social", isto é sem dúvida algo que deve entrar em suas meditações sobre o assunto antes de tomar qualquer decisão.

domingo, 26 de agosto de 2018

A ditadura da subversão e a intolerância dos tolerantes

Liberdade de expressão parece que é uma daquelas coisas que acabou se tornando uma espécie de dogma moderno. Quase não há quem diga que é contra a liberdade de expressão, e se há, estas pessoas tentam não se manifestar a respeito. Liberdade de pensar e dizer o que pensa é o que se vê entre as bandeiras de muita gente que têm certeza que são seres progressistas e muito mais "mente aberta" do que a média da população. Será?

Algo que tem se tornado cada vez mais perceptível é que boa parte destas pessoas que se dizem "liberais" e "mente aberta" têm uma extrema dificuldade em se portar frente a posições de opinião que divergem das delas. "Eu defendo que as pessoas sejam livres", dizem, mas basta o seu Joaquim Teixeira dizer que não gosta de algo que elas gostam e já ficam extremamente enfurecidas, como se uma simples opinião individual fosse um posicionamento autoritário e coercivo.

Grupos que se consideravam "marginalizados" pela sociedade, galgaram posições de poder e espaço pregando a tolerância frente às diferenças e convencendo uma sociedade conservadora a se abrir para o novo, aceitando aqueles que optavam por estilos de vida que iam de encontro com a cultura tradicional vigente. Eles chegaram lá, reinvidicaram suas liberdades, geraram a ruptura que tanto queriam e então todos poderiam ficar em paz, certo? Não foi bem assim.

Os grupos que antes se utilizaram do discurso da tolerância para serem "deixados em paz", o que é algo justo, não pararam aí. Continuaram atuando de forma a desarmar todo o arcabouço tradicional da sociedade que os ofereceu um espaço, comportando-se como verdadeiros agentes subversivos, querendo virar tudo de pernas para o ar, não só atuando de forma ativa para alterar todos os padrões consagrados pelo tempo e pela luta da sobrevivência, mas também censurando de todas as formas possíveis aqueles que se recusam a se adaptar a tal estilo de vida.

Em outras palavras, a sociedade tradicional se abriu para as virtudes do liberalismo moderno, mas os grupos que ascenderam ao poder solapando os valores tradicionais estão pouco se lixando para estas mesmas virtudes que permitiram sua própria ascensão. Não basta a eles terem a liberdade de falarem e serem o que são, é preciso substituir toda a ordem cultural vigente, fundando um total novo estilo de vida, que havia sido introduzido como "subversão", mas que busca se estabelecer como ordem hegemônica. Eis o porquê da fúria contra o cidadão comum que se posiciona contra as "novidades" que parecem ser impostas todos os dias por variadas máquinas de propaganda que se estabeleceram a partir do período pós-guerra.

Estes grupos subversivos que vêm conquistando cada vez mais espaços costumam ridicularizar as visões dogmáticas e todo o senso de orientação que havia conduzido o homem comum até aqui, o problema é que mal percebem que já há algum tempo eles estão se tornando fundadores de novos dogmas e referências existenciais, fundando, na prática, uma religião alternativa, que ganha corpo na fusão de inúmeras ideologias modernas, e à medida que assumem posições de poder, mostram-se até mais autoritários do que a ordem tradicional que buscaram suplantar apoiados no discurso da "liberdade".

Portanto, muito cuidado com aqueles que saem por aí brandando a "luta pela liberdade", a "tolerância" e o "amor", palavras que têm seus significados paulatinamente alterados de forma a servir melhor os desígnios ideológicos já traçados. Quando alguém diz que é "tolerante" e fica enfurecido com uma opinião muito diferente, pode ir desconfiando que as sementes do totalitarismo já germinam por ali.

sábado, 21 de abril de 2018

A proteção de interesses e a manutenção da pobreza

Desde o Século XVIII a humanidade já conhece a solução para a pobreza. Talvez tenha demorado para que a solução amadurecesse, mas no fim ela amadureceu, mesmo diante de ferrenhos opositores. Hoje não há mais desculpas para que um país permaneça na pobreza. Nações com recursos naturais escassos prosperaram brilhantemente, assim como povos "iletrados" conseguiram melhorar suas condições adotando instituições adequadas.

Se o Brasil, diante de toda a prosperidade produzida no mundo nos últimos 200 anos, ainda sofre com a escassez, é muito mais por uma questão de manutenção de interesses, e não por meras fatalidades do mundo "subdesenvolvido". Isso porque, aqueles que protegem interesses foram colocados como "amigos dos pobres", enquanto aqueles que sugerem o fim dos privilégios, abrindo mão da demagogia, até hoje são tachados de "elitistas" ou "inimigos da nação".

Quem não quiser cair nesta guerra chula de narrativas, e ao invés disso buscar entender os processos da prosperidade, perceberá que os discursos quase nunca batem com os números, e os números nunca se curvam à pompa dos discursos. Não há um só político que consiga multiplicar a riqueza de uma nação por meio de um decreto, tornando-se capaz de entregar todas as suas promessas populistas a partir do nada. Sempre que um político prometer demais, saiba que você está a frente de um demagogo que, provavelmente, inflacionará a moeda, endividará o Estado ou elevará os impostos até onde não puder mais. Não há mágica.

Nas últimas semanas estive lendo a biografia de Eugênio Gudin, tido como o primeiro economista brasileiro em termos formais (Gudin fundou a primeira faculdade brasileira de Economina), pensava que o Brasil deveria ter disciplina em suas contas, investir na educação básica e se abrir para o comércio com as outras nações. O resultado? Foi acusado de "entreguista" e representante do "grande capital". Apesar de ainda muito respeitado (sendo até o chefe da delegação brasileira em Bretton Woods), Gudin teve suas ideias ignoradas, e o Brasil escolhe o caminho do desenvolvimentismo, que não passa de outra palavra para "gastança de dinheiro que não existe". Hoje somos este país economicamente emperrado, onde tudo gira ao redor do Estado e a instabilidade monetária nunca dá sossego.

Hoje, toda vez que um homem toma a frente propondo austeridade e pés no chão, ao invés de gastança e "investimentos", já busco conhecer mais sobre ele, pois só a coragem de ir contra a maré do populismo já demonstra uma diferenciação quanto aos outros que ocupam os palanques por este Brasil afora. Este país é tão contaminado pela demagogia e pela mentira que fica difícil acreditar que um dia poderemos ter gente responsável ocupando os postos mais altos da nação. Liberar a economia, tanto a interna (regulações excessivas, burocracia e alta carga tributária) quanto a externa (protecionismo) deveria ser prioridade para que um dia cogitássemos acabar de verdade com a pobreza.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Os brasileiros não são democratas

O que prejudica o debate político brasileiro desses tempos é que há um certo desprezo por aqueles de opinião divergente. O brasileiro tem muita dificuldade em ouvir e simplesmente respeitar determinada posição que não esteja alinhada com suas próprias ideias.

Paradoxalmente somos bem tolerantes quanto à pluralidade religiosa, mas extremamente inquietos quanto à heterogeneidade de pensamento político. Observando a democracia francesa, britânica ou americana, nota-se um verdadeiro zelo em proteger o “divergente”, como se o bom funcionamento do “todo” dependesse do atrito mantido pelos “poucos”.

Aqui, se o sujeito fala que é a favor da liberação das drogas, não se conclui que ele tem argumentos razoáveis que fundamentam sua ideia, mas que é um “Zé Droguinha” querendo melhor acesso aos produtos. Se o sujeito é contra o desarmamento, não se pensa que ele refletiu sobre a melhor maneira de termos um país mais livre e pacífico, mas que deve ser algum tipo de psicopata belicista que vai sair por aí aterrorizando tudo e todos. O diálogo fica inviável, os bons se retiram, e a palavra acaba ficando com aqueles que transformam tudo em um grande ringue de calúnias e destruição de reputações.

Este é o cenário ideal para a ascensão de mentes totalitárias, afinal, onde não há diálogo civilizado, haverá o embate pela força, e o embate pela força costuma resultar em um vencedor tirânico o suficiente para calar todas as vozes dissonantes. A democracia parece não ter sido pensada para um munco incivilizado. Quando a voz é concedida a todos e nem todos sabem usar a palavra, o resultado é o caos e a materialização dialética da degeneração. Aqueles que cultivam o bom debate acabam sendo suprimidos por aqueles que passam por cima de todas as regras.

A democracia pode ser bela em um pequeno vilarejo suiço onde todos se conhecem e avaliam as opiniões uns dos outros com respeito e cordialidade, mas em um grande território tomado pelas massas e pela desigualdade, o resultado parece não ser aquele pensado pelos gregos. A tendência é a busca imediata por vantagens, com pouca ponderação e quase nenhuma prudência, sendo necessário algum limite que proteja a liberdade individual.

Entra então o império da lei. Entra então o constitucionalismo. Mas nada adianta uma constituição que não limite o poder da maioria, e que ao invés disso aprofunde a força deste rolo compressor que parece não dialogar com o divergente. Penso que esta é a maior diferença entre a constituição americana e a brasileira, e por motivos de incompatibilidade geográfica e demográfica, considero um erro pensar o que seria bom para o Brasil tomando por referência os países europeus e seus modelos de bem-estar social feitos para uma população homogênea e uma economia já altamente produtiva. Nessas terras selvagens, ou temos lei, ou temos despotismo.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O socialismo não leva ao socialismo

Seria interessante se o socialismo realmente nos levasse ao socialismo, não que em algum momento o socialismo chegasse a ser um sistema moralmente aceitável, mas se pelo menos funcionasse e nos levasse a uma condição de sobrevivência tolerável, poderíamos até reconhecê-lo como algo "discutível". Porém a realidade é muito, muito longe da teoria. O socialismo não nos leva ao socialismo, ele nos leva à escravidão.

Imagine um senador do PSOL defendendo esta ideologia e dizendo que com ela teremos mais liberdade, ele pode ter as melhores intenções, mas desconhece o que está realmente defendendo. Quando jovens inexperientes caem neste erro podemos até tolerar, mas adultos experientes defendendo tal ideia somente nos leva a duas possibilidades: (I) o sujeito tem alguma deficiência cognitiva ou (II) trata-se mesmo de um mau-caráter querendo subir ao poder.

Está mais que provado, tanto pela teoria praxeológica austríaca, quanto pelas experiências históricas reais, que a tomada dos meios de produção e a coletivização da propriedade pelo estado nos leva, inevitavelmente, ao colapso econômico, à destruição de riquezas, à pobreza e, consequentemente, ao despotismo, pois apenas uma tirania violenta conseguiria se manter no poder frente à dizimação humana que estaria em curso.

Em outras palavras, podemos apenas relacionar "socialismo" a "liberdade" se deturparmos completamente o sentido de "liberdade", de forma tal que um presidiário pudesse ser considerado um homem livre, simplesmente porque ele tem um teto, alimentação e pequenos momentos de lazer. Ora, não seria isso a situação do regime cubano em suas devidas proporções? Será que isso é liberdade para os socialistas? Simplesmente sobreviver? Não entrarei no mérito se os cubanos são felizes ou não, eles podem até ser, assim como um escravo pode ser feliz ao ser bem tratado por seu senhor. Mas isto definitivamente não é liberdade.

Eu sou mais feliz sendo livre, pois gosto de tentar coisas novas, empreender, ter meus projetos individuais, lidar com o desconhecido, mas este sou eu, e sei que nem todos aspiram os mesmos valores. Você não precisa ser livre para ser feliz, até porque quanto mais liberdade se tem, mais responsabilidade também é colocada sobre seus ombros. O socialismo é uma revolta contra a responsabilidade, é uma luta pela libertação da realidade, é uma fuga e, sendo um pouco mais duro, uma forma de suicídio.

Aquele socialista cheio de energia humana e que vive falando de amor, está, na realidade, morto, ele está se desligando das coisas como elas são, ele não quer alterá-las de forma engenhosa e racional como os empreendedores, ele quer a destruição imediata de tudo e um redirecionamento cósmico para sua utopia. Ele busca liberdade e, sem perceber, conduz a sociedade à escravidão, ao declínio e até a sua destruição.

E o que esperar de um país onde as aspirações políticas estão canalizadas para um objetivo intangível? Simplesmente a ascensão da demagogia mais vulgar, da hipocrisia, da mentira e do solapamento dos valores morais mais fundamentais. Quanto mais forte é o ideal socialista em uma sociedade, mais caótica ela será, e quanto mais tempo ela for liderada por tais ideias, mais difícil será reverter o processo. A vigilância sobre o avanço desta ideologia deve ser constante, implacável e incansável, pois nós ainda temos um pouco de liberdade, mas seria lamentável se nossos descendentes fossem coagidos a acreditar que "não há nada mais livre que a escravidão".

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A ilusão do secularismo

Às vezes fico impressionado sobre como minha geração trata a religião e os incentivos espirituais que permeiam a formação e a manutenção de uma cultura. O processo de laicização da sociedade, sido iniciado pelas ideias iluministas, e conduzido pelos adoradores do Estado moderno, mais especialmente os maçons, que sempre estiveram em posição de diminuir a autoridade da Igreja como reguladora das relações humanas, colocou nossa civilização em um estado de confusão espiritual sem precedentes, um mundo paralelo onde o cristianismo é só mais uma mera religião.

Há poucos dias vi algúem compartilhando no Facebook um abaixo assinado para que religiosos fossem proibidos de se candidatar a cargos públicos na política. O absurdo nem é tão grande pela falta de apreço pela liberdade dessa juventude anti-religião, mas a ilusão de que o mundo não se sustenta em crenças espirituais, de que tudo está no Estado e na ciência, como se tudo fosse relativo, o bem e o mal, o certo e o errado, tudo é construção social e o conservador é um inimigo do incontestável progresso da civilização.

Ora, o que vejo nessa geração não é um processo de libertação, mas sim uma outra opção de servidão, a servidão das ideias frouxas que mudam do dia para a noite, que não sobrevivem ao tempo, que estão sempre em mutação, não uma mutação lenta e salutar, mas uma mutação confusa e prejudicial para qualquer mente que busca um certo equilíbrio. Esta juventude que não crê em algo além desta vida, coloca todas as suas esperanças de um mundo melhor no aqui e no agora, é um exército de pessoas insatisfeitas, sedentas por prazeres mundanos que não os levam a lugar algum.

Não é de se estranhar que a diminuição do poder da Igreja no mundo ocidental está diretamente ligado ao aumento do poder do Estado e à formação de uma aristocracia seleta que se alterna no poder. Os pobres iludidos “jovens do povo” acham que vão assumir o poder com a democracia e a luta em favor dos pobres, uma baita ilusão, o máximo que vão conseguir será formar uma nova elite, tão déspota e concentradora como a anterior.

Mesmo com a ascensão do estado laico, o cristianismo ainda está presente no subconsciente dos ocidentais, esta religião, que construiu nossa civilização e abriu as portas para o desenvolvimento humano desde a queda do Império Romano, permeia nossa leis, nossos costumes, nossos relacionamentos, nossos planos de vida, e inclusive nossas pequenas decisões do dia-a-dia. Ser contra religião não é ser a favor da neutralização da política, é apenas ser a favor de outras ideias que não suportam as ideias religiosas e se utilizam da carcaça estatal para ocupar seu espaço e suprimir a liberdade em prol de seus próprios interesses.

domingo, 9 de agosto de 2015

Escolha a liberdade

A sensação de exploração sempre existirá enquanto os recursos forem escassos, a luta pela sobrevivência fez, faz, e sempre fará parte de nossa existência. Você pode escolher entre se isolar em um ponto distante na natureza, produzir seu próprio alimento e viver da maneira que melhor o(a) satisfaz, ou você pode viver em sociedade, oferecer seu trabalho e buscar as melhores vantagens e oportunidades de acordo com suas ambições pessoais.

O capitalismo não impõe uma forma pré-determinada de como as pessoas devem viver, este é um sistema de liberdade, de livre-escolha. Você pode escolher ter uma vida simples, um salário modesto, vestir uma calça furada e andar por aí ajudando os pobres e necessitados, ou você pode empreender, investir em algum negócio, acumular bens materiais e ter uma vida de rei (se for bem sucedido).

Elites sempre existirão, mas qual seria a melhor opção? Uma elite de políticos poderosos que nada produzem à sociedade e utilizam a força para sua manutenção no poder, ou uma elite econômica que só pode ser sustentada através da melhor oferta de bens e serviços possíveis aos demais? O mercado é o sistema democrático mais implacável que existe, nele milhões, bilhões, trilhões de votos estão sendo computados diariamente, nele quem tem poder é o indivíduo, e a paz é uma dos preceitos indispensáveis para sua sobrevivência.

Em uma economia de mercado ninguém é forçado a nada, não existe uma maioria impondo o que é melhor para todos, o que existe são indivíduos buscando seus objetivos, cada um com sua personalidade e distinção, ao mesmo tempo que empoderam aqueles outros indivíduos que merecem reconhecimento pelos bens e/ou serviços que ofertam, sejam eles materiais, intelectuais, artísticos etc.

Quanto mais poder (dinheiro) é direcionado à classe política, mais fraco se torna o mercado, quanto mais fraco o mercado e a economia, maior a sensação de exploração. Muito se trabalha, pouco se poupa, parece que nunca conseguimos sair da corrida dos ratos. Mas quando o mercado tem seu espaço e os indivíduos podem prosperar, tudo se transforma, mais riqueza e oportunidades são geradas, as pessoas conquistam mais autonomia e a vida ganha uma nova dinâmica de otimismo, motivação e cooperação.

Optar pelo mercado ao invés do Estado significa optar por uma libertação gradual, longe das receitas mágicas e das ideologias utópicas, é focar em si mesmo e oferecer o melhor que se pode fazer, é gerar valor e encontrar oportunidades onde há demanda, é construir a própria segurança e depois olhar para trás e reconhecer que você é muito maior e mais capaz do que imagina. No final das contas, não existe almoço grátis, mas é melhor lutar pelo seu almoço na liberdade do que ter seu almoço dependendo daqueles que acreditam saber o que você precisa para ser feliz.

sábado, 14 de março de 2015

Do socialismo ao liberalismo

James Watt
Inventou o motor a vapor atravéns de seus anseios
individuais e constribuiu mais para a humanidade
do que qualquer socialista ou burocrata.
Estive pensando e já há algum tempo gostaria de escrever sobre minha drástica mudança de viés ideológico na área da política e da economia. Muito me faz refletir o fato de hoje defender algo que há cerca de dois anos eu iria considerar abominável e retrógrado. Faz-se necessária uma análise cronológica de como os eventos evoluíram a este ponto. Hoje me considero um liberal (embora simpatize com o conservadorismo em alguns aspectos), defensor do estado mínimo, em favor do livre mercado, da ênfase no indivíduo e no voluntarismo, partindo do pressuposto de que quanto menos paternalismo de uma classe superior (estado), mais responsáveis são os indivíduos e os grupos sociais para que sejam protagonistas de suas próprias ascensões, conquistando um sentimento de independência que tende a se solidificar de acordo com o aumento da liberdade. A esperança do progresso com base no apadrinhamento do estado torna a vida humana uma experiência de responsabilidades vagas e confusas, além de uma coletivização que pouco tem a ver com solidariedade ou fraternidade, e sim com dominação e imposição de determinadas ideias sobre seres-humanos que em partes foram desqualificados de individualidade.

Pois bem, meu interesse por política começou a se manifestar quando adolescente, porém meu conhecimento era quase nulo, hoje considero que sei pouco, mas sei bem mais que naquela época. Meio que por um comportamento natural eu gostava da ideia do capitalismo, aquilo parecia fascinante, o progresso operado pela civilização nos últimos séculos soava para mim como uma experiência vitoriosa e irrefutável, hoje considero que esse meu instinto da adolescência estava correto, e que o liberalismo já devia fazer parte de meu passado (para quem acredita no espiritismo e na reencarnação). Porém essa minha atração pelo capitalismo, mesmo não tendo sido tão beneficiado por ele desde um determinado período da minha vida, não se alongava a uma verdadeira posição política, era apenas uma admiração do mundo assim como ele é, acreditando que tudo estava em progresso e que a família da favela, mais cedo ou mais tarde, seria agraciada pela ordem natural das coisas, conhecendo assim o conforto e a fartura assim que sua vez chegasse e seu mérito laboral fosse recompensado.

O tempo passou e entrei na Universidade, primeiramente em Filosofia, apenas por um semestre, e por seguinte em Jornalismo, onde permaneci por dois semestres. Este período de um ano e meio eu considero como o meu início no pensamento e posicionamento político mais atuante, porém confesso que este cenário era bem vago e pouco direcionado com precisão, mas todo começo é assim. De certa forma ainda simpatizava com o capitalismo, porém notava o início do desenvolvimento de uma mente de esquerda, tempo esse que tinha simpatia pelo PSOL, por exemplo. Vale ressaltar que este ambiente acadêmico que frequentei era um antro da esquerda, inclusive até hoje ainda tento entender a força massacrante que este viés ideológico possui no campo da Comunicação Social. Minha professora de Sociologia assumia em sala de aula que era Marxista, estudávamos o Manifesto Comunista como uma bíblia, e lembro até que ela exibiu aquele filme sobre a revolução industrial que retrata a luta de classes e a exploração ao proletariado, e isso numa Universidade privada que pertence a um grupo industrial, melhor nem pensar no que acontece nas salas de aula das “públicas”.

Mas por incrível que pareça, essa convivência não me colocou em sintonia com o esquerdista way of life. Eu apenas acreditava em quase tudo que os esquerdistas diziam, mas ainda tinha meu grande respeito pelo mercado e à livre iniciativa, isso me colocaria, talvez, na posição de um Social Democrata. Neste momento eu acredito que entrei na sintonia do perfil “geral” da juventude da classe média brasileira, ou seja, Sociais Democratas que votam em partidos Socialistas porque simplesmente a esquerda conseguiu transformar o PSDB num símbolo da “direita opressora”. O que percebo é que esses amigos que votam no PT, PSOL etc, geralmente anseiam tudo que o PSDB defende, um sistema bem parecido com o Europeu, mas como disse, o PSDB virou o lobo mal, isso confirma a tese da força e do poder que esses professores e comunicadores da esquerda possuem quando escolhem um inimigo.

Após este um ano e meio fui para a Escócia trabalhar como voluntário em uma comunidade para pessoas especiais. Foi neste ambiente que eu dividia meu tempo entre praticar a caridade e amadurecer meu posicionamento político. Durante esta vida em comunidade assimilei tudo que a esquerda “do bem” sustenta. Elevei aquele estilo de vida a um estado utópico, enxergando ali o máximo da virtude e da benevolência, comecei a criticar o capitalismo e procurar por suas falhas, demonizei o materialismo e investiguei o que deveria ser feito para tornar o mundo melhor. Assimilei todos os mitos econômicos que a esquerda adora pregar e comecei a abraçar teorias utópicas de um mundo rico, lindo e sem sofrimento. Foi um processo de esquerdização avassalador, o comunismo e o socialismo eram fontes de esperança e a solução para a maior parte dos problemas sociais que eu observava. Você já viu esquerdista que não tenha uma resposta para tudo? É assim que funciona, os caras não dão o braço a torcer, acham que a vida e a existência são uma receita de bolo e que o capitalismo é a fonte de toda miséria, pura falácia! Hoje noto o tamanho de minha ingenuidade ao perceber que a comunidade exemplar onde trabalhei era sustentada em grande parte pelo setor privado, fundações, doações etc, e aquele lugar só consegue se manter com os recursos conquistados pelo capitalismo, ao contrário não passaria de uma comunidade capenga e totalmente insegura economicamente.

O que me chama atenção desse tempo passado é que mesmo com toda essa vivência ideológica, aquela imagem da foice e do martelo sempre foi um motivo de certa repulsa para meus olhos, por mais que eu acreditasse em grande parte da teoria, os símbolos da ideologia me causavam um pouco de desconfiança e um sentimento de autoritarismo, e não de libertação. Isso eu considero mais uma reação inconsciente das minhas verdadeiras e mais íntimas convicções ideológicas que mais tarde iriam, felizmente, despertar. Saliento que esse estilo de vida me fez pisar no freio profissionalmente, ajustar-me ao sistema capitalista explorador não era tão importante, assim perdi tempo e hoje corro atrás para me recuperar, mas não me arrependo, nada é por acaso e experiências são preciosas.

Barão de Mauá
Um patriota traído por querer transformar
seu país em uma potência.
Lembro-me que no auge de minha esquerdice eu aparentava ser uma pessoa super humana e benevolente, mas por dentro guardava o rancor autoritário da ideologia, assim como a prepotência de querer que os outros acreditassem no que eu acredito (muito comum entre os camaradas, principalmente os que se acham mais inteligentes). Julgava-me acima dos manipulados do sistema de consumo, aqueles pobres seres infelizes que não sabiam achar a felicidade nas coisas simples da vida. Tornei-me a típica figura esquerdista, um cara do bem que transformou seu desejo de mudar o mundo em um autoritarismo branco. Hoje eu agradeço muito por ter vivido isso, pois agora minhas convicções do outro lado são muito mais fortes. Esquerdista com papinho humanitário e virtuoso não me engana mais, a vida é um grande trade-off e toda intervenção social terá seu lado negativo, um líder deve transformar seu sentimento humanitário em uma verdadeira ação pragmática e meticulosa no momento de planejar e tomar decisões, caso contrário cairá na ilusão do curto prazo e as consequências serão piores.

Agora as coisas começam a ficar legais. Depois desta experiência no exterior, decidi estudar Comércio Exterior, imagina só, um esquerdista estudando business. Mas tudo bem, estudar Comex e Economia não me rebaixaria ao nível de capitalistas materialistas, eu poderia trabalhar para o estado, fazer algo humanitário, trabalhar em ONGs etc. Logo no primeiro semestre, ao estudar Introdução à Economia, entrei em estado de fascinação, as aulas eram um banho de lógica que poucos esquerdistas têm acesso (a maioria nunca abriu um livro de Economia, ou melhor, a maioria nem leu o Manifesto Comunista, só vão na onda), comecei a me divertir e me encontrei naquele campo do conhecimento. Economia é o máximo (apesar das minhas limitações matemáticas devido ao trauma dos conteúdos que o governo nos manda estudar no ensino médio). As semanas passavam e eu gostava daquilo cada vez mais. Porém eu ainda era esquerdista e queria usar este conhecimento para combater a pobreza e fazer algo bom pelo mundo que não convivesse com esse egoísmo capitalista, oh yeah, let’s fight the 1%!

Eis que nos aproximamos do grande momento. Certo dia vi um post ou comentário de um colega da faculdade em algum lugar das redes sociais, ele, de uma maneira que nunca vi antes, defendia a “privatização de tudo”! Heim?! Privatização de tudo? Você só pode tá brincando com a minha cara. Claro que eu nunca iria concordar com aquele cara, imagina só, num mundo tão desigual e injusto você querer viver só do privado, que coisa maluca. Mas aquilo ficou na minha cabeça, e martelava e martelava, até que pensei: “Bem, eu não concordo de jeito nenhum, mas eu deveria ouvir o outro lado, não? Se um cara instruído defende uma hipótese dessas, deve haver algo que faça sentido por trás, ou será que esses liberais são seres do mal que não querem um mundo melhor? Não faria sentido.” Eis que o esquerdopata resolveu ser humilde e conhecer outras ideias.

Comecei a procurar materiais sobre privatizações e economia liberal, até que cruzei com um artigo do Instituto Ludwig von Mises Brasil, eu não lembro que artigo vi, mas era o tipo de coisa que qualquer esquerdista cuspiria em cima e nem acreditaria que alguém defenderia algo daquele tipo. Mas eu comecei a ler, e fui lendo, e quanto mais eu lia, mais queria novos artigos, aquilo foi sendo assimilado por mim de uma maneira impressionante, aquele absurdo estava fazendo sentido na minha cabeça, pouco a pouco minha mente utópica foi puxada para a realidade e me fez entender o contexto social de uma forma completamente diferente. O capitalismo não era esse demônio, era algo natural e benéfico, a lógica era perfeita e ao mesmo tempo não garantia sucesso absoluto. Era como a vida, cheia de riscos e aventuras, porém muito estimulante e convidativa a um constante melhoramento individual e cooperativo. Fiz questão de derrubar vários mitos, como a devastação da natureza, o acúmulo de riqueza, a existência da desigualdade, e a melhor parte, as reais razões da pobreza que assola nosso país, a África e tantos outros. Por momentos fiquei espantado ao perceber como a esquerdice me socou em outro mundo.

Desde então não parei, li alguns livros e concluí que eu estava no mundo da lua defendendo a utopia socialista que sempre acabava em tragédia. Porém não virei seguidor de Mises, sou a favor de um estado e não gosto do radicalismo, porém acredito em algo que o Brasil nunca experimentou, que é o liberalismo econômico. É claro que tento sempre melhorar meu ponto de vista, mas uma coisa é certa, vejo muito mais sentido no que acredito hoje do que o que defendi anteriormente. Mais do que mero conhecimento político-econômico, o liberalismo me deu a maior lição de moral da minha vida, e que sou muito grato, que é: você nunca está certo, somos todos diferentes, a vida é complicada, o que você acredita ser bom talvez não seja para outra pessoa, respeite a liberdade alheia, respeite o consumista e o minimalista, cada um vive o que quer e o que busca, você não é ninguém para julgar alguém, você nunca terá a fórmula da vida perfeita. Parece básico não é? Mas quando você está tomado por uma ideologia ou doutrina, lições básicas do bem viver podem se afastar, dando espaço para imposições autoritárias do que é certo e o que é "melhor" para todos.

Bem, hoje aceito a vida como ela é, foco em mim e ajudo os outros sempre que possível, sinto-me livre de uma ideologia que nos escraviza silenciosamente. Poderia ficar aqui escrevendo muito mais sobre esse assunto, mas chega por hoje. Fecho com um dos meus vídeos favoritos sobre o assunto aqui abordado, coisa curta: