Mostrando postagens com marcador Camphill. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Camphill. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de março de 2024

O que aprendi trabalhando com pessoas especiais

Trabalhar todos os dias com pessoas especiais é uma experiência que muda muitas de nossas referências enquanto seres-humanos. Uma destas referências é a noção de valor e capacidade de cada pessoa em si. Durante nossas vidas é comum ouvirmos falar de indivíduos que não se achavam capazes de ter uma rotina funcional, que acreditavam que por uma tragédia do destino não foram agraciados com praticamente nenhuma habilidade, que são incapazes e não entendem porque habitam este mundo. Em tempos de redes sociais, onde por todo lado a ideia de indivíduos perfeitos e conquistadores, idealizadores de grandes projetos, é vendida como se fosse praticamente o único caminho para a grandeza humana, este desconforto da “pessoa comum” é ainda mais presente e profundo.

Isto é tudo uma grande bobagem. Uma ficção para atrair os desocupados e entediados, assim como vender ideias de felicidades não apenas ilusórias, como grosseiras e vulgares. Digo isto porque o fato é que há uma diversidade avassaladora de boas maneiras de se viver esta vida e os falatórios populares estão longe de conseguirem abarcar todas as combinações existenciais disponíveis ao nosso redor. No campo do valor humano, todos podem se sentir especiais apenas por existirem, pois, a mera existência já é um acontecimento especial e extraordinário.

Não existe absolutamente ninguém sem valor, sem habilidades e sem capacidades incríveis. Se você colocar um pássaro dentro da água, ele não nadará porque é um incompetente, preguiçoso ou incapaz, ele não nadará porque sua natureza não pertence àquele ambiente, ele foi feito para o ar, para o livre movimento de suas asas rasgando os céus e coordenando seus movimentos ao soprar dos ventos.

Se você por algum momento achar que não tem tanto valor, que não é tão capaz, que não sabe porque está aqui, pare imediatamente. Você provavelmente está no lugar errado, está fazendo escolhas erradas e está entrando em um ciclo de enganos que traem sua própria natureza. Concentre-se no seu “eu”, entenda quem você é e siga sua procura sem pressa. Em algum momento encontrará seu lugar, e ficará surpreso com sua capacidade, criatividade, poder e destreza para fazer tudo que se propõe.

Imagine um homem primitivo que recebe um martelo sem ter a mínima ideia para que serve. Ele tenta cortar um pão com o martelo, tenta caçar um cervo, tenta coletar água no rio, e tudo se torna um fracasso com aquela ferramenta imprestável simplesmente porque ele não sabe para o que ela serve. Até que certo dia, meio frustrado e desesperançoso, o homem usa seu martelo marretando uma rocha, que se quebra em pedaços afiados. Ao ver a rocha quebrada e as novas formas à sua frente, ele começa a perceber a utilidade daquela poderosa ferramenta. Com o tempo ele passa a encontrar uma infinidade de utilidades para a mesma, passando a executar todo tipo de projeto que o ajuda a melhorar de vida, além de se proteger de possíveis ameaças.

Somos como homens primitivos agraciados com vocações fantásticas, porém estas vocações não nos são reveladas, nós temos que adentrar uma jornada de autoconhecimento e experiência própria para conseguir descobri-las. Este é um processo que requer calma e paciência, e talvez este seja uma das maiores dificuldades de nossa apressada geração.


Mas o que tudo isso tem a ver com pessoas com necessidades especiais?

Simples, absolutamente todas elas também têm condições de contribuir e realizar uma série de coisas, mesmo com todas as suas aparentes “limitações”. Trabalhando com dezenas de pessoas com síndrome de down, autistas, entre outras condições mentais, isto tudo ficou muito mais claro para mim. A ideia de que absolutamente todo ser-humano tem um valor inestimável.

As pessoas com necessidades especiais que vivem em comunidades Camphill ao redor do mundo são simplesmente impressionantes. Com anos de prática e boa educação, tornam-se bons padeiros, fazendeiros, cozinheiros, comunicadores, artistas, entre outras infinidades de ocupações que nos deparamos ao viver em um lugar como esse. Todas as vezes que vi uma pessoa com alto grau de autismo executando algum trabalho difícil, fiquei completamente envergonhado e constrangido ao lembrar de todas as vezes que ousei reclamar da minha vida e de minhas obrigações, e mais ainda das vezes em que tive alguma crise de autoestima e questionei minhas próprias capacidades de viver neste mundo. É simplesmente um choque de realidade, algo até difícil de explicar a quem não vive aqui, e por isso que sempre digo à minha esposa que Camphill é um negócio que “só vendo para acreditar”.

Portanto a maior lição de vida para mim ao trabalhar com estas pessoas é que absolutamente todos nós somos capazes e valiosos, e a junção entre estar em lugares errados e a venda de vidas artificiais que vemos na mídia e redes sociais nos levam a estados mentais de compreensões completamente equivocadas sobre a realidade da existência humana, levando-nos a conclusões mais equivocadas ainda sobre nosso valor como indivíduos.

Este mundo é muito amplo, complexo e cheio de possibilidades. Nunca lhe permita acreditar que sua existência tem menos valor que a de outros, ou que não há nada para você. Possivelmente o único problema é que você na verdade sequer se encontrou ainda, e que vem se enganando há anos, ou talvez décadas, afastando-se da sua própria realidade e, consequentemente, de onde deve estar.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Nossa vida em Camphill Village Copake


Após alguns meses desde o último post deste blog, retorno para contar um pouco da experiência que eu e minha esposa, Iasmim, estamos vivendo desde que deixamos o Brasil para passar uma temporada no EUA. Escrevo neste momento de nosso aconchegante quarto em Tamarack, uma das várias casas do Camphill Village Copake, a maior comunidade Camphill da América do Norte, onde vivem cerca de 235 pessoas distribuídas em cerca de 300 hectares de lindas terras ao norte do estado de Nova York.

Desde que chegamos aqui ficamos impressionados com o tamanho e a infraestrutura deste Camphill, de dimensões muito diferentes das do que vivi na Escócia em 2011 e 2012. São várias casas, vários workshops, clínica médica, centro administrativo, centro de convivência com café e loja, fazenda com grande produção diária de carne e laticínios, centro de eventos, todo tipo de maquinário para produção agropecuária, campos férteis para agricultura e tudo que podemos imaginar de necessário para uma comunidade vibrante e praticamente autossustentável.

Para quem é novo em meu blog e não viu outros posts, uma comunidade Camphill é um lugar criado para a inclusão social e profissional de pessoas com necessidades especiais. Essas pessoas podem viver aqui a vida inteira e conquistam um nível de autonomia e dignidade que sequer conseguimos imaginar muito bem no Brasil. Nós vivemos em uma casa com 5 pessoas especiais de diferentes diagnósticos.


Como as experiências que temos no Brasil com pessoas especiais costumam ser raras e até pobres, é difícil explicar a um brasileiro a realidade de uma comunidade Camphill, um lugar incrível que só conseguimos conceber realmente quando estamos nele. Viver e trabalhar com essas pessoas é extremamente gratificante, estimulante e divertido. E é por isso que cada vez mais brasileiros vão passar uma temporada em uma comunidade Camphill ao redor do mundo. Aqui em Copake, além de mim e Iasmim, temos mais 3 brasileiros. Porém eles vêm e vão, e muitos passaram por aqui em outros anos.

Todos que se inscrevem para viver aqui e são aceitos, são alocados em algum local de trabalho. No meu caso eu me tornei um fazendeiro integral, trabalhando na fazenda tanto de manhã quanto à tarde. Um trabalho desafiador que tenho me identificado cada vez mais, havendo sempre algo novo para aprender todos os dias. Já a Iasmim foi alocada em duas posições diferentes, pela manhã ela cuida da casa e geralmente faz almoço, e pela tarde ela trabalha em um workshop chamado “Estate”. Esta é um workshop difícil de explicar aos brasileiros, mas no geral é ligado a uma longa lista de trabalhos ao ar livre, como corte de grama, corte de madeira com serra elétrica, armazenamento de madeira para o inverno, produção de Maple Syrup, e serviços que exigem ação física e operação de máquinas.


Além do trabalho em nossos workshops, também trabalhamos na casa onde moramos, tanto com atividades domésticas comuns como limpeza e preparação de refeições, tanto com os cuidados aos residentes especiais. Em uma comunidade Camphill aprendemos um pouco de tudo, e é por isso que considero este local um dos melhores lugares para alguém se desenvolver como ser-humano. Este é um lugar da prática e você está sempre com as mãos e a mente ocupadas com diferentes tarefas. Em verdade muitos brasileiros que chegam aqui acostumados com uma vida de estudos ou trabalho em escritório, geralmente contando as horas para irem para casa, ficam impressionados com o quanto se desenvolvem e o tanto de coisas que podem fazer durante um dia.

Além de uma vida muito ocupada com todas as responsabilidades que lhe são atribuídas, quem vive e trabalha em Copake usufrui de um cenário natural exuberante de morros, florestas, rios, riachos, lagos e animais. O contato com a natureza é total e a qualidade de vida imensurável, totalmente diferente da realidade urbana de se viver em uma grande metrópole brasileira, como Fortaleza, de onde viemos. Desde que chegamos aqui nossa saúde nunca foi tão boa. A minha sempre foi boa, mas melhorou ainda mais. Já Iasmim praticamente se curou de uma série de problemas pequenos que tinha, como gripes frequentes, crises alérgicas, entre outras coisas que eram um incômodo constante no Brasil.

Estamos nos aproximando de completar 6 meses neste lugar incrível e teria muito o que falar sobre o Camphill, a América, nossos passeios na região, entre outros assuntos, mas deixarei tudo isso para próximas oportunidades. Meu objetivo neste post era apenas lhe dar uma breve introdução sobre onde estamos e o que estamos fazendo, e a partir disto poderei puxar mais assuntos. Até breve.


Tamarack, nossa casa

Fim de tarde tirando leite ao ar livre

Desbravando trilhas e cuidando dos animais da fazenda

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Considerações sobre síndrome do regresso

Nunca cheguei a fazer um intercâmbio de estudos como os que estamos acostumados a ver, na vez que quase fui, umas coisas deram errado e acabei não indo. Mas como você pode ter visto neste blog, já morei no exterior, um ano na Europa e uns cinco meses nos EUA. Ambas as experiências foram ótimas, especialmente a primeira, porém não queria falar sobre isso, e sim sobre o "depois".

Muita gente tem a tal "síndrome do regresso", uns têm pouco e passa rapidinho, outros demoram mas depois de um certo tempo fica tudo bem, outros têm muito mais dificuldades em superar a mudança radical, geralmente saindo de um lugar melhor para uma vida brasileira bem "marromeno". É claro que isso varia muito de pessoa pra pessoa, até porque todos têm circunstâncias diferentes.

Digo isso pois acredito que os mais "bem de vida" não sentem tanto o impacto. Peguemos por exemplo um filho de empresários bem sucedidos que viveu em Londres por um ano e voltou pra casa, ele chegará em casa e seu padrão de vida continuará elevado, por mais que o Brasil esteja um caos. Ele tem carrão, mora num condominiozão, quase não tem preocupações etc. Ele ficará triste por não fazer mais viagenzinhas na Europa, mas vai passar.

Agora pegue um jovem de classe média com dificuldades financeiras que viajou pelo "Ciência sem Fronteiras", o sujeito passou um ano na Austrália bancado pelo governo e tendo experiências completamente "fora do comum" em relação à sua vida média brasileira. Não se preocupava com assaltos, vivia bem, estudava em uma universidade de primeira e assim por diante, dá pra imaginar como uma temporada assim é especial pra essa pessoa (é bom salientar que ainda assim sou contra o programa).

Este segundo sujeito vai ter um choque violento quando voltar pra casa. Não conheci tantas pessoas que fizeram o programa, mas conheci pessoas de classe média que passaram um tempo no exterior e voltaram: man, it's sad. Eu sou uma dessas e confesso que mesmo há três anos no Brasil (decidi me formar aqui antes de fazer qualquer outra coisa mundo a fora) a readaptação é muito difícil. Eu tive e ainda tenho certa dificuldade, mas conheci pessoas em situações muito piores.

É complicado. Vivi no Reino Unido, em um interior belo e civilizado, num clima muito agradável (sim, acho o clima britânico agradável) e ainda lembro a sensação de liberdade, segurança, bem-estar, pessoas educadas, moeda forte e todas essas coisas clichês que já sabemos sobre o primeiro mundo. E então voltamos ao Brasil, no meu caso a uma capital do nordeste: calor, violência, trânsito caótico, pessoas mal-educadas, muros altos, pichações, inflação, salários baixos, impostos sem retorno, escândalos de corrupção e nada funciona com exceção de algumas partes do setor privado (se você puder pagar).

Só quem viveu fora sabe, e é por isso que às vezes fico com inveja de quem nunca conheceu o lado de lá (parece que estou falando de outra dimensão, né?), essa pessoa pode até não ter tido as experiências que tive, mas pelo menos ela costuma ser satisfeita com sua realidade. O ser-humano é muito adaptável, se você criar ele em um casebre sem eletricidade e água encanada, ele vai aprender a viver e pode até ser feliz, mas se você colocar ele em uma mansão por alguns anos e depois obrigá-lo a voltar ao casebre, aí a coisa fica feia. Ele pode até voltar, mas provavelmente vai passar muitos anos em melancolia, lembrando dos momentos que teve enquanto morava naquela mansão.

Há muita gente nessa situação, ou prestes a entrar nesta situação, a sugestão que tenho é que siga vivendo e tente encontrar o lado bom da vida, por mais tenebroso que tudo possa parecer estar, aos poucos você vai se readaptando. Tenha paciência e lembre-se: somos muito adaptáveis. No meu caso duas coisas são de extrema importância, uma é a religião e os diálogos constantes com Deus, a outra são os livros, onde posso viajar a vontade, conhecer lugares e pessoas interessantes sem sair de casa, mas o mais importante mesmo é se esforçar para se reintegrar à sua realidade, e isto exige aceitação para assimilar as circunstâncias e dedicação pra seguir em frente sem olhar para trás.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Como ser voluntário em um Camphill - Parte III

Uma das casas de Corbenic.
Agora que já vimos a primeira e a segunda parte, chegamos ao website da comunidade camphill escolhida, enfim você iniciará o seu contato com o exterior. Não tem nenhum segredo, após explorar o website e saber tudo sobre a comunidade escolhida, leia a parte sobre “Voluntariado” que geralmente eles disponibilizam para você ficar ainda mais informado(a) sobre o funcionamento de coisas importantes que deve saber. Procure a forma de contato que a comunidade disponibiliza, geralmente por e-mail. Algumas comunidade da Irlanda selecionam seus voluntários diretamente pelo o website, neste caso siga as instruções que eles oferecem e faça o que for necessário.

Após descobrir o e-mail da comunidade, basta escrever para eles tudo que você quer saber, “tem vagas para novos voluntários?”, “quando eu posso aplicar?”, “quais as exigências?”, jogue suas perguntas, muitas deles eu mesmo posso responder, mas para primeiro contato essas perguntas básicas caem bem, faça uma curta apresentação sua é claro, nome, nacionalidade, ocupação, expectativas etc. Após ter enviado o primeiro e-mail, aguarde a resposta e a partir daí cada Camphill tem seu processo, siga as instruções e as exigências de cada um e tudo deverá correr bem.

Quanto ao processo de seleção basicamente será o seguinte, dependendo de comunidade para comunidade, em Corbenic pelo menos é assim:

1. Um formulário será enviado para que você o preencha com todas as suas informações.

2. Seu formulário será analisado no escritório juntamente com o(a) coordenador(a) da comunidade.

3. Se eles acharem o seu perfil interessante para a comunidade lhe escreverão logo em seguida.

4. Será marcada uma entrevista via Skype para que eles confirmem se você pode pelo menos se comunicar em inglês. Sem desespero, é só uma entrevistazinha com umas 3 perguntinhas tranquilas. Eles fazem isso só para evitar que pessoas que não saibam dizer um “a” de inglês tentem se candidatar. É uma peneirinha, ninguém tá esperando um inglês de nativo, eles sabem que você é estrangeiro(a) e estão acostumados a lidar com inglês de gente da Ásia e do leste Europeu, ou seja, se você pelo menos assistir filme em inglês eu creio que já se saia melhor que os candidatos vindos dessas partes do mundo.

5. Após você ser aprovado na entrevista, serão solicitadas duas referências de pessoas que você conhece que tenham trabalhado com você, pode ser um professor, um chefe, um colega de trabalho, tem gente que até arrisca alguém da família, mas não é o recomendado, procure alguém mais imparcial. As referências devem ser, é claro, em inglês, se a pessoa não souber você deverá traduzir, mandar e torcer para que o Camphill não invente de contactar essas pessoas que não saberão responder o e-mail (até o telefone deles deve estar na referência, mas muito dificilmente eles ligarão).

6. As referências deverão ser enviadas por e-mail ou correio, agora não me recordo.

7. Também será exigido um documento de antecedentes criminais, emita-o na delegacia mais próximo e leve a um tradutor juramentado, creio que este documento só precisará ser escaneado e enviado.

8. Alguns Camphills também exigem algum exame médico em relação a sua saúde, este não é o caso de Corbenic.

9. Basicamente é só isso, se tudo correr bem a sua vinda será confirmada por eles.

Depois de toda essa papelada interna do Camphill a sua ida será finalmente confirmada quando eles emitirem uma carta de visto, essa carta é o papel mais precioso de todo o processo (no caso do Reino Unido) pois ela é basicamente um comunicado do Camphill ao governo do Reino Unido dizendo que eles querem trazer você para ser voluntário, oferecerão tudo para sua manutenção no país e CONFIAM plenamente na sua palavra para que este documento seja corretamente utilizado na emissão de um visto britânico. Ao receber esta carta você pode se considerar 90% dentro do programa, mas não relaxe, ainda falta o visto, a parte mais chata e trabalhosa.

Resumindo o post bem grosseiramente: “CONTACTE O CAMPHILL, DIGA QUE VOCÊ QUER SER VOLUNTÁRIO E DESEJA SABER COMO DEVE PROCEDER”. Deste ponto para frente eles te guiarão, haverá uma pessoa trabalhando exclusivamente para isso e você pode tirar todas as suas dúvidas com ela. Não se preocupe quanto ao seu inglês se não for dos melhores, basta se comunicar de qualquer forma. Próximo post trataremos sobre a emissão do visto britânico, não lembro de tudo com exatidão mas farei o possível para fornecer o máximo de informações que posso. Qualquer dúvida você também pode me escrever via Facebook. Até mais!

Um exemplo de quarto individual.

Trabalhos na Fazenda.

Natureza exuberante ao redor.

Garden Workshop.

Um dia de trabalho na Padaria.

domingo, 25 de agosto de 2013

Como ser voluntário em um Camphill - Parte II

Primeiramente gostaria de me desculpar por ter levado tanto tempo para continuar a primeira parte deste post, está difícil encontrar tempo e me concentrar para descrever em detalhes tudo que quero. Pois bem, em Junho fiz uma muito breve introdução sobre o que é Camphill e principalmente qual o perfil da pessoa que poderia se voluntariar sem arrependimentos, se você acha que não se encaixa naquelas características talvez este trabalho não seja a melhor escolha.

Portanto vamos supor que suas características se encaixem no perfil e você queira topar um ano ou mais de trabalho voluntário em uma comunidade Camphill no exterior. Então o que fazer para começar? Bem, como sabemos o movimento camphill está em diversos países, com destaque para Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte), Irlanda, EUA, Canadá, Alemanha, África do Sul e vários europeus que são mais difíceis para acessar devido às línguas faladas em cada um.

Desta forma é claro que para começar sua pesquisa você deve escolher o país que quer ir, essa é a primeira das decisões que deve fazer. E não se preocupe em ser recusado(a), todas as comunidades precisam de voluntários, principalmente agora que os jovens (homens) da Alemanha não são mais obrigados a escolher entre fazer trabalho social ou ir para o exército após a escola, no momento existe uma procura maior por voluntários, porém isto está sendo sanado porque os asiáticos estão já há alguns anos invadindo a Europa.

Bom, se você quiser ir para o Reino Unido eu posso afirmar que este é o melhor lugar, principalmente na Escócia, pois o movimento Camphill tem sua origem lá, ou seja, já existe uma grande estrutura e maior profissionalismo de todas as pessoas envolvidas, além de um grande reconhecimento social. Diferente se você for para a África do Sul, por exemplo, lugar onde sua aventura será provavelmente mais extrema. EUA e Canadá também são bons, mas creio que eles não tenham tanta força e profissionalismo como na Europa, o Camphill não é muito popular nesses dois países. Alemanha também creio que seja bom, mas você precisaria saber se comunicar em Alemão.

Eu, particulamente, escolhi a Escócia porque é um país que sempre tive vontade de conhecer, além de ser a base do Camphill, algumas comunidades Camphill na Escócia chegam a ser quase como uma cidadezinha, como o Camphill School de Aberdeen (cidade do norte da Escócia), vários brasileiros vão pra lá, a estrutura é fantástica, mas creio eu que o trabalho é bem puxado, principalmente por ser com crianças. Eu com certeza recomendaria este país pois a experiência que tive foi realmente fantástica.

Após ter escolhido o país você precisará escolher entre quatro tipos de pessoas que gostaria de ajudar, crianças, jovens, adultos ou idosos (todos eles com certo grau de incapacidade física e mental). Os primeiros dois grupos são os que exigem mais energia e atenção, mas em compensação são os que oferecem mais momentos felizes e divertidos também, conheço algumas pessoas que tiveram grandes experiências com crianças e jovens (eles ficam em comunidades separadas geralmente). O terceiro grupo, adultos, são os que tive a oportunidade de trabalhar, é claro que o fato deles serem adultos não remete muito à maturidade mental, e sim à idade física, cuidar da maioria deles é como cuidar de crianças, porém você deve saber que eles são oficialmente adultos e deve encorajá-los a viverem como adultos. O quarto e último grupo, idosos, eu não recomendaria, a não ser que você goste mesmo e tenha algum treinamento de cuidador ou enfermeiro, pois eles exigem muito mais cuidado, inclusive creio que a idade mínima para se voluntariar seja de 21, pois também exige mais maturidade. Aqui neste link das palavras em destaque você pode acessar sites de comunidades para esses 4 tipos diferentes de pessoas só para ter noção do que se trata: crianças, jovens, adultos, idosos.

Estamos chegando lá, já escolhemos país e grupo de pessoas que queremos ajudar, agora vamos para a parte mais divertida, escolher uma das diversas e adoráveis comunidades Camphill espalhadas por nosso país de escolha. Para fazer isso você deve pesquisar no google a página do Camphill do seu país, por exemplo, “Camphill Ireland”, “Camphill USA”, e assim por diante, nesta página será fornecida uma série de links para o website de Camphills específicos. Para que nos sirva de exemplo, utilizarei a página do “Camphill Scotland”, pois é a mais bem estruturada e fácil de achar informações. Acessando esta página você tem praticamente tudo que precisa saber sobre o Camphill na Escócia (em inglês), aproveite este website, explore e quanto mais você ler mais vai enteder sobre Camphills, qualquer dúvida por gentileza me escreva pelo espaço de comentários logo abaixo.

Na página do “Camphill Scotland” acesse, lá em cima, a página “Scottish Communities” e você será direcionado(a) a uma página com o mapa da Escócia acompanhado da lista das 13 comunidades existentes, à direita de sua tela. A comunidade que estive está logo ali em “Place for Adults”, a querida Corbenic. Esta página é ótima pois mostra exatamente a localização das comunidades no mapa por todo o país. Bom, não tem segredo, basta você escolher uma das comunidades, acessar a sua página e então já poderá se candidatar ao voluntariado, sugiro que quem tem interesse abra as páginas particulares de algumas dessas comunidades e procure a que mais se identifica (explore os sites e talvez você pode até entender todo o processo sem a mínima ajuda). No próximo post continuarei com o início do processo para se candidatar a uma vaga.

Bom para resumir este post, na verdade nós só falamos sobre:

- Escolher um país de destino.

- Escolher o grupo de pessoas que pretende ajudar/trabalhar.

- Acessar a página nacional do movimento Camphill de cada país.

Por favor não exitem em me escrever em caso de qualquer dúvida, sua dúvida pode ser a dúvida de outra pessoa. Nos próximos posts ainda falarei sobre application, visto, o que preparar e mais vários pontos importantes. Até breve!


Corbenic Camphill Community

Um dia ao ar livre com os residentes

Edimburgo

Celebrações Nacionais na Comunidade

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Como ser voluntário em um Camphill - Parte I

Primeiros meses na cozinha.
Depois de praticamente 1 ano após ter voltado de Corbenic, só agora resolvi escrever isso para as pessoas que se interessam em fazer um trabalho voluntário diferente no exterior. Dessa forma ficará mais fácil de explicar a quem vem me perguntar sobre como fazer e tudo que envolve a vida lá. Primeiramente é bom que a pessoa pesquise por ela mesma o que é uma Comunidade Camphill, pois seria demasiadamente longo para escrever aqui. Mas para sintetizar em poucas palavras Camphill é: “Uma comunidade desenvolvida especialmente para pessoas com necessidades especiais onde trabalham profissionais treinados para lidar com elas e voluntários de toda parte do mundo em busca desse tipo de experiência, a rotatividade de voluntários é grande, por isso é sempre necessário pessoas novas”. Além disso para entender mais sobre o Camphill a pessoa deve pesquisar um pouco sobre Antroposofia e Rudolf Steiner, onde está toda a sustentação filosófica desse estilo de vida.

Mas qual seria o perfil da pessoa que poderia se voluntariar a trabalhar por 1 ano ou mais em uma comunidade Camphill? Pois bem, eis aqui algumas características:

- Ser jovem entre 18 e 25 anos, mas isso não impede uma pessoa mais velha a se voluntariar, mas digamos que a energia dos jovens seja mais interessante para a comunidade. Porém eu trabalhei com uma senhora de mais de 60 anos, ela perdeu o marido e resolveu ser voluntária na minha comunidade por dois anos, pode acontecer. O Camphill também é um espaço para as pessoas desenvolverem o lado espiritual, superarem problemas e traçarem um novo caminho na vida, é um lugar de regeneração.

- Estar disposto a ajudar. A pessoa deverá entender que estará indo principalmente por “caridade”. Esse é um grande problema para alguns brasileiros que aproveitam a chance de um intercâmbio barato pra dar uma de riquinho no Reino Unido. Isso não quer dizer que você não vai poder fazer compras, ir pra balada, viajar muito e curtir a vida, você terá tempo pra isso, mas sua prioridade NUNCA poderá ser essa. Cuidar de pessoas especiais exige comprometimento, maturidade e responsabilidade, e é este crescimento o maior atrativo desta experiência no exterior.

- Ter um estilo de vida saudável e ser flexível, no Camphill você viverá num ambiente muito saudável, onde a qualidade de vida, a boa alimentação, a disciplina de horários, a espiritualidade, a leitura e as atividades coletivas tem um valor imensurável. Isso não quer dizer que você não possa beber e fumar, é claro que pode, mas sempre com muito respeito ao ambiente em que você está trabalhando, principalmente quando se tratando de crianças.

- Conseguir se comunicar em Inglês, você não precisa ser fluente, mas é necessário que você já chegue no Reino Unido com uma capacidade de se comunicar em Inglês, portanto cursos de conversação são os preferidos. Durante o seu ano você desenvolverá a língua até atingir uma fluência, mas lembre-se que o ambiente é repleto de estrangeiros, portanto selecione as pessoas que você vai tentar imitar para aprender o idioma e sempre tente ler e se fiscalizar, pois muita gente ao seu redor pode estar falando errado. Mas de qualquer jeito você vai aprender a se comunicar com o mundo inteiro.

- Buscar uma experiência alternativa e barata no exterior, participar de uma comunidade Camphill é um intercâmbio fora do comum, nela você não será empregado ou estará trabalhando por um salário (apesar de ganhar sim uma ajuda de custo), você estará ali vivendo em respeito e solidariedade mútua com todos os envolvidos. Trocando experiências, aprendendo, ensinando, compartilhando, trabalhando pelo bem-estar da comunidade etc. É um ambiente rico de emoções, vida, trabalho, natureza, a verdadeira utopia antroposófica de Rudolf Steiner. E o intercâmbio é o mais barato que já ouvi falar, você só paga seu visto e sua passagem de ida. Você terá um quarto, individual ou compartilhado com outra pessoa, alimentação de primeira qualidade, seguro saúde, uma ajuda de custo entre 140 e 200 libras por mês e uma boa parte de sua passagem de volta se você trabalhar lá por 1 ano.

- Querer aprender e viver muitas experiências, isso não precisa nem falar, depois de um ano trabalhando em um Camphill você vai ter aprendido muita coisa pratica e teórica, dependendo das funções que forem designadas pra você. Eu mesmo sai de lá fazendeiro, padeiro, pizzaiolo, empregada doméstica, gari, pedreiro, babá, paisagista, jardineiro e muito mais, além é claro dos cursos teóricos para cuidar de pessoas especiais que tive ao longo do ano. Devido à nossa cultura de Brasil isso pode soar mal, mas em uma comunidade Camphill você verá o quanto cada trabalhinho desse é digno e respeitado, pois a cultura fraternal lá é totalmente diferente e as pessoas de posições mais altas estão envolvidas em tarefas que no Brasil seriam consideradas “coisa de gente pobre”. Cansei de ver gente acabando de limpar os banheiros e correndo pra vestir um terno ou um vestido bonito para liderar uma apresentação de música clássica, isso acontece numa comunidade igualitária e é esse um dos muito fatores que fará você mudar sua visão de mundo após uma experiência camphill.

Eu pretendia escrever tudo que queria em um post mas percebi que isso não será possível, portanto continuarei outro dia com a próxima parte de como ser voluntário num Camphill. Se você acha que se encaixa nesse perfil fique acompanhando o blog e em breve escreverei mais diretrizes que você deverá tomar para realizar essa experiência. Lembre-se que ter uma experiência no exterior não é tão difícil quanto se parece ao ver os preços das agências de intercâmbio. Se estiver curioso(a) e quiser ter mais informações por você mesmo(a) eu sugiro que acesse o site do Camphill Scotland e lá você já vai achar muitas informações que tentarei explicar em breve. Até mais ver!


Constante contato com todos os animais da Fazenda.

Atividades com outros voluntários.

Despedindo-me da Fazenda para trabalhar em outro Workshop.

Marcenaria, não cheguei a trabalhar lá, um dos Workshops mais disputados.

Laguinho em uma das áreas externas da comunidade.

Reaproveitamento da madeira de árvores derrubadas pela tempestade.

Um pouco do meu quarto duplo que dividia com a namorada.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A vida após Camphill

Despedida da Padaria.
Hoje resolvi dar uma olhada no blog e nas postagens antigas para lembrar um pouco do ano passado (e retrasado) para ver o que eu podia tirar de bom para me inspirar neste momento da vida, sem dúvida um novo momento, após tanta coisa atípica que vivi no último um ano e meio. Estou no Brasil desde Julho do ano passado, mas sinto como se tivesse chegado só agora em Janeiro, pois quando cheguei  de verdade a vida ainda estava muito longe de voltar ao normal.

O Camphill foi uma experiência fantástica que me enriqueceu muito como ser humano, posso notar isso em todos os aspectos, porém essa viagem não me mostrou uma das principais coisas que eu esperei que mostrasse: o que diabos eu ia fazer na minha vida (em termos de estudo) e onde eu iria fazer isso, as opções eram muitas e as vontades também. Cheguei decidido a tentar estudar na Europa, principalmente porque a namorada não ia gostar da ideia de um relacionamento a distância. Preparei tudo, busquei informações, preparei documentação, porém cada vez mais a dificuldade burocrática me distanciava, além do lado financeiro que não iria ser fácil, a verdade é que estudar na Europa regularmente como membro da classe média brasileira é uma possibilidade para poucos.


Acabou que desisti da Europa e tive que entrar num acordo com a namorada para que meus estudos aqui não durassem muito tempo e me abrissem portas para uma atuação profissional na Alemanha ou Áustria (ela é alemã mas mora na Áustria), e de repente surgiu um velho curso que sempre simpatizei na Universidade de Fortaleza, Comércio Exterior, que sempre havia evitado devido ao meu enferrujamento na matemática. Nada poderia cair melhor, um curso eclético, com oportunidades no mercado e principalmente internacional, o que abre muitas portas para intercâmbios acadêmicos e pontes para interação com outras países.  A Unifor mantém uma parceria com uma faculdade da Alemanha que garante aos alunos intercâmbistas um diploma duplo (brasileiro e europeu), o que cai perfeitamente para mim e pode me capacitar mais rapidamente a entrar no mercado de trabalho lá, inclusive conheço pessoas que estão lá hoje por este meio. Além do mais o curso também me parece bastante interessante e acredito que vou gostar.

No último semestre, também ao chegar, fiquei sabendo que uma escola de línguas estava selecionando novos professores, o que me fez aceitar um novo desafio logo ao chegar, sem intervalo para adaptação nem nada, isso iria pesar depois de alguns meses. Tenho que dizer que a readaptação após um intercâmbio desse é um pouco complicada, um dia eu estava numa comunidade rural para deficientes mentais na Escócia e no outro dia estava numa cidade brasileira tostando de calor e vivendo num sistema totalmente diferente, com pessoas diferentes, regras diferentes, sentia-me definitivamente como um peixe fora d’água entrando numa seleção de professores. Sabe quando você está totalmente por fora da vida e não sabe nem falar direito? Pois é, eu estava em outro mundo, tenho certeza que as pessoas me achavam estranho naqueles primeiros meses, mas fui levando e a readaptação foi vindo, apesar de muito conturbada por causa da decisão do que eu iria fazer e quais decisões eu iria tomar numa vida bagunçada no Brasil e uma namorada na Europa.

Despedida no Boliche.
No final das contas eu passei e me tornei professor nessa escola, outra experiência bastante interessante, ensinar para adultos e adolescentes na mesma escola que eu frequentava quando estava aprendendo inglês. No começo foi um pouco difícil, mas depois de pegar o jeito é que você percebe que ser professor é uma profissão fantástica e muito gratificante. Porém tive que abandonar o trabalho em setembro por vários motivos, primeiro porque eu senti a falta de um intervalo entre o Camphill e a vida aqui, eu estava precisando urgentemente de férias para processar o que aconteceu e simplesmente descansar, o que eu não conseguia fazer muito na Escócia e estava contando os dias para fazer no Brasil, segundo porque eu estava considerando estudar no exterior e toda aquela burocracia estava me enchendo a cabeça e não me deixava em paz para preparar boas aulas na escola, além de que eu tinha que estudar mais inglês para ter uma boa nota no IELTS, acabei que nem fiz, mas fiz o TOEIC por iniciativa da escola em que trabalhava e fui muito bem (IELTS é o teste de inglês acadêmico britânico e TOEIC é um teste de inglês profissional mais utilizado por empresas), e terceiro minha namorada estava para chegar no fim de setembro para passar 3 meses no Brasil, assim finalmente eu teria minhas férias e poderia decidir tudo o que iria fazer, para alguns isso pode parecer um semestre perdido, mas acredite em mim, foi muito necessário.

Minha namorada chegou e aqui ficou por três meses, durante esse tempo eu a ensinava português e ela me ensinava alemão, é claro que ela aprendeu português muito mais rápido por estar num país de língua portuguesa, inclusive quando retornou a Alemanha havia uma brasileira de Minas no Aeroporto na hora do desembarque perdida e procurando ajuda, e adivinha quem a ajudou? Theresa (namorada), a nova alemã falante de português, depois disso ela veio toda orgulhosa me contar, e o pior é que foi verdade, essa brasileira só desgrudou dela quando encontrou a filha no lado de fora do Aeroporto. Eu acho que a melhor parte de aprender uma língua estrangeira é ajudar os outros que passam por problemas de comunicação, desde que voltei ao Brasil já ajudei muitos comerciantes a vender artesanato para estrangeiros, que gratificante! Além daquelas situações que o cara tá perdido, precisando de informação e você aparece para salvá-lo, é muito bacana!

Neste tempo em que Theresa esteve aqui eu entrei neste acordo de que iria estudar aqui e trabalhar para juntar dinheiro para visitá-la em todas as férias (Julho, Dezembro, Janeiro), além de continuar estudando alemão e tentar manter um bom nível acadêmico para conseguir o intercâmbio para a faculdade da Alemanha que falei (Deggendorf). O fato é que 2013 marca o meu reinício, nova faculdade, trabalho (quero voltar a dar aula), novos planos, tudo novo! Sinto como se a vida estivesse começando agora, o que passou foi só ensaio. E aqui finalmente fecho o bloco Camphill e Escócia do Blog, apesar de saber que não consegui postar muito mais durante o ano passado, uma experiência marcante que claramente mudou o curso da minha vida como humano, estudante, profissional, cidadão e membro de família. Bom início de ano para todos também!

Despedindo-nos do velho e querido quarto, tudo arrumado para os novos voluntários.

De volta ao Brasil viajando pelas praias do Ceará.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Vida em comunidade

Padaria da comunidade, produção diária 100% orgânica.
Antes de falar sobre vida em comunidade, gostaria de falar sobre a vida usual que eu tinha (e teoricamente ainda tenho) no Brasil. Morava com minha família num bom apartamento no bairro do Meireles em Fortaleza, eu, meus pais e minha irmã que há alguns anos também deixou o Brasil, deixando nosso lar mais vazio. Morando num centro urbano, nunca falta nada, a vida é relativamente boa e nos dá até a impressão de que somos felizes. Vivemos rodeados de pessoas, de informação, de movimentação, sentimo-nos como altamente civilizados e envolvidos no mundo e na sociedade.

Porém algo sempre me incomodou neste estilo de vida, pois sempre senti um vazio e um deslocamento, como se ali não fosse o meu lugar, algo que sempre me inspirou a viajar e conhecer as opções que eu poderia ter para minha vida mundo a fora. Em meu lar, apesar de viver em harmonia com minha família, algo estava faltando, havia algo preso naquele cotidiano, sentia-me confuso, procurando descobrir porque todos se adaptavam tão bem às suas respectivas vidas e eu nunca conseguia me sentir estável.

Foi então que decidi experimentar a vida em comunidade, morando na Escócia, numa comunidade para deficientes mentais. Um lugar adorável entre as montanhas, adormecido num majestoso vale, banhado por um rio de águas geladas que penetram em meu quarto com o pacífico barulho da corrente incessante. Aqui a natureza é tão imponente, que este jovem da cidade não consegue nem lembrar com precisão a paisagem urbana. Aqui a vida é tão bonita e radiante que a palavra estresse continua sem sentido mesmo com qualquer professor Phd tentando explicar seu significado.

Trabalho em Madeira, workshop terapêutico.
Corbenic, onde moro, é uma comunidade dividida em 5 casas, Lochran, Mullach, Lindisfarne (minha casa), Cottage e Turach. Cada uma possui cerca de 8 a 10 pessoas, incluindo residentes e voluntários não-fixos (eu sou um deles). Minha casa possui 6 residentes (deficientes mentais) e 4 voluntários, além de coordenadores e outros empregados que não moram na casa fixamente. Imagine você, em pleno ano 2012, morando numa casa de 10 pessoas, talvez os seus avós saberão como é isso, já que na geração deles, isso seria mais normal.

Tente imaginar esta situação, eu suponho que mesmo com muita força de vontade, você não consiga ter ideia de como rica e movimentada seria a sua vida, principalmente porque grande parte da casa seria dependente a você, como você foi um dia das pessoas que te criaram desde a infância. Morar em comunidade é simplesmente preenchedor, e depois desta experiência você se pergunta como os seres humanos estão conseguindo viver cada dia mais isolados um do outro, se isolando na sociedade e até entre suas próprias famílias, trancando suas portas para seus semelhantes, sem muito amor restante, sobrevivendo sem brilho e sem respostas.

A cada dia que passa neste lugar, onde cerca de 60 pessoas vivem e outras dezenas circulam voluntario ou profissionalmente, eu concluo mais sobre a reflexão a respeito da natureza humana, do estilo de vida que deviamos seguir, enxergo que este período que vivemos, onde as famílias se isolam com medo uma das outras, é só uma pequena fase de rebeldia da humanidade, que logo logo reconhecerá sua real origem e se juntará como uma grande rede de paz, amor e fraternidade, onde o espírito comuntário reinará, e a felicidade se espalhará no coração de cada ser deste planeta.

Viver em comunidade é utópico e prazeroso, é criar laços fraternais, é assumir uma identidade real, é crescer incessantemente e reconhecer que não somos nada sozinhos. Somos como as células deste planeta, e só entraremos em harmonia quando trabalharmos juntos para a manutenção de todo o corpo. Uma grande lição levarei deste lugar e gostaria de mostrar para toda a humanidade, não somos nada sozinhos, absolutamente nada, se não abrimos nossos corações para nossos semelhantes, seremos apenas rebeldes nadando contra a corrente do progresso.

Reflita sobre o que o sistema está fazendo conosco, destruindo nossos laços e impondo uma ideologia de individualismo e competição, premiando aqueles que rebaixam os outros, mantendo hierarquias tiranas, maltratando a dignidade humana com a obsessão doentia pelo lucro, é este o mundo que queremos viver? Existem possibilidades muito mais compatíveis com nosso nível de evolução, não fechemos os olhos para o que acontece neste exato momento no planeta Terra, lutemos por uma nova era de união e progresso.

Voluntários de várias partes do mundo, Yuko (Japão) e Theresa (Áustria).


Separação do lixo para reciclagem, colaboração coletiva.
Cottage, uma das casas de Corbenic.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Aberdeen, a capital dos Camphills

Entrada do Cemitério na Avenida Principal.
Aberdeen é uma cidade localizada no nordeste da Escócia, a terceira mais populosa do país, dona de uma praia bacana e congelante a maior parte do ano, um grande porto e uma movimentada universidade (University of Aberdeen). Além disso é possível batizá-la de sede dos Camphills, pois foi lá onde o movimento começou e se espalhou por todo mundo, vários deles estão lá, inclusive o primeiro Camphill que apliquei antes de Corbenic foi Simeon, um lugar que abriga idosos, não fui aceito pois no mesmo ano eles aumentaram a idade mínima dos Co-workers para 21 anos, o que foi muito bom, pois Corbenic é um lugar fantástico e acho que está enriquecendo bastante minha vida.


139 km separam Perth de Aberdeen.
Para chegar em Aberdeen saímos de Corbenic de manhã em direção à rodoviária de Perth, é o ponto de partida de qualquer viagem de ônibus. O time da vez era eu, Zé (brasileiro), Julia, Lilith e Theresa, todas alemãs. De Perth até Aberdeen são aproximadamente duas horas de estrada, com uma parada em Dundee totalmente fora de mão, mas até que passou rápido com a ajuda de uma musiquinha no iPod. Viajar aqui é bem tranquilo, trem ou ônibus, raramente você vai ter algum momento de tensão, eu pelo menos nunca tive, principalmente em trem, é tão tranquilo e suave que você nem sente a viagem toda, chega sempre rápido.

Chegamos em Aberdeen perto da hora do almoço, a rodoviária da cidade é sensacional, porque não é só rodoviária, é também estação de trem e um mega shopping center bem no coração da cidade. Acho isso fantástico, a maioria das estações da Escócia, principalmente de trem, são bem no centro das cidades, ou seja, quando você chega não precisa ir atrás de táxi ou ônibus desesperado, você apenas sai da estação e já está na rua ou na praça principal, vendo um monte de pontos turísticos de uma vez só.


Union Square, nosso local de desembarque.
Uma estação de trem e ônibus que ao mesmo tempo é shopping center pode ser uma grande vantagem, mas não quando você está viajando com três mulheres, definitivamente, eu e Zé ficamos esperando um pouco mais que uma horinha até as três terminarem de explorar cada detalhe da mega loja de roupa que não lembro o nome. Além disso sempre rola aquele momento de crítico de moda onde a sua namorada fica perguntando qual peça é melhor e você sempre diz: “Esse é perfeito”, “Esse é ótimo”, “Nossa, você tá maravilhosa, paga e vamos embora”.

Fim de compras e reunião para saber qual seria a próxima parada, a decisão foi ficar no shopping pois todos estavam com fome e queriam almoçar. Os restaurantes do shopping estavam lotados e todos tinham fila de espera de pelo menos vinte minutos. Reservamos os lugares em um e lá estava eu de novo seguindo mulher fazendo compra, ô benção. Depois dos 20 minutos na farmácia, voltamos para o restaurante escolhido pelo público por conter algumas promoções enganadoras na fachada, quando na realidade a comida era cara e vinha tão pouco no prato que sai de lá mais triste que argentino depois de jogo contra o Brasil.

Avenida Principal da Cidade.
Dica de hoje: Quando você estiver no exterior e tiver em dúvida de que lugar comer, nem sempre arriscar é a coisa certa, você pode gastar muito e comer pouco. Corra para a pizzaria mais próxima! Sempre funciona. Mas não nego que quando você arrisca também há chances de comer um prato novo e delicioso por um ótimo preço, por isso informação é sempre fundamental antes de uma viagem.

Comemos e eu gastei 11 pounds num prato mixuruca de macarrão com um suquinho de maça que tava mais pra água que para suco. Depois da decepção, finalmente saímos do infernal shopping center, desculpa quem gosta, mas shopping para mim é entrar, comprar e ir embora o mais rápido possível. Pegamos a avenida principal da cidade e começamos a caminhar, senti algo estranho com tanta gente num mesmo lugar, viver muito tempo na roça faz com que a cidade te deixe um pouco ébrio de informação, agora eu entendo porque o caipira quer sair correndo de volta pro interior quando chega na cidade, deve ser meio assustador mesmo.

The West Tower.
O visual de Aberdeen é bem mesclado entre velhas e novas arquiteturas, algo que chama atenção é a tonalidade de cor da cidade, muito mais clara que o normal entre os outros centros urbanos da Escócia. Creio que é algo que eles estão tentando fazer, pois percebi alguns prédios restaurados com cores claras, bem bonito por sinal, algo que sai da mesmice escura e cinza do país. A avenida principal é bem movimentada, bastante gente circulando nas calçadas e grande fluxo de carros e ônibus.

Seguimos caminhando aproveitando as paisagens da cidade e perguntei onde as meninas queriam ir, nenhuma surpresa, queriam ir à praia, ver o mar, algo absurdamente interessante para mim que morei a vida toda em Fortaleza. E então continuei, cansado de tanto bater perna e aguentando o vento frio de lascar. A praia extremamente sem graça, escura, fria, cinzenta e deserta. Chegar a ser bizarro as européias todas felizes por estarem vendo o mar, isso me faz refletir um pouco, acho que tenho que dar mais valor às prainhas que tenho no Ceará.



Parte da Universidade.
Deixamos a praia, passamos no super-mercado, compramos pizzas e fomos para o ponto de ônibus, iriamos para o Camphill School Aberdeen, onde passariamos a noite e eu finalmente conheceria Monise, a brasileira que acompanhei pela internet durante mais de um ano antes de me aventurar neste viagem, ela me ajudou bastante descrevendo o estilo de vida do Camphill e todos os desafios que um co-worker brasileiro poderia enfrentar. Além disso também fomos recebidos por Rodrigo, outro brasileiro que nos acomodou com excelência.

Um fato que marcou um pouco esta viagem foi quando estávamos esperando o ônibus na avenida principal, aqui a parada de ônibus é virada para o lado oposto das paradas do Brasil, ou seja, você senta e fica de frente para as edificações, não para a rua. Eu estava sentado e minha carteira caiu bem na divisória entre a calçada e a rua, num lugar que praticamente ninguém a veria, e eu distraído, conversando e me divertindo com os outros nunca perceberia que não estava com ela. De repente um casal de velhinhos surge com uma carteira na mão, a senhora perguntou se era minha e quase não acreditei quando vi que não estava no meu bolso, ou seja, minha carteira com quase todo meu dinheiro, vários documentos e cartão de débito estava no chão da avenida principal da cidade por longos minutos em que qualquer um poderia ter pegado e continuado andando tranquilamente.


Universidade.
Ela me entregou a carteira e eu falei todo o meu vocabulário de agradecimento em inglês, isso até deixou a velhinha um pouco desconcertada. Isso me fez refletir por alguns minutos o quanto é bom estar em um lugar de pessoas honestas, como é boa a atmosfera de fraternidade e respeito ao próximo. Até hoje estou agradecendo a ela por este gesto de honestidade. Não é querendo ser pessimista sobre o meu país, mas se fosse no Brasil, com certeza as chances de isso acontecer seriam minúsculas.

Pegamos o ônibus e fomos para o Camphill, uma estrutura de encher os olhos, várias casas, sinalizações, mapa na entrada, algo que nem se compara ao meu Camphill Rural, mas cada um com suas vantagens. Foi lá que eu realmente senti a força do movimento Camphill, senti o quão é nobre a ação deste movimento na sociedade, e o quanto é importante para as pessoas com necessidades especiais desenvolverem suas habilidades de forma saudável e terapêutica. Chegamos, comemos as pizzas e Rodrigo nos mostrou os quartos que ficariamos. Eu e minha namorada num quarto no primeiro piso da casa, as duas alemãs no quarto de um residente que estava fora durante o final de semana e Zé no mesmo quarto que Rodrigo.


Curtindo o calorzão na praia.
De noite fomos para uma balada no centro da cidade, a boate era bem interessante, simplesmente porque era uma IGREJA, é isso ai, balada na igreja, imagina só, do lado de fora um prédio centenário e do lado de dentro uma boate de primeiro mundo cheio de pessoas embriagadas “dançando”. Lá dentro é aquele mesmo negócio de sempre, pra mim balada é que nem shopping, sempre igual, gente fazendo movimento estranho achando que tá dançando, nego vomitando no canto da parede, menina constrangida porque alguém passou a mão nela e um bêbado sem noção olhando para sua namorada fazendo cara de mal. É sempre a mesma coisa.

Saímos da balada e fomos até o ponto de ônibus, durante o caminho uma atmosfera bem pesada, você só percebe como é triste o fim de uma noite quando permanece sóbrio para assistir os pobres indivíduos totalmente fora de si após horas de porre e descontrole emocional. Neste momento eu estava torcendo para chegar logo ao clima harmonioso do Camphill. Chegamos e fomos para a cama, estava encerrado o dia em Aberdeen, na manhã seguinte pegamos o carro e fomos para outro destino que você conhecerá em breve através deste site.


Os companheiros de viagem.
Árvore de Natal na Praça Principal.
Cidade já preparada para as celebrações de Natal.
Ruas do Camphill.
Mapa de Localização na entrada.
St. Christopher, a casa que ficamos.
Um dos corredores da casa, pela decoração nota-se a predominância de co-workers.
Dando um passeio pela comunidade.
Diversas casas da comunidade Camphill ao fundo.
Visão externa de uma das casas.
Um lugar tranquilo e propício para o desenvolvimento humano.
Placa indicando a localização da piscina e academia, só para matar os caipiras de inveja.
Mais visão externa da comunidade.