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domingo, 24 de março de 2024

O que aprendi trabalhando com pessoas especiais

Trabalhar todos os dias com pessoas especiais é uma experiência que muda muitas de nossas referências enquanto seres-humanos. Uma destas referências é a noção de valor e capacidade de cada pessoa em si. Durante nossas vidas é comum ouvirmos falar de indivíduos que não se achavam capazes de ter uma rotina funcional, que acreditavam que por uma tragédia do destino não foram agraciados com praticamente nenhuma habilidade, que são incapazes e não entendem porque habitam este mundo. Em tempos de redes sociais, onde por todo lado a ideia de indivíduos perfeitos e conquistadores, idealizadores de grandes projetos, é vendida como se fosse praticamente o único caminho para a grandeza humana, este desconforto da “pessoa comum” é ainda mais presente e profundo.

Isto é tudo uma grande bobagem. Uma ficção para atrair os desocupados e entediados, assim como vender ideias de felicidades não apenas ilusórias, como grosseiras e vulgares. Digo isto porque o fato é que há uma diversidade avassaladora de boas maneiras de se viver esta vida e os falatórios populares estão longe de conseguirem abarcar todas as combinações existenciais disponíveis ao nosso redor. No campo do valor humano, todos podem se sentir especiais apenas por existirem, pois, a mera existência já é um acontecimento especial e extraordinário.

Não existe absolutamente ninguém sem valor, sem habilidades e sem capacidades incríveis. Se você colocar um pássaro dentro da água, ele não nadará porque é um incompetente, preguiçoso ou incapaz, ele não nadará porque sua natureza não pertence àquele ambiente, ele foi feito para o ar, para o livre movimento de suas asas rasgando os céus e coordenando seus movimentos ao soprar dos ventos.

Se você por algum momento achar que não tem tanto valor, que não é tão capaz, que não sabe porque está aqui, pare imediatamente. Você provavelmente está no lugar errado, está fazendo escolhas erradas e está entrando em um ciclo de enganos que traem sua própria natureza. Concentre-se no seu “eu”, entenda quem você é e siga sua procura sem pressa. Em algum momento encontrará seu lugar, e ficará surpreso com sua capacidade, criatividade, poder e destreza para fazer tudo que se propõe.

Imagine um homem primitivo que recebe um martelo sem ter a mínima ideia para que serve. Ele tenta cortar um pão com o martelo, tenta caçar um cervo, tenta coletar água no rio, e tudo se torna um fracasso com aquela ferramenta imprestável simplesmente porque ele não sabe para o que ela serve. Até que certo dia, meio frustrado e desesperançoso, o homem usa seu martelo marretando uma rocha, que se quebra em pedaços afiados. Ao ver a rocha quebrada e as novas formas à sua frente, ele começa a perceber a utilidade daquela poderosa ferramenta. Com o tempo ele passa a encontrar uma infinidade de utilidades para a mesma, passando a executar todo tipo de projeto que o ajuda a melhorar de vida, além de se proteger de possíveis ameaças.

Somos como homens primitivos agraciados com vocações fantásticas, porém estas vocações não nos são reveladas, nós temos que adentrar uma jornada de autoconhecimento e experiência própria para conseguir descobri-las. Este é um processo que requer calma e paciência, e talvez este seja uma das maiores dificuldades de nossa apressada geração.


Mas o que tudo isso tem a ver com pessoas com necessidades especiais?

Simples, absolutamente todas elas também têm condições de contribuir e realizar uma série de coisas, mesmo com todas as suas aparentes “limitações”. Trabalhando com dezenas de pessoas com síndrome de down, autistas, entre outras condições mentais, isto tudo ficou muito mais claro para mim. A ideia de que absolutamente todo ser-humano tem um valor inestimável.

As pessoas com necessidades especiais que vivem em comunidades Camphill ao redor do mundo são simplesmente impressionantes. Com anos de prática e boa educação, tornam-se bons padeiros, fazendeiros, cozinheiros, comunicadores, artistas, entre outras infinidades de ocupações que nos deparamos ao viver em um lugar como esse. Todas as vezes que vi uma pessoa com alto grau de autismo executando algum trabalho difícil, fiquei completamente envergonhado e constrangido ao lembrar de todas as vezes que ousei reclamar da minha vida e de minhas obrigações, e mais ainda das vezes em que tive alguma crise de autoestima e questionei minhas próprias capacidades de viver neste mundo. É simplesmente um choque de realidade, algo até difícil de explicar a quem não vive aqui, e por isso que sempre digo à minha esposa que Camphill é um negócio que “só vendo para acreditar”.

Portanto a maior lição de vida para mim ao trabalhar com estas pessoas é que absolutamente todos nós somos capazes e valiosos, e a junção entre estar em lugares errados e a venda de vidas artificiais que vemos na mídia e redes sociais nos levam a estados mentais de compreensões completamente equivocadas sobre a realidade da existência humana, levando-nos a conclusões mais equivocadas ainda sobre nosso valor como indivíduos.

Este mundo é muito amplo, complexo e cheio de possibilidades. Nunca lhe permita acreditar que sua existência tem menos valor que a de outros, ou que não há nada para você. Possivelmente o único problema é que você na verdade sequer se encontrou ainda, e que vem se enganando há anos, ou talvez décadas, afastando-se da sua própria realidade e, consequentemente, de onde deve estar.

sábado, 2 de dezembro de 2023

A libertadora certeza de que não sei de nada

Desde o fim do tempo de escola lembro que passei a me interessar mais por entender como o mundo funcionava. Não tanto o mundo natural, mas o social. Isto me aproximou das ideias políticas, sociais e econômicas, além da história, que diferentemente do que acontecia no período escolar, passou a me atrair de uma forma mais orgânica, de um interesse que realmente vinha do meu ser, e não de um professor ou um ambiente de sala de aula.

Neste tempo, mergulhei principalmente no que chamo de “esquerdosfera”, todo o universo de interpretação dos fatos sociais e históricos sob a ótica da esquerda política e acadêmica, que entendo como tendo sua grande base fundamentada por Marx e Rousseau. Este é o caminho natural de qualquer jovem que se interessa por entender a grande estrutura social em que vive, e é por isso que a grande maioria das pessoas que mergulham um pouco no assunto se tornam o que chamaríamos de “esquerdistas”. A interpretação do mundo pela ótica destas ideias é extremamente atraente, simples de entender e fornecedora de muitas respostas. E como queremos respostas quando estamos curiosos!

Após este período de iniciação passei a me sentir muito seguro sobre vários assuntos e estava mergulhado em idealismo. Porém não é da minha personalidade se acomodar na “segurança”. Aproveitando o primeiro ano na faculdade de economia, passei a me interessar por pensadores que atacavam frontalmente o que eu acreditava, afinal eles deveriam existir, não é mesmo? Foi então que conheci os liberais, cheios de argumentos e ideias muito interessantes que colocavam em dúvida tudo que acreditava. De repente Marx e Rousseau não eram tão grandes assim, e Adam Smith e Hobbes passavam a chamar muita atenção.

Eu poderia passar horas escrevendo sobre todo este conflito de ideias que passei a viver nesta época, mas este não é o assunto do texto. O ponto importante foi que nesta época eu me deparei com uma ideia muito marcante encontrada na mentalidade de muitos liberais, mas de um em especial, Friedrich Hayek, que não era nada mais que uma simples constatação: o conhecimento está disperso na sociedade e indivíduos sabem pouco, muito pouco.

Este pensamento foi um meteoro na minha jornada de compreensão do mundo. Colocado da forma acima, parece simples, mas na verdade ele traz uma série de reflexões sobre o mundo moderno e a “pretensão do conhecimento”, como o próprio Hayek chamava, chegando a escrever um livro intitulado “A Arrogância Fatal”, que em outras coisas descrevia como políticos e planejadores sociais tentavam solucionar os problemas humanos e sociais e quase sempre fracassavam em suas empreitadas, não apenas não solucionando os problemas, como os agravando.

E Hayek não era qualquer pensador, era um ganhador de Prêmio Nobel de Economia. Nada mais nada menos que um vencedor de Prêmio Nobel tinha como uma de suas grandes mensagens, em outras palavras, o seguinte: nós não sabemos nada! É claro que ele não queria dizer que não sabemos nada literalmente, o que ele queria dizer é que vivemos em um mundo complexo, e muitas das ideias decoradas de sofisticado racionalismo não são mais que especulações ou uma parte muito superficial do conhecimento de determinado assunto. Hayek enxergava em nosso tempo uma certa arrogância, uma tendência irresistível das pessoas em querem ser especialistas em assunto que nem os especialistas dominam completamente.

Partindo desta premissa, passei a perceber que aquela máxima popularmente conhecida fazia muito sentido: “quanto mais busco o saber, menos sei”. Ao analisar os assuntos que me dispus a me aprofundar durante toda a minha vida, percebi que quanto mais adentrava naquele campo, mais me sentia ignorante, mais me sentia inseguro sobre a verdade e a exatidão dos fatos. Neste caminho, algo solidificou ainda mais esta ideia em meu íntimo: o estudo da estatística, matéria obrigatória nos cursos de economia. Ao entender como os estudos, pesquisas e levantamento de dados são feitos, ficou ainda mais claro para mim como tudo é tão frágil, tão aberto a interpretações e manipulações, e como nossa sociedade neste século XXI se tornou um show de horrores estatísticos com pessoas de todos os tipos usando dados soltos sobre determinados assuntos para “provarem” seus pontos e posarem de detentoras do conhecimento.

Mais recentemente fiquei estarrecido com a pandemia de Covid-19 que transformou a “ciência” em uma ferramenta de embate político. Milhares de pessoas que mal sabem descrever o que é ciência e método científico, passando a dizer que “acreditam na ciência”, como se a ciência fosse uma fonte de respostas seguras e imutáveis que devem ser assimiladas e aceitas sem questionamentos. Que sacrilégio. Ora, a grande característica da investigação científica é justamente o ceticismo, a insegurança, a cautela nas observações e processamento dos dados. A ciência é tudo de incerteza e praticamente nada de segurança. Conclusões científicas seguras somente são consideradas seguras após um grande período de aceitação unânime, e ainda assim qualquer cientista minimamente honesto sabe que a mais segura das conclusões pode ser desafiada, questionada e refutada, e foi assim que a ciência se desenvolveu durante seus séculos mais nobres em nossa história. Como uma grande arena de batalha, em que visões aceitas eram refutadas e substituídas do dia para a noite. A instabilidade e a imprevisibilidade foram as bases do modelo científico moderno, e foi justamente seu caráter incerto que o tornou alvo de ataques por parte daqueles que desejavam um mundo estável baseado nos preceitos e tradições religiosas.

Então como, diante de todos esses fatos, políticos e pessoas aleatórias sem nenhuma formação científica passaram a dizer que “apoiam a ciência”? Ora, se você apoia a ciência você apoia a incerteza! E não apenas isso, em geral o que observo em nossos dias é uma pretensão do conhecimento implacável a avassaladora nos mais diferentes campos: nutrição, fármacos, atividades físicas, psicologia etc etc. As pessoas hoje em dia estão achando que encontraram as respostas para tudo e que uma está mais certa que a outra. Parece um grande hospício de senhores e senhoras certezas.

Entendam: vocês não sabem de nada! Este mundo e a maioria dos assuntos que vocês discutem é extremamente complexo, as variáveis são muitas, a previsibilidade é quase inexistente, e este é o mundo como ele é. Este lugar incerto que está mais para uma grande aventura, cheia de surpresas que moldarão seu caráter em questão de horas. Libertem-se! Libertem-se da pretensão do conhecimento! Tirem este fardo de suas costas e vivam uma vida leve! Sejam humildes! Abracem o desconhecido! Digam para si mesmos: eu sei pouco, muito pouco, e está tudo bem!

Como é libertador aceitar a imensidão de variáveis desde mundo, do ser-humano, das sociedades humanas, da biologia, da química, da história, da psicologia, da astronomia. Como é fascinante saber tão pouco e poder investigar os fatos sem querer uma resposta final para tudo. A vida é uma grande incerteza, e é nesta incerteza que nos entregamos e mergulhamos na maravilhosa obra do criador. Se ele quisesse que soubéssemos tudo, provavelmente nos faria diferentes, não tão pequenos e limitados.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Minimalismo, modinhas modernas e a negação das tradições

Há alguns anos venho observando uma intensificação dos hábitos "minimalistas", ou a cultura do "menos é mais", como você preferir chamar. É muito interessante como, de tempos em tempos, o mundo moderno traz à tona ideias do passado, mas com uma roupagem aparentemente diferente, como se fosse uma super novidade, deixando todos fascinados. A ideia do "minimalismo" consiste, resumidamente e a grosso modo, em se livrar de coisas inúteis que só entulham e atrapalham sua vida, deixando apenas aquilo que é necessário, aquilo que você quer mesmo. Quando você faz isso, sua vida fica mais clean, mais leve, mais harmoniosa e, consequentemente você também se sente melhor.

Isto é uma verdade, uma vida simples geralmente é uma vida mais feliz, e provavelmente você encontrará esta ideia na maior parte das grandes religiões, como na Católica, por exemplo. Não ficarei aqui citando passagens da bíblia, já que chega a ser de conhecimento comum que um cristão deve ter uma vida frugal, sem apego aos bens materiais, prezando pela ordem e pela limpeza, muito longe daquele estereótipo de americano consumista que mora em uma casa enorme que tem tantos objetos e coisas inúteis que o sujeito mal consegue andar sem sair chutando tudo (as coisas pioram ainda mais quando há crianças na casa).

Mas meu ponto principal de hoje não é sobre o movimento minimalista em si - que considero muito positivo - mas de duas práticas que revelam um pouco sobre o comportamento e a psicologia modernas. A primeira prática é negar a grande herança civilizacional das tradições cristãs. Chesterton dizia que a doutrina católica era a melhor filosofia para viver na Terra, superando as outras religiões por ser capaz de entender a natureza humana de forma mais aguçada, orientando com precisão como deveria ser uma vida virtuosa e com retidão, afastando-se dos pecados e buscando a postura moral que mais favorecia o bem-estar do homem.

Mesmo se você não acreditar em Deus, ainda assim a "ética cristã" perpetrada pela Igreja é sábia, e seus mandamentos podem orientar qualquer ser-humano em direção a uma vida mais equilibrada e feliz. Como já dito aqui, uma das principais orientações da Igreja é ter uma vida simples, de forma muito semelhante ao que prega o minimalismo (talvez o minimalismo ainda seja mais radical, pois o católico costuma ver mais valor em certos ornamentos, mas ambos compartilham tendências de "sabedoria" parecidas), porém o ser-humano moderno, sedento por outras fontes de orientação moral que não sejam as mesmas de seus "antiquados avós", preferem negar estas orientações milenares de vida e abraçar filosofias e ideologias fragmentadas que são vendidas pelo mundo a altos preços.

É como se as respostas (quase) perfeitas de uma vida sã já estivessem ali em nossos quintais, harmonizadas e equilibradas após séculos e séculos de grandes esforços intelectuais e físicos, mas preferimos buscar respostas imperfeitas em lugares muito mais distantes, que podem até funcionar de certa forma, mas estão desintegradas de um sistema filosófico harmonizado como aquele deixado pelas tradições cristãs. Mas quem vai querer dar o braço a torcer a "instituições do passado"? Afinal de contas somos muito "descolados" e "progressistas" para isso.

Isto nos leva à segunda prática, que consiste em encorporar "virtudes soltas", de acordo com a moda e a necessidade vigentes. Chesterton gostava do termo "virtudes enlouquecidas", querendo dizer que o homem moderno queria ser bom, mas achava que isso poderia ser feito como em um restaurante self-service, onde ele poderia se servir daquilo que era mais cômodo, e não de um sistema completo e integrado que demandaria muitas restrições e sacrifícios. Simplicidade e desapego material são legais? "Neste momento sim, então vou querer". Castidade é chato e fora de moda? "Então não vou querer". É claro que como o homem moderno não se apega a um corpo unificado de ideias morais, esta ordem pode simplesmente mudar, e o que é antiquado hoje pode se tornar uma ideia nobre amanhã, como a castidade em uma situação de calamidade pública com alguma doença sexualmente transmissível rondando. Assim como a simplicidade pode ser abandonada se alguma ideologia materialista assumir o poder e todos quiserem colaborar com a propaganda do "aumento de padrão de vida", passando a usufruir novamente das tendências de alto consumo (podendo isto acontecer em um governo tanto de direita como de esquerda).

Então em primeiro lugar nega-se e ridiculariza-se o passado e as tradições, evitando qualquer reconhecimento de virtude e verdade neles. Feito isto, passa-se a se buscar fontes de boa filosofia, ideias sábias que contribuam para o equilíbrio da mente e da alma, que comumente são encontradas, mas sempre em fragmentos e frequentemente em doses erradas, não proporcionando os resultados desejados. É claro que boas ideias são melhores do que más ideias. É claro que praticar meditação nos moldes orientais é melhor que usar drogas diariamente como forma de "se equilibrar". Mas não me venha com "novidades" que não são novidades, com ideias atraentes que na verdade são antigas. Não posso fazer nada se você se afastou do legado dos seus antepassados e hoje é facilmente impressionado(a) por escritores e ideólogos que vendem a preço de ouro coisas que o padre da cidadezinha dos meus bisavós já falava. O que a geração atual precisa é conhecer as próprias origens, é uma pena que a cultura clássica ocidental tenha sido removida das escolas, meus contemporâneos mal conhecem o precioso tesouro de que são herdeiros.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A paciência e o diálogo com o possível

Se há algo nesta vida que uma hora ou outra teremos que aprender e aceitar de bom grado é a paciência. Lembro que quando era criança acordava muito mais cedo que meus pais e minha irmã. Ao sair da cama, deparava-me com uma casa vazia, com todos ainda recolhidos em seus quartos. Entediado e sem ter o que fazer, inventava distrações que pudessem me ocupar até que a casa começasse a se “movimentar”. Mas apesar dos meus esforços, o tempo passava devagar, e quando todos acordavam, parecia que eu já tinha vivido a metade daquele dia. Penso que foi nessas manhãs que comecei a ter a noção de paciência, que também chamaria de a “arte de esperar”.

Também durante a infância, minha mãe costumava ser uma das que mais demoravam para buscar eu e minha irmã no colégio. Ficávamos eu e ela no portão da escola por cerca de duas horas. Talvez não pareça muito, mas para uma criança esse tempo costuma passar bem devagar. Enquanto todos iam embora, nós ficávamos lá, entediados, sem mais nenhuma criatividade para inventar brincadeiras, aguardando até a hora de ir embora. Lembro-me bem dos dias que me sentia tão entediado que a vida em si parecia um completo vazio. Mas por incrível que pareça, essas lembranças que me remetem a um tipo de mortificação, moldaram o adulto que sou de forma melhor, criando em mim uma espécie de força e serenidade maior do que a média das outras pessoas. Com aquelas experiências, aprendi a esperar, coisa que muita gente nos tempos de hoje não sabem fazer muito bem.

O mundo moderno é apressado, ansioso e turbulento, e com a recente revolução digital promovida pela internet e pelos telefones celulares, todo este movimento se intensificou consideravelmente. Nesta época, somos não só bombardeados por um turbilhão de informações, como também extremamente cobrados para que acompanhemos o ritmo já instalado. O resultado é um desajuste entre a realidade e o plano virtual de possibilidades infinitas. Enquanto a vida real gira em torno de constância e persistência, o mundo moderno gira em torno de sobressaltos e estímulos que muitas vezes vão além do processamento psíquico humano. Precisamos da paciência, mas a corrida utilitarista nos encoraja à impaciência.

Durante a maior parte da vida humana estamos inseridos em circunstâncias em que nossa ação será pouco efetiva para a mudança. Podemos trabalhar por ela, mas existem conjunturas em que a mudança será um processo lento e gradual, forçando-nos a aceitar nosso estado de relativa impotência. Quando buscamos a todo momento alterar nossa realidade, ficamos consideravelmente irritados e insatisfeitos, enquanto quando temos paciência e praticamos a gratidão, acabamos convivendo melhor com o cenário real onde nos encontramos. Com paciência, temos paz, fazemos o possível e não nos apressamos. Sem a paciência, mantemo-nos em diálogo com o impossível, tentando encontrar atalhos e nos embaraçando em caminhos tortuosos que, muitos vezes, fazem-nos perder ainda mais tempo.

É válido observar a natureza, em toda sua beleza e complexidade, e perceber que tudo nela funciona com certa lentidão. Peguemos uma árvore, por exemplo. Ao meu ver, a árvore é um grande símbolo de paciência. Ela começa em uma semente, cria raízes, espalha-se pela terra, seu tronco cresce aos poucos, levando anos e anos para se tornar uma árvore madura. Depois de madura, ela permanece em estabilidade, dando seus frutos e nos presenteando com toda sua exuberância. É difícil ver uma grande e antiga árvore e não pensar em certa força, sabedoria, serenidade e experiência. Vai ver por isso os índios americanos atribuem às florestas tantos mistérios. Na estória lendária da índia Pocahontas, o oráculo que a aconselha e a auxilia é uma árvore (pelo menos na versão da Disney).

Mas a ideia de um vegetal fixo e enraizado parece não agradar muito o homem moderno, que está sempre a procura de novidades e estímulos externos, nunca se saciando completamente. Em um mundo assim, problemas como ansiedade e depressão continuarão atingindo níveis cada vez mais altos, tornando-se uma enfermidade generalizada. Não cabe a mim descrever uma solução para tais problemas, mas penso que aqueles que praticam a paciência, com o passar do tempo, adquirirão maior imunidade contra esses males, tendo maiores possibilidades de crescerem como admiráveis árvores, cultivando uma vida mais plena, estável e feliz. Portanto, pratiquemos a “arte de esperar”.

domingo, 22 de abril de 2018

A eterna insatisfação do homem moderno

Desde o tempo em que passei a me considerar um ser pensante, daqueles que analisam certos objetos e tentam estabelecer determinada lógica entre um fato e outro para estuturar algum tipo de cadeia racional de eventos e deduções, tenho registrado variações de rebeldia quanto ao mundo como ele é. Falo de uma rebeldia nas pessoas em geral, sempre relutando em aceitar a realidade da maneira como fôra posta. Criança levada, adolescente revoltado, adulto amargurado, parece haver alguma agitação mental em nossos tempos que tira a paz de qualquer sujeito.

Fala-se muito que as pessoas andam tristes, mas poucos falam do motivo da tristeza. Não creio que a felicidade está neste mundo, mas penso que podemos viver bem, carregando o fardo humano de bom grado, sem ficar resmugando pelos cantos como quem perdeu toda a esperança. Mas viver bem tem tudo a ver com a forma como enxergamos a vida; parece que criamos nosso próprio céu ou nosso próprio inferno, não importa quais sejam as circunstâncias. O homem moderno tem procurado o céu na Terra, e com isso sua vida tem se transformado em um inferno.

Temos sido estimulados além do suportável por todos os lados, tanto pela busca do prazer material promovido pelo consumo capitalista quanto pelas paixões ideológicas promovidas por todos que querem substituir a realidade por um mundo previamente pensado onde todos supostamente serão felizes. Queremos sempre algo diferente, cultivamos a insatisfação e logo abraçamos a ingratidão. Nunca existiu uma época tão abundante de recursos como hoje, todavia nunca estivemos tão tristes (você já deve ter ouvido isso diversas vezes).

Muitos colocam a riqueza como fomentador desta insatisfação, apontando o "dinheiro" como grande inimigo do bem-estar humano. Isto é um equívoco. A riqueza nos liberta das atividades primitivas e nos permite mais conforto para exercitar outras faculdades, e assim avançamos como civilização. Penso que o problema está na ânsia de escolher a riqueza como filosofia de vida, colocar as conquistas materiais como um fim, e não como um meio.

Ao focar no materialismo como fonte de felicidade, ficamos sujeitos a todo o caos desta realidade terrena, comemorando e lamentando de acordo com as oscilações da vida, como se tudo fosse uma bolsa de valores, sendo seu sucesso um gráfico de acumulação crescente. Olhamos para o que temos e, ao invés de agradecer a Deus por aquilo, pensamos em como podemos ter algo melhor, entrando em um ciclo eterno de uma busca que nunca saciará nossas almas.

De forma um pouco diferente também está a insatisfação do revolucionário, que revoltado com as circunstâncias de sua vida, crê que a destruição dessas circunstâncias fará com que um mundo novo e melhor para se viver emergirá das cinzas. A situação deste indivíduo é até pior do que a do capitalista insatisfeito. O capitalista insatisfeito pelo menos aprova seu mundo, o revolucionário abomina tudo ao seu redor, entrando em um estado mental de ruptura perpétua.

Ao que tenho percebido aqui, não há filosofia mais sábia que aquelas que nos propõem o desprendimento deste mundo, não de forma tão radical como os orientais, mas de forma prudente como os cristãos. Paradoxalmente, quando nos desprendemos, acabamos lidando melhor com as tribulações deste mundo, parece que observamos e sentimos tudo de uma perspectiva superior, não negligenciando a vida, mas a abraçando de forma a estar protegido de suas possíveis trapaças. Falta este distanciamento para o homem moderno, pois que está a todo tempo estimulado por ilusões, caindo com frequência no turbilhão impiedoso da realidade.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O Espiritismo em minha vida

Desde criança sempre fui muito atraído pelas perguntas que os adultos nunca respondiam direito, questionava principalmente a respeito da morte e do que existe além do que meus olhos podiam ver. Quando ouvia a professora falar sobre “ir para o céu”, aquilo não fazia nenhum sentido para mim, pois apesar de ainda não ter noção científica da composição celeste, algo me dava a certeza que o conceito de morar no céu não tinha pé nem cabeça. Como minha infância foi no Colégio Batista, sempre tive apresentações de estorinhas bíblicas e aulas de religião, adorava ganhar a pequena bibliazinha “de graça”, mas não tinha conhecimento suficiente para interpretar sua difícil linguagem, cheio de parábolas e entrelinhas.
Episódios bíblicos como de “Adão e Eva”, “A Arca de Noé”, e até mesmo a ressurreição de Jesus Cristo nunca me entravam na cabeça, o que me trazia até um sentimento estranho, pois enquanto todas as outras crianças assimilavam e aceitavam aquelas estórias, talvez por um já convívio bíblico em suas famílias (coisa que não tive pois meus pais são espíritas), eu estava sempre desconfiado. O tempo foi passando e um turbilhão de perguntas iam aparecendo a todo momento, e como meus pais, apesar de terem um amplo conhecimento sobre espiritismo, nunca vieram até mim para conversar a respeito, eu fui perdendo minha fé, acreditando na ciência materialista e deixando de lado qualquer conhecimento espiritual.
Assim, durante a adolescência, vesti-me com uma mentalidade materialista e antropocêntrica, fazendo com que paixões superficiais me conduzissem a um mundo restrito, triste e infeliz, onde a vaidade, o orgulho e a intolerância reinavam, onde as ideias eram confusas e as mágoas eram constantes. Depositava meu tempo em futebol, jogos de video-game e computador, brincadeiras infantis e sem sentido. Comecei a perder o interesse pela busca do conhecimento, sala de aula era algo que não fazia mais sentido, o importante era “aproveitar”, rir, desrespeitar os limites e fazer de cada dia “como se fosse o último” (um dos pensamentos mais ridículos que esta humanidade materialista inventou como desculpa para viver seus vícios e paixões abomináveis). A minha maior manifestação espiritual era admitir com dificuldade a existência de Deus, e orar em momentos desesperados de tristeza onde não tinha ninguém para recorrer, fazendo com que uma voz desconhecida me alertasse que eu não estava sozinho.
A vida materialista é totalmente irracional, uma montanha-russa de sentimentos incompatíveis, ilusões arrebatantes e conceitos equivocados, e isso é um campo minado para qualquer ser humano, por isso que os materialistas geralmente são os mais viciados, pois sem fé, buscam no bem-estar da droga (de qualquer tipo), sua “reenergização”. Afogam-se na bebida, no cigarro, no sexo obsessivo, no consumo excessivo de carnes e gorduras (doces inclusive) e se tornam seres em completo desespero íntimo, muitas vezes disfarçado pelo belo carro, a roupa de marca, a falsa alegria e todas as articulações de aparências necessárias para manter uma posição soberana na sociedade, sem que seu abismo espiritual seja reconhecido. Em minha adolescência eu estava caminhando nesta direção, da mesma maneira que a maioria dos jovens também caminhavam, não tinha força nem conhecimento para dizer “não” aos impulsos de uma juventude mal criada pela pífia educação capitalista e gananciosa de nosso Brasil.
E cada dia passava e mais sensações ruins eu experimentava, e toda vez que batia o desespero aquelas perguntas sobre a vida e os motivos de tudo vinha à tona e me deixavam mais sem caminho ainda. A tristeza de não saber de onde venho, para onde vou, que planeta é este, o que devo fazer e por que devo fazer, isso começou a me deixar cada vez mais pra baixo, até que certa vez aos 17 anos perdi o controle totalmente, lembro que foi numa quarta-feira, o vazio da falta de respostas me fez sentar e parar por horas e minha constante alegria foi tomada pelo silêncio e angústia interior. Meus pensamentos estavam sendo marcados por um divisor de águas, esse me falava que eu tinha que parar e buscar as respostas o mais rápido possível, não era aceitável continuar daquela maneira. Até que depois de 2 dias, numa sexta-feira, fui até a sala completamente desolado e comecei a questionar meu pai sobre o que ele acreditava detalhadamente, pois sempre tive ideia dos conceitos espíritas, mas não em detalhes, não lembro o que ele falou, mas aquilo me confortou muito, não o suficiente para levantar, mas me deu uma pequena esperança.
Essa pequena esperança me deixou sentado no tapete da sala pensando e vendo a televisão sem prestar atenção, e esse foi o fator que me despertou totalmente, pois nessa hora de iluminação a novela das oito estava terminando e o Globo Repórter começando, sempre gostei desse programa e já estava esperando as reportagens sobre lugares exóticos do planeta, alimentação e coisas desse tipo, porém o programa daquela noite não era sobre nada disso. Como se tudo tivesse sido projetado antes de acontecer, naquela sexta-feita a noite, logo após dois dias de crise existencial e uma conversa sobre espiritismo com meu pai, o programa tratava de “Vida após a morte”, uma série de reportagens com pessoas praticantes de espiritismo e principalmente pacientes que tiveram “Experiência de quase morte”, relatando o que viram e tudo que aconteceu.
Naquela noite acontecia um grande marco na minha vida, como se eu estivesse sendo chamado para voltar a natureza de meu espírito, natureza da bondade, da paz, do amor e do desapego. Nunca assisti televisão tão concentrado, aquele programa, juntamente com a conversa com meu pai, foi uma revolução de pensamentos e inspirações para o que eu faria dali para a frente, as imagens, os relatos, os fatos me abriram os olhos para ver que algo mais existia, e minhas respostas seriam respondidas logo logo. A partir dai comecei a ler mais sobre filosofia, religiões de todas as partes do mundo e principalmente o “Livro dos Espíritos”, esse último foi o livro mais rápido que li em minha vida, consumi ele como um faminto que senta frente ao prato de comida. Aquilo tudo fazia sentido, minhas respostas estavam ali sem nenhum conflito, como se eu já conhecesse aquelas ideias de algum passado, como se eu apenas estivesse sendo relembrado de quem realmente sou e quais leis sigo.
A chegada da fé espírita é um choque para os conceitos materialistas, pois é totalmente o oposto deles, fazendo com que o recém espírita tenha sua vida girada de cabeça pra baixo, ou melhor, tendo sua vida girada de cabeça pra cima, como assim deve ser. Com o espiritismo, a realidade da reencarnação, das outras dimensões, dos outros planetas, da hierarquia espiritual e de quase todas as respostas, fazem com que a vida tome um rumo completamente diferente, tendo o espírita uma nova visão sobre tudo, intepretações seguras e soluções rápidas, inspiração pela eterna busca de conhecimento, desenvolvimento das virtudes cristãs já conhecidas, uma enorme força de perseverança, disciplina e inevitável crescimento intelectual.
E foi isso que vivi nos últimos dois anos, período esse que li diversas obras espíritas (mesmo sabendo que não é nada frente ao grande acervo existente), e mudei totalmente minha conduta, tornei-me compreensivo, paciente, forte, parei de buscar atalhos e valorizei o suor de cada dia, eliminei vícios e paixões estúpidas, purifiquei meus pensamentos, aposentei palavras como “ódio” em qualquer hipótese. Cresci de uma maneira que nunca vi antes, depois de uma adolescência estagnada na mediocridade, agora recupero o tempo perdido, felizmente acho que já recuperei, e agora já comecei a lucrar, ganhar tempo. Para ser sincero, eu precisaria de uns cinco parágrafos para descrever todas as mudanças radicais que a visão espírita trouxe a minha vida. Hoje sou bem melhor, e essa melhoria é que me fez realizar o recente sonho de vir morar no exterior por minha conta, agora estou escrevendo sentado no sofá vermelho de uma bela casa no meio das montanhas da Escócia, aprendendo uma chusma de coisas novas todos os dias, praticando a caridade que tanto o espiritismo tem me aconselhado, corretamente é claro, pois realmente a caridade nos traz um prazer imensurável.
Creio que se eu tivesse vindo um ano antes, como tentei vir, eu não estaria tão bem como estou agora, pois foi no último ano que realmente aprofundei meus estudos espíritas e criei toda a base humana para cuidar do tipo de pessoas que cuido aqui. Se eu podesse continuaria escrevendo mais e mais sobre o espiritismo, porém o texto já está enorme e está na hora de parar. Só agradeço a Deus por ter me dado oportunidade de conhecer a doutrina, por ter me colocado numa família iluminada, por ter nascido em Minas, terra de Chico Xavier, e crescido no Ceará, terra de Bezerra de Menezes. Ainda trabalharei muito pelo espiritismo, já tenho planos para quando chegar ao Brasil, e servirei incansavelmente para agradecer o que Deus tem me dado. Que felicidade tenho hoje de entender a história, a natureza e até compreender que para algumas coisas ainda está cedo para entender, que felicidade de ter Deus e meus espíritos protetores, de ter o conhecimento necessário para uma vida plena e prazerosa, hoje entendo onde está a real felicidade, e assim posso trabalhar focado por ela. Que energia estou de estudar, trabalhar, crescer, casar, ter filhos, cuidar de uma casa, ajudar o próximo, abraçar os que aparecem em meu caminho, que energia estou para viver. Obrigado senhor, e para você que leu esse texto, muita paz, pois é isso que precisamos.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para além da justiça humana


Wellington Menezes de Oliveira, era seu nome na realidade em que o mundo exterior o via, não se sabe até onde o rapaz admitia tal identificação tão ligada à ingrata sociedade que o inspirou a fazer tamanha barbárie, mas ele aceitava, não só seu nome, mas todas as formas de tratamento que vinham ao seu encontro, seja de cabeça erguida ou não. As poucas palavras revelavam um ser humano em total aprisionamento psíquico, interpretando suas visões de acordo com os desejos de seu foro íntimo.
Dentro de seu mundo, pouco se sabe o que acontecia, porém é fato que a realidade do jovem não se adequava de forma alguma à de seus colegas ou familiares. No mundo dele, inúmeras possibilidades e linhas de raciocínio poderiam estar se manifestando e amadurecendo há anos, sem que nenhum fator externo fosse capaz de arrancá-lo de seus pensamentos, supondo-se que mesmo que estivesse vivo, não tomasse conhecimento das dimensões do estrago que operou.
Cristão, seguia a bíblia, valorizava a castidade e acreditava que a partir dela seria abençoado com a divina ressurreição, independente de seus deslizes terrenos, que segundo ele, seriam menos graves que o toque de uma alma “impura”. Ora, em que ponto este rapaz chegou para valorizar mais sua “pureza” sexual às vidas tiradas sem piedade? É certo que neste ponto há algo que chama a atenção, pois a seleção de sua chacina foi voltada para as meninas, as pequenas mulheres, seu sexo oposto, talvez aquele com que teve mais dificuldade de relacionamento, e aquele que colaborou para uma interpretação bíblica mais inescrupulosa que o normal.
Queria um espetáculo, trabalhou por isso, estudou minuciosamente o que deveria fazer. Chegava do trabalho, passava na mercearia, comprava um refrigerante e permanecia horas em casa sentado em frente ao computador. Talvez horas de pesquisa, dias, meses, lendo textos que o inspirassem, vendo imagens que o informassem, assistindo vídeos que o auxiliassem em cada movimento. Uma alma em estado de perturbação, utilizando suas faculdades intelectuais em prol de um ideal, talvez vingativo, filosófico, religioso, nunca saberemos.
A justiça do homem é capaz de regular as ações dos homens, porém quando um homem desencarna, ele não mais faz parte deste mundo, portanto não pode ser punido por seus semelhantes. Ele se suicida sem saber se o que fez é grave, ou se representa algo notório, porém diante das proporções, devemos considerar que seu ato acarreta uma negatividade muito além do que um humano pode suportar com as próprias mãos.
Como supor a inexistência de Deus diante de tamanha injustiça? Neste caso não há razão, não há coerência, pois a perfeição do universo é incompatível com a impunidade imaginada pelo ateísmo. Tudo se transforma num grande enigma, fora do alcance da inteligência humana, algo de tamanha grandeza que aparenta ser incompreensível. Perguntamos em situações oportunas: “Que mundo é esse?”, “Onde o mundo vai parar?”. As respostas ainda estão longe, mas alguém muito próximo de nós sabe, está vendo tudo e tomando todas as providências necessárias para que a limitada justiça do homem seja suprida.
Um dia teremos conhecimento das penas cumpridas por Wellington, pois há sentido em tudo, só não estamos aptos a entender, não obstante ficamos reféns do livre-arbítrio, caminhando em corda bamba. Todos sofrem as conseqüências de seus atos, não há fuga capaz de inibir este fato, a justiça cedo ou tarde vencerá, por mais que o infrator acredite que a tenha vencido.