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quarta-feira, 31 de maio de 2023

O que mais valorizo em países livres

Vez ou outra me pego pensando sobre o que mais me causa desconforto no Brasil. Por algum tempo, talvez por apreciar o estudo da economia, tendi a acreditar que os assuntos econômicos me pareciam mais relevantes. Porém os anos foram passando, minhas visões foram amadurecendo e comecei a enxergar uma importância cada vez mais maior em algo que é muito falado, mas talvez não seja tão compreendido e bem dimensionado: a falta de segurança.

Falando assim o leitor pode estar se preparando para mais um daqueles desabafos clichês de alguém que tem medo de ser assaltado ou que fica revoltado com o noticiário constante de crimes bárbaros que quase nunca são solucionados. Mas não, ao meu ver a falta de segurança no Brasil é algo que há muito tempo passou dessa preocupação corriqueira de sofrer um assalto, tendo já ganhado proporções que alteraram com certa profundidade o psicológico coletivo e como a sociedade brasileira se organiza cultural e estruturalmente.

Ao tocar no assunto, alguém já pode se antecipar e dizer: “mas o Brasil sempre foi assim!”. E eu respondo: não, o Brasil nunca foi um país muito ordeiro, mas também nunca chegou a ser o caos e a completa hegemonia do crime como vemos hoje. Basta olhar os números para observar o aumento de crimes violentos nos últimos 50 anos, em especial a partir dos anos 90, com o aprofundamento das políticas socialdemocratas. E se você não gostar muito de números, basta conversar com alguém que viveu da década de 90 para trás. Naquele tempo já havia coisas como assaltos, roubos, insegurança etc, mas nada comparado ao cenário atual. As grandes cidades brasileiras eram muito mais tranquilas, e os interiores mais ainda, completa paz e estabilidade com crimes pontuais que vez ou outra chocavam a população.

Eu nasci no início da década de 90 e, portanto, pude testemunhar o avassalador colapso de nossa liberdade à medida em que o tempo foi passando. De lá para cá, saímos de uma realidade em que praticamente não tínhamos preocupações com o crime, usufruindo de uma paz em ir e vir e desfrutar de lugares públicos, a um contexto radicalmente diferente, em que gastamos considerável parte de nossas rendas para pagar vigilância humana, câmeras, cercas elétricas, alarmes, controles de acesso cada vez mais sofisticados, carros blindados (quem pode), assim como fomos adquirindo todo um padrão de comportamento para nos protegermos de sermos alvos.

A ascensão meteórica do crime na sociedade brasileira mudou nosso comportamento e até a estrutura de nossas cidades, áreas públicas se tornaram subutilizadas e shoppings fechados ganharam um forte impulso, passando a ser pontos de encontro e sociabilidade da população. O brasileiro não para o carro na rua sem olhar desconfiado em todas as direções, não para em um sinal de trânsito sem olhar no retrovisor se há alguma moto se aproximando, não pega um ônibus sem analisar as pessoas ao redor e tentar identificar possíveis ameaças, não deixa um pertence na areia da praia enquanto toma um rápido banho de mar, não deixa que um familiar ande a pé por ser uma área perigosa etc.

Quando um estrangeiro chega aqui, fica impressionado com o tanto de orientações alarmistas que os brasileiros fazem, achando que todo esse medo é exagero. E com frequência pode ser mesmo, mas carrega um fundo de verdade: o brasileiro vive apavorado, e quando alguém acostumado a ser livre chega no país, os residentes tentam passar a ele ou ela todas as restrições de liberdade que deve ter ciência para que se proteja.

Isso tudo já se tornou repetitivo pois já faz mais de 10 anos que se tornou uma realidade a ser aceita e até não questionada, em razão do “espírito da época”, que passou a tratar o crime como um “probleminha de comportamento” que deve ser “administrado” de forma branda e “humanista”. Cenário em que criminosos são tratados como vítimas e vítimas que se revoltam são tratadas como criminosos, uma realidade angustiante para quem busca uma justiça objetiva e comum, dentro da lógica tradicional de que quem prejudica o outro deve ser punido, sistema óbvio que funcionou relativamente bem em todas as civilizações minimamente estáveis.

O fato de o assunto ter se tornado repetitivo e muitos terem até deixado de reclamar é o que me causa mais perplexidade. O brasileiro, como que em um experimento social de adaptação de longo prazo, acostumou-se a ser confinado, aceitou sua tragédia e desistiu de lutar. É como se um homem livre tivesse se tornado escravo e por muitos anos tivesse tentado se rebelar, mas ao ver que nada acontecia, cansou, e aceitou sua triste realidade. Hoje uma pessoa de classe média comum vive em um condomínio de segurança máxima, pega seu carro, e vai de um ponto ao outro sem se expor, pulando de “ilha” em “ilha” para tocar sua vida como se tudo fosse normal, com frequência acreditando que esta é uma vida livre e ordinária de qualquer pessoa que vive em uma sociedade funcional. Se durante esta rotina ela ver alguém sendo assaltado na rua, trata-se de um evento corriqueiro, nada a se preocupar, nem a polícia é mais acionada. É assustador.

Mas o assustador mesmo é que isso não é assustador para grande parte dos brasileiros, pois os mesmos sequer sabem que existe algo diferente. Eu, como muitos que moraram em países ordeiros no exterior, ficamos perplexos com a aceitação geral da população, com a quase total entrega das liberdades a grupos criminosos e até grupos políticos que não confrontam o problema. Por isso é tão difícil a readaptação no Brasil após uma temporada fora. Quando você passa um tempo considerável em um país livre, o retorno ao “confinamento” é avassalador. É claro que isso também varia de pessoa para pessoa, e aqui chegamos ao motivo de eu falar sobre isso, pois este é um relato pessoal, e eu sou um desses que se sente muito mal com esta realidade.

Passados alguns anos de reflexão, entendi que o bem que mais vale para mim é a liberdade de ir e vir, de usufruir o mundo sem estar sempre se sentindo ameaçado, como se estivesse sempre fugindo em um estado de alerta que muito se assemelha a realidades de conflitos bélicos. Hoje em dia viver em uma capital brasileira exige um nível de alerta e mobilização preventiva maior que a de um homem medieval vivendo em um vilarejo pacato e isolado composto por algumas dezenas de pessoas. Lembro-me que os momentos mais felizes da minha vida foram em ocasiões em que pude desfrutar de grande liberdade e segurança em experiências em lugares públicos que tive no exterior: passeios de bicicleta e caminhadas no meio da estrada, acampamentos, voltar de um jantar no meio da noite pelas ruas de uma cidade etc. Coisas que parecem banais, mas têm um valor inestimável.

Imagine que existisse uma empresa brasileira que nos vendesse a mesma sensação de segurança e liberdade que temos em países ordeiros no exterior, como se fosse uma mágica. Você pagaria mensalmente um valor para ter a sensação de um europeu, um americano ou um canadense. Quanto isso custaria? Já passou para pensar? É difícil até de precificar tal serviço, pois reflete um valor imenso e abstrato. Mas tenho certeza que quem pudesse, estaria disposto a arcar com tal despesa, viabilizando uma experiência existencial muito mais rica e estimulante.

Após muito refletir, entendi que o que me fascina no estrangeiro não é tanto a possibilidade de conquistas econômicas, mas sim a liberdade que o cidadão comum perdeu no Brasil. Para quem já experimentou a liberdade, viver em confinamento é uma angústia que até acabamos aceitando, mas nunca realmente superamos. Isto também me traz outras conclusões, de que talvez não queiramos tantas coisas assim, de que não sejamos tão exigentes. Se tivéssemos um país minimamente funcional, com uma justiça previsível e confiável e o cenário da criminalidade controlado, imagino que muitos brasileiros que hoje vivem no exterior cogitariam retornar. Porém a realidade é dura, pois não há previsão para que o Brasil saia desta, devendo o estado de confinamento se prolongar por décadas.

Lembro-me daquela clássica lição de ciência política: para se construir algo bom (como a liberdade) precisamos de décadas ou séculos, mas para se destruir, bastam alguns anos. Não subestimem a possibilidade de a situação piorar ainda mais, como por exemplo com a restrição da liberdade de expressão. Isto pode acontecer de repente, e se consolidar com poucos meses. Sendo que esta é apenas uma das frontes de liberdades civis que o brasileiro pode perder, havendo algumas poucas outras que ainda se sustentam.

Adendo: esta é a realidade de um homem de classe média em uma capital do Nordeste, a situação pode variar muito a depender do gênero, posição geográfica e situação econômica de cada indivíduo.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Coletivismo não é fraternidade e Individualismo não é egoísmo

Resultado de imagem para coletivismoUma das grandes dificuldades no processo de difusão do pensamento liberal é a desmistificação de alguns termos que até então parecem favorecer os socialistas. Dois desses termos, muito citados na literatura liberal, é o "individualismo" e o "coletivismo". O primeiro nós ouvimos desde que somos crianças: "Não podemos ser individualistas, temos que dividir.", o mundo nos diz. E com toda razão, a solidariedade e a partilha são parte de nossa cultura e considero algo benéfico.

Acontece que, quando falamos de Ciência Política, o "individualismo" não significa esta noção de egoísmo e mesquinharia, e sim a liberdade de determinada pessoa agir da maneira que quiser, contanto que não fira as leis que regem a sociedade (e sim, as leis são necessárias). No modelo "individualista", o Estado é formado em torno da proteção do indivíduo, e não de grupos, isto garante que a autonomia de cada pessoa seja respeitada, protegendo, em especial, as minorias, aquelas que a esquerda costuma defender sempre mas não admite que são as mais perseguidas quando seus regimes socialistas se encaminham para realidades autoritárias.

O segundo termo, "coletivismo", soa como algo benevolente, ligado à fraternidade entre os homens: "Pensemos no coletivo!", dizem. E não há nada demais nisso, contanto que se atue coletivamente de forma voluntária, e não se utilize a força coercitiva do Estado para criar estruturas de proteção a determinados grupos (o que acontece muito no Brasil). Um modelo de Estado coletivista não pode conviver com um modelo individualista, quanto mais coletivista um Estado, mais ele compromete a autonomia individual e força as pessoas a se sujeitarem a um suposto "bem comum", e foi exatamente isto que aconteceu com as ideologias colocadas em prática ao longo do século XX. No começo, parecia uma salvação coletiva rumo a um paraíso, depois, logo se transformou em um inferno administrado por uma elite despótica.

Há de se destacar que uma pessoa que defende um regime político "individualista" não necessariamente é alguém que pensa apenas em si mesma, pelo contrário, talvez esta pessoa esteja bem inserida socialmente e coletivamente, mas por uma convicção ética prefere um modelo que proteja as "minorias" e até ela mesma (caso um dia ela se torna alguém "diferente" do todo"). Assim como uma pessoa "coletivista" talvez não seja tão fraternal assim. Muitos coletivistas - e aqui destaco os socialistas - são daqueles que endossam uma ideologia política que poderia salvar a humanidade mas não têm a coragem de mover uma palha para ajudar alguém mais próximo, como um familiar que está logo ali ao lado. Em outras palavras, são aquelas pessoas que "amam" a humanidade mas odeiam o ser-humano.

Estados individualistas formam estruturas sociais voluntaristas, enquanto Estados coletivistas formam estruturas sociais coercitivas. Há uma grande tendência a nos deixarmos levar por promessas de regimes coletivistas, pois costumam prometer "fins" compensadores, entretanto devemos haver cuidado com essas promessas, afinal um grande Estado capaz de "fazer o bem" é um grande Estado capaz de fazer o mal. Portanto, por via das dúvidas, talvez seja melhor manter este Estado contido, evitando assim processos de tiranização. Isto é Ciência Política clássica, coisas que fundaram nossa civilização, mas parece que há a necessidade de sempre relembrarmos, principalmente em um país em que seus cidadãos cedem tanto poder aos governantes, abrindo mão da própria liberdade em troca de promessas de direitos e segurança econômica.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O socialismo não leva ao socialismo

Seria interessante se o socialismo realmente nos levasse ao socialismo, não que em algum momento o socialismo chegasse a ser um sistema moralmente aceitável, mas se pelo menos funcionasse e nos levasse a uma condição de sobrevivência tolerável, poderíamos até reconhecê-lo como algo "discutível". Porém a realidade é muito, muito longe da teoria. O socialismo não nos leva ao socialismo, ele nos leva à escravidão.

Imagine um senador do PSOL defendendo esta ideologia e dizendo que com ela teremos mais liberdade, ele pode ter as melhores intenções, mas desconhece o que está realmente defendendo. Quando jovens inexperientes caem neste erro podemos até tolerar, mas adultos experientes defendendo tal ideia somente nos leva a duas possibilidades: (I) o sujeito tem alguma deficiência cognitiva ou (II) trata-se mesmo de um mau-caráter querendo subir ao poder.

Está mais que provado, tanto pela teoria praxeológica austríaca, quanto pelas experiências históricas reais, que a tomada dos meios de produção e a coletivização da propriedade pelo estado nos leva, inevitavelmente, ao colapso econômico, à destruição de riquezas, à pobreza e, consequentemente, ao despotismo, pois apenas uma tirania violenta conseguiria se manter no poder frente à dizimação humana que estaria em curso.

Em outras palavras, podemos apenas relacionar "socialismo" a "liberdade" se deturparmos completamente o sentido de "liberdade", de forma tal que um presidiário pudesse ser considerado um homem livre, simplesmente porque ele tem um teto, alimentação e pequenos momentos de lazer. Ora, não seria isso a situação do regime cubano em suas devidas proporções? Será que isso é liberdade para os socialistas? Simplesmente sobreviver? Não entrarei no mérito se os cubanos são felizes ou não, eles podem até ser, assim como um escravo pode ser feliz ao ser bem tratado por seu senhor. Mas isto definitivamente não é liberdade.

Eu sou mais feliz sendo livre, pois gosto de tentar coisas novas, empreender, ter meus projetos individuais, lidar com o desconhecido, mas este sou eu, e sei que nem todos aspiram os mesmos valores. Você não precisa ser livre para ser feliz, até porque quanto mais liberdade se tem, mais responsabilidade também é colocada sobre seus ombros. O socialismo é uma revolta contra a responsabilidade, é uma luta pela libertação da realidade, é uma fuga e, sendo um pouco mais duro, uma forma de suicídio.

Aquele socialista cheio de energia humana e que vive falando de amor, está, na realidade, morto, ele está se desligando das coisas como elas são, ele não quer alterá-las de forma engenhosa e racional como os empreendedores, ele quer a destruição imediata de tudo e um redirecionamento cósmico para sua utopia. Ele busca liberdade e, sem perceber, conduz a sociedade à escravidão, ao declínio e até a sua destruição.

E o que esperar de um país onde as aspirações políticas estão canalizadas para um objetivo intangível? Simplesmente a ascensão da demagogia mais vulgar, da hipocrisia, da mentira e do solapamento dos valores morais mais fundamentais. Quanto mais forte é o ideal socialista em uma sociedade, mais caótica ela será, e quanto mais tempo ela for liderada por tais ideias, mais difícil será reverter o processo. A vigilância sobre o avanço desta ideologia deve ser constante, implacável e incansável, pois nós ainda temos um pouco de liberdade, mas seria lamentável se nossos descendentes fossem coagidos a acreditar que "não há nada mais livre que a escravidão".

domingo, 9 de agosto de 2015

Escolha a liberdade

A sensação de exploração sempre existirá enquanto os recursos forem escassos, a luta pela sobrevivência fez, faz, e sempre fará parte de nossa existência. Você pode escolher entre se isolar em um ponto distante na natureza, produzir seu próprio alimento e viver da maneira que melhor o(a) satisfaz, ou você pode viver em sociedade, oferecer seu trabalho e buscar as melhores vantagens e oportunidades de acordo com suas ambições pessoais.

O capitalismo não impõe uma forma pré-determinada de como as pessoas devem viver, este é um sistema de liberdade, de livre-escolha. Você pode escolher ter uma vida simples, um salário modesto, vestir uma calça furada e andar por aí ajudando os pobres e necessitados, ou você pode empreender, investir em algum negócio, acumular bens materiais e ter uma vida de rei (se for bem sucedido).

Elites sempre existirão, mas qual seria a melhor opção? Uma elite de políticos poderosos que nada produzem à sociedade e utilizam a força para sua manutenção no poder, ou uma elite econômica que só pode ser sustentada através da melhor oferta de bens e serviços possíveis aos demais? O mercado é o sistema democrático mais implacável que existe, nele milhões, bilhões, trilhões de votos estão sendo computados diariamente, nele quem tem poder é o indivíduo, e a paz é uma dos preceitos indispensáveis para sua sobrevivência.

Em uma economia de mercado ninguém é forçado a nada, não existe uma maioria impondo o que é melhor para todos, o que existe são indivíduos buscando seus objetivos, cada um com sua personalidade e distinção, ao mesmo tempo que empoderam aqueles outros indivíduos que merecem reconhecimento pelos bens e/ou serviços que ofertam, sejam eles materiais, intelectuais, artísticos etc.

Quanto mais poder (dinheiro) é direcionado à classe política, mais fraco se torna o mercado, quanto mais fraco o mercado e a economia, maior a sensação de exploração. Muito se trabalha, pouco se poupa, parece que nunca conseguimos sair da corrida dos ratos. Mas quando o mercado tem seu espaço e os indivíduos podem prosperar, tudo se transforma, mais riqueza e oportunidades são geradas, as pessoas conquistam mais autonomia e a vida ganha uma nova dinâmica de otimismo, motivação e cooperação.

Optar pelo mercado ao invés do Estado significa optar por uma libertação gradual, longe das receitas mágicas e das ideologias utópicas, é focar em si mesmo e oferecer o melhor que se pode fazer, é gerar valor e encontrar oportunidades onde há demanda, é construir a própria segurança e depois olhar para trás e reconhecer que você é muito maior e mais capaz do que imagina. No final das contas, não existe almoço grátis, mas é melhor lutar pelo seu almoço na liberdade do que ter seu almoço dependendo daqueles que acreditam saber o que você precisa para ser feliz.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Isolamento


Esta semana completo meu primeiro mês vivendo longe de casa, vivendo em um local completamente isolado, podendo contar apenas com alguns jornais escoceses e uma internet bem lenta que não me motiva a me atualizar todos os dias. Vou sabendo o que acontece do mundo de relance, sem dar muito atenção por conta da natureza que me embriaga com sua paz e beleza. Neste lugar você é convidado a esquecer as tensões do planeta, neste lugar você está isolado, seus únicos vestígios do passado estão na memória e em alguns objetos de seu quarto.
Apesar dessa vida ser a ideal para muitos, e não posso negar que é algo completamente saudável para o corpo e o espírito, é inevitável sentir uma pequena angustia em alguns momentos, principalmente se tratando de um jovem como eu, que gosta de estar por dentro do que acontece no máximo de cantos que meu cérebro suportar. Ao mesmo tempo que estou aprendendo e trabalhando muito, também sinto um sentimento de intervalo de vida, de reenergização, de organização, de preparação. Como se aqui eu estivesse descansando, acumulando conhecimento e principalmente força para o futuro.
Ontem a noite quando já estava em minha cama tentando dormir com dificuldade, pois dormi a tarde devido ser meu dia de folga, eu olhava a fraca luz noturna entrando através da janela, iluminando com fraqueza o quarto, e discriminando o pequeno espaço do lugar. Naquele momento pensei o quão longe eu estava de tudo, nada mais ao redor de mim além de florestas, montanhas, plantações e algumas casinhas de fazendeiros charmosamente espalhadas por toda a região. E dentro daquela casa no meio do nada, eu estava num pequeno quarto, escuro, tentando dormir na minha também pequena mas confortável cama, nada além do silêncio e de meus pensamentos que costumam viajar sem conhecer limites.
Naquele momento me veio a cabeça aquelas pessoas que vivem em total isolamento, principalmente por punição, encarceradas, como um alimento estocado no armário escrito: “manter em local arejado”. Imagine um detento de uma prisão de segurança máxima, condenado a permanecer ali por mais de 30 anos. Sua vida não é nada, ela está preso, ocupa um cubículo todo branco, com um miserável colchão que não é possivel chamar de cama, uma pia e um vaso sanitário. De vez em quando ele sai para tomar sol, vai para um pequeno espaço onde a luz bate, fica alguns minutos e retorna ao seu cubículo.
A vida desse infeliz não tem sentido, ele está totalmente excluido da sociedade, nada possui além de suas lembranças, de sua memórias que são lembradas com dificuldade. A existência dele naquele momento não é mais que reflexão, dia e noite, noite e dia, ele e seus pensamentos, nada mais, durante mais de 30 anos. O que ele pensa? Eu quando estou sozinho aqui, penso logo na minha família, ou melhor, quase todos os momentos aqui sinto uma forte ligação com minha família, sinto vontade de abraçar, incomodar, rir, fazer rir etc.
O que será que o infeliz do presídio pensa? Se ele tiver família, provavelmente ele pensará na família, seriam mais de 30 anos só pensando nisso, mas se ele não tiver? Imagine você no lugar dessa pessoa. Nessa situação, um segundo demora um minuto, um minuto demora uma hora, e o tempo que deveria ser 30 anos acaba dando a impressão de 60. Todos os dias a mesma coisa, talvez você dê um nome para seu vaso sanitário, outro nome para a pia, converse com eles, discuta, ria, fique completamente louco.
Agora digamos que ele sobreviva, e provavelmente vai sobreviver, um dia depois de mais de 30 anos ele é literalmente cuspido para fora do presídio, “boa sorte!”. O que ele faz? Arruma um emprego? E se ele arrumar um emprego? Qual seria o sentido do emprego dele, ganhar dinheiro para sobreviver? A vida está completamente tombada, desmoronou, acabou, não há nada a fazer. Esse homem perdeu a motivação de tudo, ele está completamente alienado pela vida do cubículo, ele se arrependeu de seu crime e agora não tem o que fazer. Ele vai se suicidar, é uma certeza.
A partir dessa reflexão penso naqueles com poderes para julgar o futuro de um homem, como juízes. Provavelmente o juíz que o julgou teve uma vida dedicada aos estudos, e nunca, mas nunca sentiu o que é estar preso, isolado, encarcerado, mesmo assim ele tem o poder de dizer que o réu precisa de tantos anos naquela situação. É como você recomendar uma tarde de pescaria para um amigo só por ter lido algumas revistas sobre pescaria, quando na verdade você nunca pescou, nunca tentou, nunca experimentou.
Acredito que prender alguém é acabar com a vida de alguém, em alguns casos é pior que a pena de morte, dependendo de como você a vê. Por isso sou totalmente adepto dos trabalhos sociais, ou mesmo qualquer trabalho sem muito fundamento, apenas trabalho, para manter o ser ativo, para ele experimentar o tempo passando, para ele ser desafiado, para buscar se superar a cada dia. Um homem sem trabalho é um homem vazio, um homem sem trabalho e sem liberdade não é um homem, ele já morreu.