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domingo, 24 de março de 2024

O que aprendi trabalhando com pessoas especiais

Trabalhar todos os dias com pessoas especiais é uma experiência que muda muitas de nossas referências enquanto seres-humanos. Uma destas referências é a noção de valor e capacidade de cada pessoa em si. Durante nossas vidas é comum ouvirmos falar de indivíduos que não se achavam capazes de ter uma rotina funcional, que acreditavam que por uma tragédia do destino não foram agraciados com praticamente nenhuma habilidade, que são incapazes e não entendem porque habitam este mundo. Em tempos de redes sociais, onde por todo lado a ideia de indivíduos perfeitos e conquistadores, idealizadores de grandes projetos, é vendida como se fosse praticamente o único caminho para a grandeza humana, este desconforto da “pessoa comum” é ainda mais presente e profundo.

Isto é tudo uma grande bobagem. Uma ficção para atrair os desocupados e entediados, assim como vender ideias de felicidades não apenas ilusórias, como grosseiras e vulgares. Digo isto porque o fato é que há uma diversidade avassaladora de boas maneiras de se viver esta vida e os falatórios populares estão longe de conseguirem abarcar todas as combinações existenciais disponíveis ao nosso redor. No campo do valor humano, todos podem se sentir especiais apenas por existirem, pois, a mera existência já é um acontecimento especial e extraordinário.

Não existe absolutamente ninguém sem valor, sem habilidades e sem capacidades incríveis. Se você colocar um pássaro dentro da água, ele não nadará porque é um incompetente, preguiçoso ou incapaz, ele não nadará porque sua natureza não pertence àquele ambiente, ele foi feito para o ar, para o livre movimento de suas asas rasgando os céus e coordenando seus movimentos ao soprar dos ventos.

Se você por algum momento achar que não tem tanto valor, que não é tão capaz, que não sabe porque está aqui, pare imediatamente. Você provavelmente está no lugar errado, está fazendo escolhas erradas e está entrando em um ciclo de enganos que traem sua própria natureza. Concentre-se no seu “eu”, entenda quem você é e siga sua procura sem pressa. Em algum momento encontrará seu lugar, e ficará surpreso com sua capacidade, criatividade, poder e destreza para fazer tudo que se propõe.

Imagine um homem primitivo que recebe um martelo sem ter a mínima ideia para que serve. Ele tenta cortar um pão com o martelo, tenta caçar um cervo, tenta coletar água no rio, e tudo se torna um fracasso com aquela ferramenta imprestável simplesmente porque ele não sabe para o que ela serve. Até que certo dia, meio frustrado e desesperançoso, o homem usa seu martelo marretando uma rocha, que se quebra em pedaços afiados. Ao ver a rocha quebrada e as novas formas à sua frente, ele começa a perceber a utilidade daquela poderosa ferramenta. Com o tempo ele passa a encontrar uma infinidade de utilidades para a mesma, passando a executar todo tipo de projeto que o ajuda a melhorar de vida, além de se proteger de possíveis ameaças.

Somos como homens primitivos agraciados com vocações fantásticas, porém estas vocações não nos são reveladas, nós temos que adentrar uma jornada de autoconhecimento e experiência própria para conseguir descobri-las. Este é um processo que requer calma e paciência, e talvez este seja uma das maiores dificuldades de nossa apressada geração.


Mas o que tudo isso tem a ver com pessoas com necessidades especiais?

Simples, absolutamente todas elas também têm condições de contribuir e realizar uma série de coisas, mesmo com todas as suas aparentes “limitações”. Trabalhando com dezenas de pessoas com síndrome de down, autistas, entre outras condições mentais, isto tudo ficou muito mais claro para mim. A ideia de que absolutamente todo ser-humano tem um valor inestimável.

As pessoas com necessidades especiais que vivem em comunidades Camphill ao redor do mundo são simplesmente impressionantes. Com anos de prática e boa educação, tornam-se bons padeiros, fazendeiros, cozinheiros, comunicadores, artistas, entre outras infinidades de ocupações que nos deparamos ao viver em um lugar como esse. Todas as vezes que vi uma pessoa com alto grau de autismo executando algum trabalho difícil, fiquei completamente envergonhado e constrangido ao lembrar de todas as vezes que ousei reclamar da minha vida e de minhas obrigações, e mais ainda das vezes em que tive alguma crise de autoestima e questionei minhas próprias capacidades de viver neste mundo. É simplesmente um choque de realidade, algo até difícil de explicar a quem não vive aqui, e por isso que sempre digo à minha esposa que Camphill é um negócio que “só vendo para acreditar”.

Portanto a maior lição de vida para mim ao trabalhar com estas pessoas é que absolutamente todos nós somos capazes e valiosos, e a junção entre estar em lugares errados e a venda de vidas artificiais que vemos na mídia e redes sociais nos levam a estados mentais de compreensões completamente equivocadas sobre a realidade da existência humana, levando-nos a conclusões mais equivocadas ainda sobre nosso valor como indivíduos.

Este mundo é muito amplo, complexo e cheio de possibilidades. Nunca lhe permita acreditar que sua existência tem menos valor que a de outros, ou que não há nada para você. Possivelmente o único problema é que você na verdade sequer se encontrou ainda, e que vem se enganando há anos, ou talvez décadas, afastando-se da sua própria realidade e, consequentemente, de onde deve estar.

sábado, 2 de dezembro de 2023

A libertadora certeza de que não sei de nada

Desde o fim do tempo de escola lembro que passei a me interessar mais por entender como o mundo funcionava. Não tanto o mundo natural, mas o social. Isto me aproximou das ideias políticas, sociais e econômicas, além da história, que diferentemente do que acontecia no período escolar, passou a me atrair de uma forma mais orgânica, de um interesse que realmente vinha do meu ser, e não de um professor ou um ambiente de sala de aula.

Neste tempo, mergulhei principalmente no que chamo de “esquerdosfera”, todo o universo de interpretação dos fatos sociais e históricos sob a ótica da esquerda política e acadêmica, que entendo como tendo sua grande base fundamentada por Marx e Rousseau. Este é o caminho natural de qualquer jovem que se interessa por entender a grande estrutura social em que vive, e é por isso que a grande maioria das pessoas que mergulham um pouco no assunto se tornam o que chamaríamos de “esquerdistas”. A interpretação do mundo pela ótica destas ideias é extremamente atraente, simples de entender e fornecedora de muitas respostas. E como queremos respostas quando estamos curiosos!

Após este período de iniciação passei a me sentir muito seguro sobre vários assuntos e estava mergulhado em idealismo. Porém não é da minha personalidade se acomodar na “segurança”. Aproveitando o primeiro ano na faculdade de economia, passei a me interessar por pensadores que atacavam frontalmente o que eu acreditava, afinal eles deveriam existir, não é mesmo? Foi então que conheci os liberais, cheios de argumentos e ideias muito interessantes que colocavam em dúvida tudo que acreditava. De repente Marx e Rousseau não eram tão grandes assim, e Adam Smith e Hobbes passavam a chamar muita atenção.

Eu poderia passar horas escrevendo sobre todo este conflito de ideias que passei a viver nesta época, mas este não é o assunto do texto. O ponto importante foi que nesta época eu me deparei com uma ideia muito marcante encontrada na mentalidade de muitos liberais, mas de um em especial, Friedrich Hayek, que não era nada mais que uma simples constatação: o conhecimento está disperso na sociedade e indivíduos sabem pouco, muito pouco.

Este pensamento foi um meteoro na minha jornada de compreensão do mundo. Colocado da forma acima, parece simples, mas na verdade ele traz uma série de reflexões sobre o mundo moderno e a “pretensão do conhecimento”, como o próprio Hayek chamava, chegando a escrever um livro intitulado “A Arrogância Fatal”, que em outras coisas descrevia como políticos e planejadores sociais tentavam solucionar os problemas humanos e sociais e quase sempre fracassavam em suas empreitadas, não apenas não solucionando os problemas, como os agravando.

E Hayek não era qualquer pensador, era um ganhador de Prêmio Nobel de Economia. Nada mais nada menos que um vencedor de Prêmio Nobel tinha como uma de suas grandes mensagens, em outras palavras, o seguinte: nós não sabemos nada! É claro que ele não queria dizer que não sabemos nada literalmente, o que ele queria dizer é que vivemos em um mundo complexo, e muitas das ideias decoradas de sofisticado racionalismo não são mais que especulações ou uma parte muito superficial do conhecimento de determinado assunto. Hayek enxergava em nosso tempo uma certa arrogância, uma tendência irresistível das pessoas em querem ser especialistas em assunto que nem os especialistas dominam completamente.

Partindo desta premissa, passei a perceber que aquela máxima popularmente conhecida fazia muito sentido: “quanto mais busco o saber, menos sei”. Ao analisar os assuntos que me dispus a me aprofundar durante toda a minha vida, percebi que quanto mais adentrava naquele campo, mais me sentia ignorante, mais me sentia inseguro sobre a verdade e a exatidão dos fatos. Neste caminho, algo solidificou ainda mais esta ideia em meu íntimo: o estudo da estatística, matéria obrigatória nos cursos de economia. Ao entender como os estudos, pesquisas e levantamento de dados são feitos, ficou ainda mais claro para mim como tudo é tão frágil, tão aberto a interpretações e manipulações, e como nossa sociedade neste século XXI se tornou um show de horrores estatísticos com pessoas de todos os tipos usando dados soltos sobre determinados assuntos para “provarem” seus pontos e posarem de detentoras do conhecimento.

Mais recentemente fiquei estarrecido com a pandemia de Covid-19 que transformou a “ciência” em uma ferramenta de embate político. Milhares de pessoas que mal sabem descrever o que é ciência e método científico, passando a dizer que “acreditam na ciência”, como se a ciência fosse uma fonte de respostas seguras e imutáveis que devem ser assimiladas e aceitas sem questionamentos. Que sacrilégio. Ora, a grande característica da investigação científica é justamente o ceticismo, a insegurança, a cautela nas observações e processamento dos dados. A ciência é tudo de incerteza e praticamente nada de segurança. Conclusões científicas seguras somente são consideradas seguras após um grande período de aceitação unânime, e ainda assim qualquer cientista minimamente honesto sabe que a mais segura das conclusões pode ser desafiada, questionada e refutada, e foi assim que a ciência se desenvolveu durante seus séculos mais nobres em nossa história. Como uma grande arena de batalha, em que visões aceitas eram refutadas e substituídas do dia para a noite. A instabilidade e a imprevisibilidade foram as bases do modelo científico moderno, e foi justamente seu caráter incerto que o tornou alvo de ataques por parte daqueles que desejavam um mundo estável baseado nos preceitos e tradições religiosas.

Então como, diante de todos esses fatos, políticos e pessoas aleatórias sem nenhuma formação científica passaram a dizer que “apoiam a ciência”? Ora, se você apoia a ciência você apoia a incerteza! E não apenas isso, em geral o que observo em nossos dias é uma pretensão do conhecimento implacável a avassaladora nos mais diferentes campos: nutrição, fármacos, atividades físicas, psicologia etc etc. As pessoas hoje em dia estão achando que encontraram as respostas para tudo e que uma está mais certa que a outra. Parece um grande hospício de senhores e senhoras certezas.

Entendam: vocês não sabem de nada! Este mundo e a maioria dos assuntos que vocês discutem é extremamente complexo, as variáveis são muitas, a previsibilidade é quase inexistente, e este é o mundo como ele é. Este lugar incerto que está mais para uma grande aventura, cheia de surpresas que moldarão seu caráter em questão de horas. Libertem-se! Libertem-se da pretensão do conhecimento! Tirem este fardo de suas costas e vivam uma vida leve! Sejam humildes! Abracem o desconhecido! Digam para si mesmos: eu sei pouco, muito pouco, e está tudo bem!

Como é libertador aceitar a imensidão de variáveis desde mundo, do ser-humano, das sociedades humanas, da biologia, da química, da história, da psicologia, da astronomia. Como é fascinante saber tão pouco e poder investigar os fatos sem querer uma resposta final para tudo. A vida é uma grande incerteza, e é nesta incerteza que nos entregamos e mergulhamos na maravilhosa obra do criador. Se ele quisesse que soubéssemos tudo, provavelmente nos faria diferentes, não tão pequenos e limitados.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O tripé da qualidade de vida

Diariamente somos bombardeados de informações sobre o que promove uma qualidade de vida real e estável, são revistas, telejornais, documentários, jornais e todos os tipos de meios de comunicação explorando o tema. Realmente este é um assunto popular e muito atual, faz parte de um movimento humano para o início de novos dias sem doenças, estresse, tristeza e por uma incansável procura de paz e bem-estar. Hoje falaremos então das três grandes bases da qualidade de vida, fortes alicerces que oferecem ao ser humano um terreno seguro para construir sua vida em tranquilidade.

A primeira base deste tripé é a alimentação. Esta base condiz diretamente com o estilo de vida que você quer levar, não só isso, como também fala muito de sua personalidade. Há até quem diga que “você é o que você come”, e isso pode ser até verdadeiro. A importância da alimentação na qualidade de vida é algo notável que pode ser percebida facilmente ao comparar uma pessoa que consome alimentos frescos e naturais, ricos em frutas, verduras, grãos etc, com uma acostumada aos tão queridos industrializados, como refrigerantes, salgadinhos, enlatados e todos aqueles com alto teor de artificialidade e química de conservação.

Na comunidade em que vivi na Escócia, praticamente 100% da alimentação era orgânica e produtos industrializados eram evitados, só tendo espaço quando realmente necessários. Era notável a saúde e a vitalidade das pessoas. Não quero responsabilizar a alimentação por isso, mas eu tenho certeza que ela é uma das principais causas desse bem-estar, logicamente, pois não é à toa que eles iriam se preocupar tanto com o que é ingerido naquele lugar, principalmente pelas pessoas com deficiência. Ser vegetariano e ter uma reeducação alimentar também é de grande ajuda neste processo de aumento da qualidade de vida.

A segunda base é atividade física, isso não precisa nem falar, pois se um dia pensarmos numa imagem da qualidade de vida, veremos alguém praticando um esporte, apesar de o assunto ser algo bem mais abrangente. Colocar o corpo para trabalhar ao limite de vez em quando faz muito bem ao sistema biológico e promove um bem-estar indescritível, além é claro da sensação psicológica de auto-estima. Os resultados adquiridos com a pratica de um esporte são reais e muito eficientes, seria até perda de tempo falar sobre isso, tendo em vista que a cultura do esporte é tão disseminada em nosso país de forma benéfica. Somos brasileiros, temos famas de bom condicionamento físico, seriamos até uma grande potência olímpica se o governo resolvesse investir nesta área, porém ainda há muito em que se investir primeiro.

E para fechar, eu não poderia esquecer da base mais importante, aquela que talvez seja a mais necessária em nosso planeta no momento, o exercício intelectual. Algo que é sempre deixado para segundo plano em meio a uma vida tão cheia de problemas, problemas que em alguns momentos poderiam ser encarados bem melhor com a ajuda de um desenvolvimento intelectual apropriado, uma leitura, um estudo, uma meditação ou qualquer coisa que exercite a mente. Aprender, tentar, reconhecer o erro, tentar de novo, é isso que move ao ser humano ao progresso, essa luta pelo avanço, pela solução dos problemas, pela absorção de conhecimento.

Mas o fator mais impressionante é que o exercício intelectual não só desenvolve a inteligência como também auxilia muito bem na saúde e na qualidade de vida, ora, não me diga que você nunca viu um daqueles velhinhos que parecem só estarem vivos porque ainda tentam usar o cerébro, por mais que estejam velhos e fracos, parece que a longevidade é um prêmio para uma vida de alta atividade mental. Sem sombra de dúvidas, ser sábio é uma ferramenta poderosa para promover a qualidade de vida, pois é esta sabedoria que auxiliará qualquer problema pessoal durante esta passagem na Terra. Por isso não se esqueça de ler, debater, conhecer coisas novas, viajar, abrir a cabeça e abraçar cada detalhe ao seu redor, pois isso lhe preencherá e lhe transformará numa pessoa rica e cheia de luz.

Portanto este é o tripé da qualidade de vida: alimentação, atividade física e exercício intelectual. Se focarmos nessas três bases e planejarmos uma vida que não esqueça de nenhuma, é garantido um sucesso e um bem-estar que não faria ninguém voltar atrás. Vale lembrar que estes três estão fortemente conectados, e que se um estiver fraco, os outros dois não terão apoio suficiente para se manter em pé, deve haver um equilíbrio e igual atenção a todos. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A Educação na Escócia.

Quase todas as semanas aqui em Corbenic um grupo de residentes (pessoas especiais) sai para nadar em uma escola na cidade de Aberfeldy, cerca de vinte minutos de carro. Da minha casa, só dois dos seis residentes gostam de nadar e se juntam ao grupo todas as sextas. Como eu gosto de nadar, todas as reuniões de co-worker peço para me colocarem no grupo, geralmente só vão dois co-workers e mais uma pessoa mais velha, geralmente algum houseparent que dirige a van, é o suficiente para cuidar de cinco a oito residentes. É muito divertido nadar com eles, acho que poderia ir umas 3 vezes por semana que nunca cansaria. Porém o que me atrai mais nesse passeio não é o trabalho em si, mas sim o lugar que vamos nadar, uma escola, uma simples escola pública que apesar de ser apenas uma escola, fala muito sobre a Escócia, o Reino Unido, e diversos países de primeiro mundo que sabem que educação deve ser sempre a prioridade.

Antes de ir pela primeira vez nesse programa, pensei: “Bom, provavelmente vamos para alguma piscina pública, num lugar fechado, vai ter várias crianças, um escorregador e muita alegria”. Porém eu estava errado, depois dos 20 minutos na van, chegamos ao “Breadalbane Community Campus”, pela aparência e pelo nome, achei logo que era uma Faculdade, mas não, era uma escola mesmo, de crianças e adolescentes. Uma fachada incrível com visão direta para uma super biblioteca rodeada por vidraças, aberta ao público, impecável. Na entrada uma recepção que dá vontade de ter um compromisso só para sentar e ficar lá esperando, portas automáticas com sensores digitais de alta segurança, camêras por toda parte, tecnologia transbordando por todos os lugares. Limpeza invejável, nenhum sinal de sujeira, objetos danificados ou vandalizados, tudo brilhando, como se tivesse alguém vigiando o dia inteiro.

Quanto mais eu andava, mais eu sentia inveja do que essas pessoas têm, armários individuais e conservados para todos os alunos, bebedouros por toda parte, torneiras com sabonete líquido convidando os estudantes a lavarem as mãos todas as horas, uniformes elegantes, de gravata, homens e mulheres, dando a impressão que são pequenos adultos, já cheios de responsabilidades para com sua família e seu país. Banheiros perfeitos, com direito até a secador de cabelo fixo para quem quiser. Refeitório, aaah o refeitório, que excelência, que higiene, mesas grandes, bancos de cores diferentes e design moderno, televisões de plasma ligadas nos noticiários por todos os cantos, funcionários da zeladoria mantendo tudo em ordem, respeitando os estudantes, de bom-humor, e também sendo bem tratados, como assim deve ser. Grande espaço externo repleto de crianças felizes, cada grupo com uma brincadeira diferente, a maioria com bolas, e cada um tem uma se quiser, não precisa ninguém ficar brigando.

Voltando ao meu trabalho, passamos da entrada da recepção e caminhamos num corredor muito bacana, tinha uma parede com rapel e várias quadras de squash, perfeitas e bem cuidadas, parei um pouco para ver o que tinha nos murais, geralmente você descobre muito sobre uma escola através de seus murais com eventos, campanhas, fotos etc. Fiquei impressionado com o quanto os escocêses estão preocupados com a consciência ecológica da população, já estava surpreso antes de conhecer a escola, depois de ver os murais só confirmei tudo que pensei. Aqui a ecologia também está na moda, graças a Deus, percebe-se a atenção que eles estão tendo com este assunto, principalmente na educação básica das crianças. São fotos de atividades de preservação da natureza, instruções ecologicamente corretas, lembretes, informações essenciais, tudo lembrando o aluno da importância deste assunto, como se tudo girasse ao redor da “preservação da natureza”.

Depois de passar pelo corredor, entramos no vestiário, nem preciso dizer que também é impecável, trocamos de roupa e fomos para a piscina, quando eu cheguei na borda e vi aquilo, não me controlei, a inveja foi grande, pois gosto de nadar, e daria tudo por uma piscina daquela, por um lugar tranquilo para nadar como aquele. Fiquei imaginando se eu tivesse estudado numa escola como essa, acho que com certeza investiria na carreira da natação, pois só não fiz isso porque o sofrimento é grande para esse objetivo em Fortaleza, a única piscina olímpica que conheço é a do Náutico e sempre tá lotada, meio suja e você tem que dividir a raia com duas ou três pessoas. Quando entrei na piscina nem consegui cuidar direito dos meus residentes, minha cabeça começou a esquentar de tantas reflexões frente àquela situação. Pensei nas escolas que estudei, na escola que meu filho vai estudar, no que meu país oferece e porque oferece desse jeito, senti raiva dos políticos e da educação gananciosa e capitalista que só pensa no vestibular.

Aquele momento na piscina me fez pensar em muita coisa, principalmente na importância que eles dão à educação, muito além que eu imaginava, é algo que fica na cara que é a prioridade do estado, fica na cara que está sendo investido uma boa parcela do PIB ali. O país investe pesado, eles sabem que tudo vai funcionar com base na educação de seu povo, por isso não deixa faltar nada para que suas crianças cresçam com todo o amparo necessário para desenvolverem todo seu potencial. Em nosso país, quantos garotos deixam de seguir um sonho porque não tem a mínima condição, às vezes eles só precisam de uma chuteira nova para tentar jogar futebol, talvez a chuteira seja 30 reais, mas eles não têm dinheiro, enquando isso em Brasília tem um político safado pagando 100 reais num whisky, 100 reais que o pai do garoto gastou em impostos para ter educação de qualidade, para ter uma escola capaz de apoiá-lo em todos os seus sonhos.

Semana passada comentei durante o jantar com minha housemother, estamos falando das situações sociais do Brasil e da Europa, logo entramos no assunto educação, algo que é inevitável não deixar de falar, ela disse que algumas escolas na Escócia não são boas e não colocaria os filhos dela, logo pensei comigo mesmo: “Nossa, essa pessoa não tem noção do que é uma escola ruim, vou levá-la para um passeio no interior do Norte e Nordeste do Brasil”. Mas é claro que não falei disso, só comentei sobre a escola de Aberfeldy e disse que gostei muito do que vi. Outro dia eu estava lendo o jornal, uma reportagem sobre educação, li que mais de 86% dos pais escocêses estão satisfeitos com a educação que seus filhos recebem na escola, 86%! Que inveja, eu gostaria de um dia falar: “Eu estou muito satisfeito com a escola do meu filho”, ela sendo pública é claro. Fiquei imaginando nesse futuro, perguntei-me se quando eu tiver filhos, alguém no Brasil vai ter vergonha na cara e vai mandar construir uma escola pública de primeiro mundo. Talvez quando Cristovam Buarque virar presidente.

Cada dia essa tal de corrupção me dá mais tristeza. Maldita geração de velhotes desumanos, espero que todos desencarnem logo para prestar contas frente à justiça divina, precisam pagar pela má administração de seus poderes. É isso ai, aqui na Escócia existe uma cidadezinha chamada Aberfeldy, muito simpática por sinal, as casas são demais, na verdade a maioria das casas no Reino Unido são demais, e nessa cidade existe uma escola que vou lembrar por muito tempo, inclusive esta semana vou lá de novo, ah, esqueci de falar, a escola não tem NENHUMA grade, NENHUMA! Ouviram arquitetos de escolas do Brasil?! Pensem nisso na próxima vez que forem projetar uma escola para humanos ao invés de animais. Vamos lá, vamos estudar para um dia mudar nosso país para melhor. Saudações!















terça-feira, 31 de agosto de 2010

Brasil e educação


Estamos nos aproximando de mais um período de eleições em nosso país, de norte a sul os eleitores escolhem seus candidatos em função de seus históricos e propostas, bom, isso é o que se espera. Dentre as propostas oferecidas pelos nossos honestos políticos, estão projetos para melhorar os principais alicerces responsáveis pela manutenção da sociedade, são eles, segurança, saúde, emprego, moradia, infra-estrutura, educação, etc.

Segurança é bom e nós precisamos, emprego também, o cidadão precisa se sustentar, moradia e saúde então, nem se fala, e o que dizer da infra-estrutura, essa é essencial para o progresso. Opa, sentiu falta de alguma coisa? Eu senti, eu sinto, eu estou sentindo há muito tempo, onde está a educação? Por que nós vemos tão poucos projetos para a educação brasileira? Ah, besteira, o importante é o emprego, o bolsa família, o bolsa casa, o bolsa lanche, o bolsa forró, o bolsa cachaça, o bolsa arma de fogo. Ah! Quase esqueci, tem o bolsa escola, olha só, e eu reclamando de barriga cheia. Me engana que eu gosto Presidente.

Vivemos em um país em que as pessoas não se respeitam, matam, roubam, trapaceiam, poluem e não seguem as leis. Mesmo assim ele cresce, o que é normal para um país democrático, estável e de dimensões continentais, mas poderia ser melhor. Como poderia ser melhor? Com educação, claro! A educação é a base, é ela que permite o Brasil crescer de forma saudável, de forma com que não regrida e ocupe sempre um lugar de destaque no cenário internacional. Você já viu o que acontece com a maioria dos ganhadores da Mega-sena? Eles ficam milionários da noite para o dia e depois de um bom período de atividades perdulárias estão sem nada, apenas com a história para contar. Quem sabe se eles tivessem alguma educação financeira, alguma noção de investimentos ativos ou qualquer base de instrução econômica que possibilitasse a boa utilização do dinheiro, talvez a história fosse diferente.

Vejo as pessoas exigindo segurança, saúde, moradia e infra-estrutura. Bom amigos, se o país investisse maciçamente em segurança, convocando milhares de policiais e comprando mais milhares de viaturas, nós só iriamos presenciar uma grande guerra, mortes, sangue, órfãos, viúvas, medo e terror. Se fossem construídos grandes hospitais e comprados toneladas e toneladas de medicamentos, teríamos uma população acostumada a ir ao médico a cada espirro e a se entupir de remédios a cada dorzinha de cabeça (não estou desconsiderando a importância dos hospitais e dos medicamentos). Se o governo oferecesse casas para a população, rapidamente 50% delas estariam alugadas (o que acontece), 25% seriam transformadas em bares, boates e outros estabelecimentos do gênero e o resto seria utilizada de maneira inadequada, sim, existem pessoas que não sabem usar uma casa. 

Se fosse investido mais alguns milhões em infra-estrutura, o viaduto novo seria pichado e habitado por sem-tetos, o canal novo seria presenteado diariamente por sacos e mais sacos de lixo provenientes das residências da região, a praça seria utilizada como ponto de venda de drogas, enfim. Nossas cidades crescem desordenadamente, são casas e mais casas improvisadas se aglomerando bem ao estilo Roma Antiga. Sem problemas! O governo vai construir milhares de residências, bem estruturadas e principalmente com um bom espaçamento entre elas, um espaço para jardim na frente e piscina atrás, como aquelas que vemos nos filmes estado-unidenses. Vamos fazer uma experiência, neste momento todos os brasileiros que necessitam de moradia melhor se desligaram, desmaiaram e essas adoráveis casas apareceram sob seus domínios com a seguinte mensagem na parede: "Olá companheiro, estou lhe presenteando com esta adorável casa, abaixo ofereço um mapa para conhece-la sem transtornos.". Finalmente! O seu Zezinho ganhou a casa que sonhava! Bom, já se passaram dois dias, tempo suficiente para se acomodar, então vamos entrevistá-lo:

- Iaí seu Zezinho, muito feliz?

- Nossa, feliz demais!

- Então vai ficar aqui mesmo?

- Isso lá é pergunta rapaz!

- Bom seu Zezinho, eu vi que você fez uma festinha de comemoração ali fora não foi?

- Ah sim, foi, sábado eu chamei a moçada pra comemorar ali fora, coloquei umas "mesinha", fiz um churrasco e o samba foi até a voz faltar.

- E você não vai dá uma organizada lá?

- Ah, depois eu mando os "menino" tirar as "mesa" e passo uma vassoura.

- Tem muito lixo ali, você não se incomoda?

- Que isso rapaz, com uma casa dessa aqui pode vir até minha sogra morar comigo que eu não me incomodo.

- Tá certo, mas você sabia que a sua casa foi privilegiada e ganhou cestos de lixo para coleta seletiva bem ali na calçada, você vai separar o lixo?

- Separar? Ah sim! Os "osso" a gente joga pros "cachorro" e quando é resto de comida a gente bota num saquinho diferente pra não misturar né...

- Hum, tá certo...E o belo gramado, por que já está tão desgastado?

- Aaah, isso ai é que eu resolvi abrir uma escolinha de futebol pros "menino" da vizinhança, começou ontem, cada um paga 10 "contim", já tem 12 jogando, o meu tá fazendo tanto gol que eu tô pensando em levar ele lá no Ferroviário.

- Ok Seu Zezinho, agora nós vamos ali entrevistar o Seu Guga da rua do lado.

- Seu Guga? Eita rapaz, cuidado, ele num é muito normal não...

- Pode deixar, tô acostumado...

Bom, já deu para notar que por mais que o Brasil invista no que a população acha que precisa, o resultado não seria satisfatório.

Agora vamos fazer mais uma experiência, para tudo! Para o tempo! Parou? Beleza, agora eu quero escolas de primeiro mundo, equipamentos de ponta, tecnologia, bons professores bem remunerados, bibliotecas, arte, muita arte! Música! Filosofia! Eventos culturais, cinema para todos, incentivo a leitura e muito mais! Pronto, pode apertar o "play". Vamos deixar o Brasil "brincando" de aprender durante 10 anos.

10 anos se passaram, olha só, o que houve com a criminalidade? Simples, agora os jovens aprendem uma profissão, são estimulados a sonhar, são ocupados integralmente com atividades educativas, a maioria não sabe o que é uma arma e só viu uma pedra de crack nos livros, e segundo o que leram, nem é preciso conhecê-la pessoalmente, tocar violão é mais interessante, fazer cálculos matemáticos, assistir um bom filme na videoteca da escola, o mundo é grande.

E a saúde? Que esquisito, porque tão poucos pacientes? Simples, a população está se cuidando, sabe se alimentar, pratica esportes, respeita o próprio corpo, evita tomar remédios, enfim.

E as casas que o governo construiu? Por que estão sendo tão bem utilizadas? Simples, a população conhece outras formas de ganhar dinheiro sem alugar suas casas, conhece a regulamentação para se abrir um negócio na própria residência e sabem como ninguém como desfrutar e preservar o lugar onde moram.

E a infra-estrutura? Como está bem planejada e conservada! Simples, temos grandes engenheiros que trabalham arduamente pela excelência de cada obra e o povo preserva e respeita os bens públicos, isso porque eles sabem que o dinheiro investido nas obras sai do bolso deles.

E que manifestação é essa na avenida? Não estava tudo bem? Ah, isso é porque estão desconfiando de um Deputado que usou dinheiro público para pagar um jantar com a mulher, o povo não deixa passar nada!

Concluímos que a educação requer um tempo, talvez um longo prazo, mas quando estabelecida, é notável o seu impacto na sociedade, criando indivíduos virtuosos, justos, honestos, de bom caráter. E desta maneira a base é construída para o progresso, o progresso regular, igualitário, racional. Será que não valeria a pena investir neste bem essencial?

A educação brasileira está falida, tanto em sua estrutura física, quanto em sua estrutura aplicativa. Alguns podem defender a qualidade do ensino particular, pois tenho dito, os pais que possuem condições financeiras, pagam uma quantia exorbitante para verem seus filhos acordarem cedo já desistindo do dia, desestimulados, carregando quilos de livros, chegando a uma sala de aula onde passam 3 longas horas sendo metralhados de informações que não oferecem a mínima noção aplicativa para os pobres adolescentes se interessarem um pouco, depois eles saem para o intervalo e passam 30 minutos ouvindo músicas de baixa qualidade em seus "iPods", dormindo ou conversando com o colega sobre a vida de terceiros localizados no outro lado da escola (como se estivessem encarcerados em uma cela social), retornam à sala de aula e ficam mais 2 horas sendo bombardeados, ali presos, numa cadeira, pequena, junto com seu caderno e sua caneta, até a grande hora do alívio, quando eles vão para casa e passam a tarde dormindo, fazem os exercícios de Física porque são obrigados e procuram distrações na TV ou no computador até altas horas da noite, repetindo-se o ciclo. Ah, nos finais de semana eles saem, bebem, buscam algumas horas de felicidade ilusória e carregam seus acervo de histórias para contar para os colegas nos intervalos das aulas da semana que se aproxima.

Os estudantes não criam, não questionam, não sabem o que faz um vereador, não pensam nos outros, querem se individualizar com fama ou dinheiro, são seres passivos na sociedade, sem brilho, sem personalidade, amedrontados, a única coisa que é cobrada deles é um boletim verde no final do bimestre e um bom resultado no vestibular, ah o vestibular, uma das maiores competições de memorização do mundo, ganha quem viver e aprender menos e memorizar mais, e depois que acabar a prova, pode esquecer tudo. Espero que o novo ENEM seja uma sementinha de mudança.

A educação é o remédio, como diz o Senador Cristovam Buarque: "O problema do Brasil é cultural.". Pena que educação não ganha voto e Buarque foi derrotado nas eleições presidenciais de 2002. Um homem não cresce sem conhecimento, um país não cresce sem educação. Desistam desta grande bolha econômica, do que adianta um país rico onde continuaremos vendo lixo no chão, brigas de trânsito, patrimônio público mal-tratado, pessoas desonestas, entre outros comportamentos desta sociedade sub-desenvolvida, os quais estamos "acostumados".

Abraços!