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quarta-feira, 31 de maio de 2023

O que mais valorizo em países livres

Vez ou outra me pego pensando sobre o que mais me causa desconforto no Brasil. Por algum tempo, talvez por apreciar o estudo da economia, tendi a acreditar que os assuntos econômicos me pareciam mais relevantes. Porém os anos foram passando, minhas visões foram amadurecendo e comecei a enxergar uma importância cada vez mais maior em algo que é muito falado, mas talvez não seja tão compreendido e bem dimensionado: a falta de segurança.

Falando assim o leitor pode estar se preparando para mais um daqueles desabafos clichês de alguém que tem medo de ser assaltado ou que fica revoltado com o noticiário constante de crimes bárbaros que quase nunca são solucionados. Mas não, ao meu ver a falta de segurança no Brasil é algo que há muito tempo passou dessa preocupação corriqueira de sofrer um assalto, tendo já ganhado proporções que alteraram com certa profundidade o psicológico coletivo e como a sociedade brasileira se organiza cultural e estruturalmente.

Ao tocar no assunto, alguém já pode se antecipar e dizer: “mas o Brasil sempre foi assim!”. E eu respondo: não, o Brasil nunca foi um país muito ordeiro, mas também nunca chegou a ser o caos e a completa hegemonia do crime como vemos hoje. Basta olhar os números para observar o aumento de crimes violentos nos últimos 50 anos, em especial a partir dos anos 90, com o aprofundamento das políticas socialdemocratas. E se você não gostar muito de números, basta conversar com alguém que viveu da década de 90 para trás. Naquele tempo já havia coisas como assaltos, roubos, insegurança etc, mas nada comparado ao cenário atual. As grandes cidades brasileiras eram muito mais tranquilas, e os interiores mais ainda, completa paz e estabilidade com crimes pontuais que vez ou outra chocavam a população.

Eu nasci no início da década de 90 e, portanto, pude testemunhar o avassalador colapso de nossa liberdade à medida em que o tempo foi passando. De lá para cá, saímos de uma realidade em que praticamente não tínhamos preocupações com o crime, usufruindo de uma paz em ir e vir e desfrutar de lugares públicos, a um contexto radicalmente diferente, em que gastamos considerável parte de nossas rendas para pagar vigilância humana, câmeras, cercas elétricas, alarmes, controles de acesso cada vez mais sofisticados, carros blindados (quem pode), assim como fomos adquirindo todo um padrão de comportamento para nos protegermos de sermos alvos.

A ascensão meteórica do crime na sociedade brasileira mudou nosso comportamento e até a estrutura de nossas cidades, áreas públicas se tornaram subutilizadas e shoppings fechados ganharam um forte impulso, passando a ser pontos de encontro e sociabilidade da população. O brasileiro não para o carro na rua sem olhar desconfiado em todas as direções, não para em um sinal de trânsito sem olhar no retrovisor se há alguma moto se aproximando, não pega um ônibus sem analisar as pessoas ao redor e tentar identificar possíveis ameaças, não deixa um pertence na areia da praia enquanto toma um rápido banho de mar, não deixa que um familiar ande a pé por ser uma área perigosa etc.

Quando um estrangeiro chega aqui, fica impressionado com o tanto de orientações alarmistas que os brasileiros fazem, achando que todo esse medo é exagero. E com frequência pode ser mesmo, mas carrega um fundo de verdade: o brasileiro vive apavorado, e quando alguém acostumado a ser livre chega no país, os residentes tentam passar a ele ou ela todas as restrições de liberdade que deve ter ciência para que se proteja.

Isso tudo já se tornou repetitivo pois já faz mais de 10 anos que se tornou uma realidade a ser aceita e até não questionada, em razão do “espírito da época”, que passou a tratar o crime como um “probleminha de comportamento” que deve ser “administrado” de forma branda e “humanista”. Cenário em que criminosos são tratados como vítimas e vítimas que se revoltam são tratadas como criminosos, uma realidade angustiante para quem busca uma justiça objetiva e comum, dentro da lógica tradicional de que quem prejudica o outro deve ser punido, sistema óbvio que funcionou relativamente bem em todas as civilizações minimamente estáveis.

O fato de o assunto ter se tornado repetitivo e muitos terem até deixado de reclamar é o que me causa mais perplexidade. O brasileiro, como que em um experimento social de adaptação de longo prazo, acostumou-se a ser confinado, aceitou sua tragédia e desistiu de lutar. É como se um homem livre tivesse se tornado escravo e por muitos anos tivesse tentado se rebelar, mas ao ver que nada acontecia, cansou, e aceitou sua triste realidade. Hoje uma pessoa de classe média comum vive em um condomínio de segurança máxima, pega seu carro, e vai de um ponto ao outro sem se expor, pulando de “ilha” em “ilha” para tocar sua vida como se tudo fosse normal, com frequência acreditando que esta é uma vida livre e ordinária de qualquer pessoa que vive em uma sociedade funcional. Se durante esta rotina ela ver alguém sendo assaltado na rua, trata-se de um evento corriqueiro, nada a se preocupar, nem a polícia é mais acionada. É assustador.

Mas o assustador mesmo é que isso não é assustador para grande parte dos brasileiros, pois os mesmos sequer sabem que existe algo diferente. Eu, como muitos que moraram em países ordeiros no exterior, ficamos perplexos com a aceitação geral da população, com a quase total entrega das liberdades a grupos criminosos e até grupos políticos que não confrontam o problema. Por isso é tão difícil a readaptação no Brasil após uma temporada fora. Quando você passa um tempo considerável em um país livre, o retorno ao “confinamento” é avassalador. É claro que isso também varia de pessoa para pessoa, e aqui chegamos ao motivo de eu falar sobre isso, pois este é um relato pessoal, e eu sou um desses que se sente muito mal com esta realidade.

Passados alguns anos de reflexão, entendi que o bem que mais vale para mim é a liberdade de ir e vir, de usufruir o mundo sem estar sempre se sentindo ameaçado, como se estivesse sempre fugindo em um estado de alerta que muito se assemelha a realidades de conflitos bélicos. Hoje em dia viver em uma capital brasileira exige um nível de alerta e mobilização preventiva maior que a de um homem medieval vivendo em um vilarejo pacato e isolado composto por algumas dezenas de pessoas. Lembro-me que os momentos mais felizes da minha vida foram em ocasiões em que pude desfrutar de grande liberdade e segurança em experiências em lugares públicos que tive no exterior: passeios de bicicleta e caminhadas no meio da estrada, acampamentos, voltar de um jantar no meio da noite pelas ruas de uma cidade etc. Coisas que parecem banais, mas têm um valor inestimável.

Imagine que existisse uma empresa brasileira que nos vendesse a mesma sensação de segurança e liberdade que temos em países ordeiros no exterior, como se fosse uma mágica. Você pagaria mensalmente um valor para ter a sensação de um europeu, um americano ou um canadense. Quanto isso custaria? Já passou para pensar? É difícil até de precificar tal serviço, pois reflete um valor imenso e abstrato. Mas tenho certeza que quem pudesse, estaria disposto a arcar com tal despesa, viabilizando uma experiência existencial muito mais rica e estimulante.

Após muito refletir, entendi que o que me fascina no estrangeiro não é tanto a possibilidade de conquistas econômicas, mas sim a liberdade que o cidadão comum perdeu no Brasil. Para quem já experimentou a liberdade, viver em confinamento é uma angústia que até acabamos aceitando, mas nunca realmente superamos. Isto também me traz outras conclusões, de que talvez não queiramos tantas coisas assim, de que não sejamos tão exigentes. Se tivéssemos um país minimamente funcional, com uma justiça previsível e confiável e o cenário da criminalidade controlado, imagino que muitos brasileiros que hoje vivem no exterior cogitariam retornar. Porém a realidade é dura, pois não há previsão para que o Brasil saia desta, devendo o estado de confinamento se prolongar por décadas.

Lembro-me daquela clássica lição de ciência política: para se construir algo bom (como a liberdade) precisamos de décadas ou séculos, mas para se destruir, bastam alguns anos. Não subestimem a possibilidade de a situação piorar ainda mais, como por exemplo com a restrição da liberdade de expressão. Isto pode acontecer de repente, e se consolidar com poucos meses. Sendo que esta é apenas uma das frontes de liberdades civis que o brasileiro pode perder, havendo algumas poucas outras que ainda se sustentam.

Adendo: esta é a realidade de um homem de classe média em uma capital do Nordeste, a situação pode variar muito a depender do gênero, posição geográfica e situação econômica de cada indivíduo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A vida após Camphill

Despedida da Padaria.
Hoje resolvi dar uma olhada no blog e nas postagens antigas para lembrar um pouco do ano passado (e retrasado) para ver o que eu podia tirar de bom para me inspirar neste momento da vida, sem dúvida um novo momento, após tanta coisa atípica que vivi no último um ano e meio. Estou no Brasil desde Julho do ano passado, mas sinto como se tivesse chegado só agora em Janeiro, pois quando cheguei  de verdade a vida ainda estava muito longe de voltar ao normal.

O Camphill foi uma experiência fantástica que me enriqueceu muito como ser humano, posso notar isso em todos os aspectos, porém essa viagem não me mostrou uma das principais coisas que eu esperei que mostrasse: o que diabos eu ia fazer na minha vida (em termos de estudo) e onde eu iria fazer isso, as opções eram muitas e as vontades também. Cheguei decidido a tentar estudar na Europa, principalmente porque a namorada não ia gostar da ideia de um relacionamento a distância. Preparei tudo, busquei informações, preparei documentação, porém cada vez mais a dificuldade burocrática me distanciava, além do lado financeiro que não iria ser fácil, a verdade é que estudar na Europa regularmente como membro da classe média brasileira é uma possibilidade para poucos.


Acabou que desisti da Europa e tive que entrar num acordo com a namorada para que meus estudos aqui não durassem muito tempo e me abrissem portas para uma atuação profissional na Alemanha ou Áustria (ela é alemã mas mora na Áustria), e de repente surgiu um velho curso que sempre simpatizei na Universidade de Fortaleza, Comércio Exterior, que sempre havia evitado devido ao meu enferrujamento na matemática. Nada poderia cair melhor, um curso eclético, com oportunidades no mercado e principalmente internacional, o que abre muitas portas para intercâmbios acadêmicos e pontes para interação com outras países.  A Unifor mantém uma parceria com uma faculdade da Alemanha que garante aos alunos intercâmbistas um diploma duplo (brasileiro e europeu), o que cai perfeitamente para mim e pode me capacitar mais rapidamente a entrar no mercado de trabalho lá, inclusive conheço pessoas que estão lá hoje por este meio. Além do mais o curso também me parece bastante interessante e acredito que vou gostar.

No último semestre, também ao chegar, fiquei sabendo que uma escola de línguas estava selecionando novos professores, o que me fez aceitar um novo desafio logo ao chegar, sem intervalo para adaptação nem nada, isso iria pesar depois de alguns meses. Tenho que dizer que a readaptação após um intercâmbio desse é um pouco complicada, um dia eu estava numa comunidade rural para deficientes mentais na Escócia e no outro dia estava numa cidade brasileira tostando de calor e vivendo num sistema totalmente diferente, com pessoas diferentes, regras diferentes, sentia-me definitivamente como um peixe fora d’água entrando numa seleção de professores. Sabe quando você está totalmente por fora da vida e não sabe nem falar direito? Pois é, eu estava em outro mundo, tenho certeza que as pessoas me achavam estranho naqueles primeiros meses, mas fui levando e a readaptação foi vindo, apesar de muito conturbada por causa da decisão do que eu iria fazer e quais decisões eu iria tomar numa vida bagunçada no Brasil e uma namorada na Europa.

Despedida no Boliche.
No final das contas eu passei e me tornei professor nessa escola, outra experiência bastante interessante, ensinar para adultos e adolescentes na mesma escola que eu frequentava quando estava aprendendo inglês. No começo foi um pouco difícil, mas depois de pegar o jeito é que você percebe que ser professor é uma profissão fantástica e muito gratificante. Porém tive que abandonar o trabalho em setembro por vários motivos, primeiro porque eu senti a falta de um intervalo entre o Camphill e a vida aqui, eu estava precisando urgentemente de férias para processar o que aconteceu e simplesmente descansar, o que eu não conseguia fazer muito na Escócia e estava contando os dias para fazer no Brasil, segundo porque eu estava considerando estudar no exterior e toda aquela burocracia estava me enchendo a cabeça e não me deixava em paz para preparar boas aulas na escola, além de que eu tinha que estudar mais inglês para ter uma boa nota no IELTS, acabei que nem fiz, mas fiz o TOEIC por iniciativa da escola em que trabalhava e fui muito bem (IELTS é o teste de inglês acadêmico britânico e TOEIC é um teste de inglês profissional mais utilizado por empresas), e terceiro minha namorada estava para chegar no fim de setembro para passar 3 meses no Brasil, assim finalmente eu teria minhas férias e poderia decidir tudo o que iria fazer, para alguns isso pode parecer um semestre perdido, mas acredite em mim, foi muito necessário.

Minha namorada chegou e aqui ficou por três meses, durante esse tempo eu a ensinava português e ela me ensinava alemão, é claro que ela aprendeu português muito mais rápido por estar num país de língua portuguesa, inclusive quando retornou a Alemanha havia uma brasileira de Minas no Aeroporto na hora do desembarque perdida e procurando ajuda, e adivinha quem a ajudou? Theresa (namorada), a nova alemã falante de português, depois disso ela veio toda orgulhosa me contar, e o pior é que foi verdade, essa brasileira só desgrudou dela quando encontrou a filha no lado de fora do Aeroporto. Eu acho que a melhor parte de aprender uma língua estrangeira é ajudar os outros que passam por problemas de comunicação, desde que voltei ao Brasil já ajudei muitos comerciantes a vender artesanato para estrangeiros, que gratificante! Além daquelas situações que o cara tá perdido, precisando de informação e você aparece para salvá-lo, é muito bacana!

Neste tempo em que Theresa esteve aqui eu entrei neste acordo de que iria estudar aqui e trabalhar para juntar dinheiro para visitá-la em todas as férias (Julho, Dezembro, Janeiro), além de continuar estudando alemão e tentar manter um bom nível acadêmico para conseguir o intercâmbio para a faculdade da Alemanha que falei (Deggendorf). O fato é que 2013 marca o meu reinício, nova faculdade, trabalho (quero voltar a dar aula), novos planos, tudo novo! Sinto como se a vida estivesse começando agora, o que passou foi só ensaio. E aqui finalmente fecho o bloco Camphill e Escócia do Blog, apesar de saber que não consegui postar muito mais durante o ano passado, uma experiência marcante que claramente mudou o curso da minha vida como humano, estudante, profissional, cidadão e membro de família. Bom início de ano para todos também!

Despedindo-nos do velho e querido quarto, tudo arrumado para os novos voluntários.

De volta ao Brasil viajando pelas praias do Ceará.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Vida em comunidade

Padaria da comunidade, produção diária 100% orgânica.
Antes de falar sobre vida em comunidade, gostaria de falar sobre a vida usual que eu tinha (e teoricamente ainda tenho) no Brasil. Morava com minha família num bom apartamento no bairro do Meireles em Fortaleza, eu, meus pais e minha irmã que há alguns anos também deixou o Brasil, deixando nosso lar mais vazio. Morando num centro urbano, nunca falta nada, a vida é relativamente boa e nos dá até a impressão de que somos felizes. Vivemos rodeados de pessoas, de informação, de movimentação, sentimo-nos como altamente civilizados e envolvidos no mundo e na sociedade.

Porém algo sempre me incomodou neste estilo de vida, pois sempre senti um vazio e um deslocamento, como se ali não fosse o meu lugar, algo que sempre me inspirou a viajar e conhecer as opções que eu poderia ter para minha vida mundo a fora. Em meu lar, apesar de viver em harmonia com minha família, algo estava faltando, havia algo preso naquele cotidiano, sentia-me confuso, procurando descobrir porque todos se adaptavam tão bem às suas respectivas vidas e eu nunca conseguia me sentir estável.

Foi então que decidi experimentar a vida em comunidade, morando na Escócia, numa comunidade para deficientes mentais. Um lugar adorável entre as montanhas, adormecido num majestoso vale, banhado por um rio de águas geladas que penetram em meu quarto com o pacífico barulho da corrente incessante. Aqui a natureza é tão imponente, que este jovem da cidade não consegue nem lembrar com precisão a paisagem urbana. Aqui a vida é tão bonita e radiante que a palavra estresse continua sem sentido mesmo com qualquer professor Phd tentando explicar seu significado.

Trabalho em Madeira, workshop terapêutico.
Corbenic, onde moro, é uma comunidade dividida em 5 casas, Lochran, Mullach, Lindisfarne (minha casa), Cottage e Turach. Cada uma possui cerca de 8 a 10 pessoas, incluindo residentes e voluntários não-fixos (eu sou um deles). Minha casa possui 6 residentes (deficientes mentais) e 4 voluntários, além de coordenadores e outros empregados que não moram na casa fixamente. Imagine você, em pleno ano 2012, morando numa casa de 10 pessoas, talvez os seus avós saberão como é isso, já que na geração deles, isso seria mais normal.

Tente imaginar esta situação, eu suponho que mesmo com muita força de vontade, você não consiga ter ideia de como rica e movimentada seria a sua vida, principalmente porque grande parte da casa seria dependente a você, como você foi um dia das pessoas que te criaram desde a infância. Morar em comunidade é simplesmente preenchedor, e depois desta experiência você se pergunta como os seres humanos estão conseguindo viver cada dia mais isolados um do outro, se isolando na sociedade e até entre suas próprias famílias, trancando suas portas para seus semelhantes, sem muito amor restante, sobrevivendo sem brilho e sem respostas.

A cada dia que passa neste lugar, onde cerca de 60 pessoas vivem e outras dezenas circulam voluntario ou profissionalmente, eu concluo mais sobre a reflexão a respeito da natureza humana, do estilo de vida que deviamos seguir, enxergo que este período que vivemos, onde as famílias se isolam com medo uma das outras, é só uma pequena fase de rebeldia da humanidade, que logo logo reconhecerá sua real origem e se juntará como uma grande rede de paz, amor e fraternidade, onde o espírito comuntário reinará, e a felicidade se espalhará no coração de cada ser deste planeta.

Viver em comunidade é utópico e prazeroso, é criar laços fraternais, é assumir uma identidade real, é crescer incessantemente e reconhecer que não somos nada sozinhos. Somos como as células deste planeta, e só entraremos em harmonia quando trabalharmos juntos para a manutenção de todo o corpo. Uma grande lição levarei deste lugar e gostaria de mostrar para toda a humanidade, não somos nada sozinhos, absolutamente nada, se não abrimos nossos corações para nossos semelhantes, seremos apenas rebeldes nadando contra a corrente do progresso.

Reflita sobre o que o sistema está fazendo conosco, destruindo nossos laços e impondo uma ideologia de individualismo e competição, premiando aqueles que rebaixam os outros, mantendo hierarquias tiranas, maltratando a dignidade humana com a obsessão doentia pelo lucro, é este o mundo que queremos viver? Existem possibilidades muito mais compatíveis com nosso nível de evolução, não fechemos os olhos para o que acontece neste exato momento no planeta Terra, lutemos por uma nova era de união e progresso.

Voluntários de várias partes do mundo, Yuko (Japão) e Theresa (Áustria).


Separação do lixo para reciclagem, colaboração coletiva.
Cottage, uma das casas de Corbenic.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Aberdeen, a capital dos Camphills

Entrada do Cemitério na Avenida Principal.
Aberdeen é uma cidade localizada no nordeste da Escócia, a terceira mais populosa do país, dona de uma praia bacana e congelante a maior parte do ano, um grande porto e uma movimentada universidade (University of Aberdeen). Além disso é possível batizá-la de sede dos Camphills, pois foi lá onde o movimento começou e se espalhou por todo mundo, vários deles estão lá, inclusive o primeiro Camphill que apliquei antes de Corbenic foi Simeon, um lugar que abriga idosos, não fui aceito pois no mesmo ano eles aumentaram a idade mínima dos Co-workers para 21 anos, o que foi muito bom, pois Corbenic é um lugar fantástico e acho que está enriquecendo bastante minha vida.


139 km separam Perth de Aberdeen.
Para chegar em Aberdeen saímos de Corbenic de manhã em direção à rodoviária de Perth, é o ponto de partida de qualquer viagem de ônibus. O time da vez era eu, Zé (brasileiro), Julia, Lilith e Theresa, todas alemãs. De Perth até Aberdeen são aproximadamente duas horas de estrada, com uma parada em Dundee totalmente fora de mão, mas até que passou rápido com a ajuda de uma musiquinha no iPod. Viajar aqui é bem tranquilo, trem ou ônibus, raramente você vai ter algum momento de tensão, eu pelo menos nunca tive, principalmente em trem, é tão tranquilo e suave que você nem sente a viagem toda, chega sempre rápido.

Chegamos em Aberdeen perto da hora do almoço, a rodoviária da cidade é sensacional, porque não é só rodoviária, é também estação de trem e um mega shopping center bem no coração da cidade. Acho isso fantástico, a maioria das estações da Escócia, principalmente de trem, são bem no centro das cidades, ou seja, quando você chega não precisa ir atrás de táxi ou ônibus desesperado, você apenas sai da estação e já está na rua ou na praça principal, vendo um monte de pontos turísticos de uma vez só.


Union Square, nosso local de desembarque.
Uma estação de trem e ônibus que ao mesmo tempo é shopping center pode ser uma grande vantagem, mas não quando você está viajando com três mulheres, definitivamente, eu e Zé ficamos esperando um pouco mais que uma horinha até as três terminarem de explorar cada detalhe da mega loja de roupa que não lembro o nome. Além disso sempre rola aquele momento de crítico de moda onde a sua namorada fica perguntando qual peça é melhor e você sempre diz: “Esse é perfeito”, “Esse é ótimo”, “Nossa, você tá maravilhosa, paga e vamos embora”.

Fim de compras e reunião para saber qual seria a próxima parada, a decisão foi ficar no shopping pois todos estavam com fome e queriam almoçar. Os restaurantes do shopping estavam lotados e todos tinham fila de espera de pelo menos vinte minutos. Reservamos os lugares em um e lá estava eu de novo seguindo mulher fazendo compra, ô benção. Depois dos 20 minutos na farmácia, voltamos para o restaurante escolhido pelo público por conter algumas promoções enganadoras na fachada, quando na realidade a comida era cara e vinha tão pouco no prato que sai de lá mais triste que argentino depois de jogo contra o Brasil.

Avenida Principal da Cidade.
Dica de hoje: Quando você estiver no exterior e tiver em dúvida de que lugar comer, nem sempre arriscar é a coisa certa, você pode gastar muito e comer pouco. Corra para a pizzaria mais próxima! Sempre funciona. Mas não nego que quando você arrisca também há chances de comer um prato novo e delicioso por um ótimo preço, por isso informação é sempre fundamental antes de uma viagem.

Comemos e eu gastei 11 pounds num prato mixuruca de macarrão com um suquinho de maça que tava mais pra água que para suco. Depois da decepção, finalmente saímos do infernal shopping center, desculpa quem gosta, mas shopping para mim é entrar, comprar e ir embora o mais rápido possível. Pegamos a avenida principal da cidade e começamos a caminhar, senti algo estranho com tanta gente num mesmo lugar, viver muito tempo na roça faz com que a cidade te deixe um pouco ébrio de informação, agora eu entendo porque o caipira quer sair correndo de volta pro interior quando chega na cidade, deve ser meio assustador mesmo.

The West Tower.
O visual de Aberdeen é bem mesclado entre velhas e novas arquiteturas, algo que chama atenção é a tonalidade de cor da cidade, muito mais clara que o normal entre os outros centros urbanos da Escócia. Creio que é algo que eles estão tentando fazer, pois percebi alguns prédios restaurados com cores claras, bem bonito por sinal, algo que sai da mesmice escura e cinza do país. A avenida principal é bem movimentada, bastante gente circulando nas calçadas e grande fluxo de carros e ônibus.

Seguimos caminhando aproveitando as paisagens da cidade e perguntei onde as meninas queriam ir, nenhuma surpresa, queriam ir à praia, ver o mar, algo absurdamente interessante para mim que morei a vida toda em Fortaleza. E então continuei, cansado de tanto bater perna e aguentando o vento frio de lascar. A praia extremamente sem graça, escura, fria, cinzenta e deserta. Chegar a ser bizarro as européias todas felizes por estarem vendo o mar, isso me faz refletir um pouco, acho que tenho que dar mais valor às prainhas que tenho no Ceará.



Parte da Universidade.
Deixamos a praia, passamos no super-mercado, compramos pizzas e fomos para o ponto de ônibus, iriamos para o Camphill School Aberdeen, onde passariamos a noite e eu finalmente conheceria Monise, a brasileira que acompanhei pela internet durante mais de um ano antes de me aventurar neste viagem, ela me ajudou bastante descrevendo o estilo de vida do Camphill e todos os desafios que um co-worker brasileiro poderia enfrentar. Além disso também fomos recebidos por Rodrigo, outro brasileiro que nos acomodou com excelência.

Um fato que marcou um pouco esta viagem foi quando estávamos esperando o ônibus na avenida principal, aqui a parada de ônibus é virada para o lado oposto das paradas do Brasil, ou seja, você senta e fica de frente para as edificações, não para a rua. Eu estava sentado e minha carteira caiu bem na divisória entre a calçada e a rua, num lugar que praticamente ninguém a veria, e eu distraído, conversando e me divertindo com os outros nunca perceberia que não estava com ela. De repente um casal de velhinhos surge com uma carteira na mão, a senhora perguntou se era minha e quase não acreditei quando vi que não estava no meu bolso, ou seja, minha carteira com quase todo meu dinheiro, vários documentos e cartão de débito estava no chão da avenida principal da cidade por longos minutos em que qualquer um poderia ter pegado e continuado andando tranquilamente.


Universidade.
Ela me entregou a carteira e eu falei todo o meu vocabulário de agradecimento em inglês, isso até deixou a velhinha um pouco desconcertada. Isso me fez refletir por alguns minutos o quanto é bom estar em um lugar de pessoas honestas, como é boa a atmosfera de fraternidade e respeito ao próximo. Até hoje estou agradecendo a ela por este gesto de honestidade. Não é querendo ser pessimista sobre o meu país, mas se fosse no Brasil, com certeza as chances de isso acontecer seriam minúsculas.

Pegamos o ônibus e fomos para o Camphill, uma estrutura de encher os olhos, várias casas, sinalizações, mapa na entrada, algo que nem se compara ao meu Camphill Rural, mas cada um com suas vantagens. Foi lá que eu realmente senti a força do movimento Camphill, senti o quão é nobre a ação deste movimento na sociedade, e o quanto é importante para as pessoas com necessidades especiais desenvolverem suas habilidades de forma saudável e terapêutica. Chegamos, comemos as pizzas e Rodrigo nos mostrou os quartos que ficariamos. Eu e minha namorada num quarto no primeiro piso da casa, as duas alemãs no quarto de um residente que estava fora durante o final de semana e Zé no mesmo quarto que Rodrigo.


Curtindo o calorzão na praia.
De noite fomos para uma balada no centro da cidade, a boate era bem interessante, simplesmente porque era uma IGREJA, é isso ai, balada na igreja, imagina só, do lado de fora um prédio centenário e do lado de dentro uma boate de primeiro mundo cheio de pessoas embriagadas “dançando”. Lá dentro é aquele mesmo negócio de sempre, pra mim balada é que nem shopping, sempre igual, gente fazendo movimento estranho achando que tá dançando, nego vomitando no canto da parede, menina constrangida porque alguém passou a mão nela e um bêbado sem noção olhando para sua namorada fazendo cara de mal. É sempre a mesma coisa.

Saímos da balada e fomos até o ponto de ônibus, durante o caminho uma atmosfera bem pesada, você só percebe como é triste o fim de uma noite quando permanece sóbrio para assistir os pobres indivíduos totalmente fora de si após horas de porre e descontrole emocional. Neste momento eu estava torcendo para chegar logo ao clima harmonioso do Camphill. Chegamos e fomos para a cama, estava encerrado o dia em Aberdeen, na manhã seguinte pegamos o carro e fomos para outro destino que você conhecerá em breve através deste site.


Os companheiros de viagem.
Árvore de Natal na Praça Principal.
Cidade já preparada para as celebrações de Natal.
Ruas do Camphill.
Mapa de Localização na entrada.
St. Christopher, a casa que ficamos.
Um dos corredores da casa, pela decoração nota-se a predominância de co-workers.
Dando um passeio pela comunidade.
Diversas casas da comunidade Camphill ao fundo.
Visão externa de uma das casas.
Um lugar tranquilo e propício para o desenvolvimento humano.
Placa indicando a localização da piscina e academia, só para matar os caipiras de inveja.
Mais visão externa da comunidade.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

St. Andrews, a terra do golfe

St. Andrews é uma simpática cidade na costa leste da Escócia, ao sul de Dundee. Pouco mais de 14 mil habitantes vivem lá, entre eles, vários estudantes matriculados na centenária Universidade de St. Andrews, a maioria vindos de famílias ricas de todas as partes do Reino Unido e também da Europa. A cidade é famosa por ser a terra do golfe, sendo palco de grandes competições milionárias com jogadores e apreciadores do esporte de todo o mundo. O tempo é frio, chuvoso e úmido a maior parte do ano, com exceção do verão, quando acontecem vários eventos legais e os escocêses finalmente têm a oportunidade de vestir aquela sunguinha que estava perdida no fundo do armário atrás da garrafa de uísque deixada pelo bisavô em 1948 antes de Cristo.


56 km separam Perth (nosso ponto de partida aproximado) de St. Andrews no litoral leste.

Para chegar até lá, fomos de carro, Daniel (brasileiro) dirigindo, seu irmão Gérson ao lado, Uta (alemã) e eu, é claro. O tempo não estava bom, como eu disse, vento, chuva e frio, mas se você tiver algo contra isso vivendo na Escócia, fica difícil sair de casa. Por esse motivo a cidade parecia um pouco deserta. É tudo bem calmo, pessoas educadas e prestativas, principalmente no comércio, onde funcionários treinados para receber turistas trabalham.

O tempo chuvoso torna St. Andrews mais escocêsa do que já é.
Caminhamos até a catedral de St. Andrews, cartão postal da cidade, o problema é que não tem catedral, só um monte de pedra, ruína e um gramado impecável dando um contraste belíssimo com seu brilhante verde. Inclusive o Reino Unido é a terra dos gramados verdinhos, a grama britânica é famosa em todo mundo, principalmente para quem acompanha o Campeonato Inglês de futebol, dá prazer de assistir uma partida só de olhar para a beleza do gramado.

Saímos da zona das ruínas onde só há cemitério e caminhamos pelo litoral até o fim de uma extensão portuária que vai até o meio do nada no mar, somente o barulho do vento soprando e da água batendo levemente no concreto, todos tiraram várias fotos, e eu não só tirei fotos como também tirei dez quilos de roupas que estava usando e fiquei só de camisa, pois depois da caminhada deu um calorzinho. O bom do clima gelado daqui é que você sente calor, tira sua roupa de frio e em alguns minutos você já está congelando de novo, principalmente suas mãos.

Uma típica loja de Kilts, ou saias para homens, como bem quiser.
Depois do passeio turístico caminhamos de volta para a rua principal da cidade e entramos numa loja que vendia tudo de Escócia, muito comum aqui, toda cidade turística da Escócia você acha uma lojinha dessa. Essa que entramos tinha mais roupas e artigos de luxo, inclusive o comércio de St. Andrews é bem para quem pode mesmo, tudo do mais fino para receber os turistas e amantes milionários do golfe. Comprei um um cachecol xadrez típico escocês e uma camisa escrito “Scotland” no meio, nem levei na sacola, vesti logo na loja, paguei e sai de visual novo. É até engraçado pois toda vez que viajo para alguma cidade legal, começo o dia com uma roupa e termino com algo diferente, é difícil não comprar uma lembrança, as coisas são tão bacanas e até bem baratas.

Ruínas da Catedral.
Nessa loja havia um cartaz escrito, procure aqui a história de sua família, e em baixo tinha a bandeira de vários países, inclusive Espanha e Portugal, de onde meus nomes são provenientes. Olhei o cartaz, comecei a ler baixinho o que estava escrito e o senhor da loja percebeu e logo avisou, “Oh, desculpe, nós não temos de famílias da Espanha”. Eu dei uma risadinha e falei, “Ah, ok, mas no meu caso seria de Portugal”. Meio constrangido o senhor respondeu, “Ohh, desculpe, isso também acontece com a gente aqui na Escócia, as pessoas sempre acham que eu sou Inglês...”. Continuei rindo e falei que tava tudo bem, sai feliz com meu cachecol e camisa nova e pensei: “Imagina se eu falasse que na verdade sou Brasileiro, hehehe”.

Zona Portuária com os amigos do Camphill.

Saímos da lojinha e continuamos a caminhada na rua principal quando fui paralisado por uma vitrine, nela estava perfeitamente instalado o doce que mais gosto por aqui, “Shortcake”, é um tipo de torta de aproximadamente 1,5 centímetro de espessura contendo 3 camadas, chocolate no topo, caramelo no meio, e algo que parece uma massa de biscoito na base. Sou tão viciado nesse negócio que minha namorada me deu duas caixas de Natal, ainda tô aqui me deliciando até agora. Se você vier para a Escócia não deixe de experimentar, o negócio é bom demais, e bem barato! Comprei um para mim e um para o resto da cambada dividir.




Procuramos algum lugar para comer pizza, mas as pizzarias estavam fechadas, então o pessoal quis parar num fast-food para comer qualquer coisinha mixuruca de 3 pounds ou menos. Eu que estava morrendo de fome e não aguento mais fast-food na minha vida, principalmente morando num lugar onde a comida é fenomenal, procurei logo o famoso “Fresh Fish and Chips of St. Andrews”. Antes devo lembrá-los que a comida mais rápida e popular da Escócia é “Fish and Chips”, ou como eles pronunciam, “Fiesh and Chiêêêêps”, bem rápido. Simples, peixe frito com batata frito, parece até mais ou menos quando eu falo assim, porém o negócio é bom mesmo.


Estou tentando não comer mais nenhum tipo de carne, mas ainda é difícil para mim recusar um belo “Fish and Chips” pelo menos uma vez a cada duas semanas. Comprei um de 6 pounds em St. Andrews, uma caixa retangular cheio de batata frita e 3 grandes pedaços de peixe frito em cima, delicioso, mas era tanto que nem aguentei tudo, dei o resto para a moçada e eles atacaram. E então o dia em St. Andrews terminou, pegamos o carro, passamos e Dundee para fazer umas compras de Natal e voltamos para nosso lugar no meio do nada chamado Corbenic.


Parte da Universidade de St. Andrews.
Algumas ruas estreitas chamam a atenção durante o passeio.
Não sei como seria a legenda desta foto.

Ruínas e cemitério da Catedral.
Cartão Postal de St. Andrews.
Quase levei um tombo feio nessa rampa.
Porto com pequenos barcos pesqueiros.

Final do Dia.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Preparativos natalinos na Escócia

Pela primeira vez em minha vida passei o Natal longe de minha família, um Natal cheio de novidades, em outra cultura, com outras pessoas, com novas experiências. Aqui em Corbenic a celebração começa 1 mês antes, dia 25 de Novembro, quando temos o “Advent Market”, é como um mutirão que a comunidade faz para arrecadar dinheiro. É como um pequena celebração convidando as pessoas de fora a comprar os produtos produzidos aqui, fazendo com que o trabalho dos residentes ganhem mais valor e possam ser verdadeiramente úteis. Cada “workshop” se transforma num ambiente diferente, o “Estate” virou uma cafeteria, o “Craft” virou lojinha pra vender as coisas produzidas lá mesmo, o “Garden” a mesma coisa, vendendo mais produtos naturais, como sucos e coisas que nem eu sei o que é.

Eu, como co-worker, recebi a tarefa de trabalhar nos Waffles junto com Zé (brasileiro) e Jakub (Rep. Checa), como os meus dois colegas são bons em cozinhar, ficaram na produção dos waffles, enquanto eu fui pro caixa vender cada um por 1 libra. Tudo bem simples e meio improvisado, as pessoas chegavam na salinha, geralmente famílias, pagavam-me, esperavam um pouco e saiam fora, uns mais conversadores, outros nem tanto, várias crianças, bastante gente de outros países da Europa. Sempre ficavam surpresos quando descobriam que eu e Zé somos do Brasil. Às vezes sinto que quando falo que sou do Brasil eles pensam que venho de outro planeta, dá vontade de falar que moro em Fortaleza e tem voo da TAP direto pra Europa todos os dias.

Enquanto trabalhava, dava um jeito de sair de vez em quando para ver a movimentação lá fora, e era interessantíssimo ver as pessoas chegando na comunidade, espremendo seus carros entre as árvores, cumprimentando uns aos outros numa bela atmosfera de fraternidade. Isso é uma das coisas que sinto mais admiração nos países “menos populosos” da Europa, o espírito de fraternidade que as pessoas manifestam entre si, um sentimento de união, de igualdade, de apoio, aconchego. Algo do tipo, não importa sua classe social, o que você faz, o quanto você é diferente, nós estamos no mesmo país, estamos na Escócia, e aqui há união e fraternidade, ou seja, somos como irmãos, vamos falar sobre nossa cidade, sobre a tempestade da semana passada, a formatura da sua filha, vamos falar mal da Inglaterra. Somos próximos, não importa se só verei você ano que vem ou na padaria semana que vem, eu sou escocês, você é escocês, devemos estar unidos.

Isso é algo que sinto muita falta no Brasil, pois basicamente, o brasileiro só se junta quando tem álcool e música rolando, na hora de festejar, fora da folia é cada um por si, eu dou um jeito de ganhar meu dinheiro, você o seu, se um dia for necessário te dar uma rasteira, darei, é uma questão de sobrevivência. O espírito de fraternidade é quase inexistente, as pessoas desconhecem o poder de uma população unida, e isso é absolutamente tudo que os políticos querem para dar continuidade à exploração das riquezas produzidas pelo trabalho individualista de seus cidadãos.

Após o evento, Corbenic divulgou o saldo arrecadado daquele dia, algo em torno de 8 mil libras, ou seja, 24 mil reais na proporção de 1 libra para 3 reais. Não sei como eles vão usar esse dinheiro, nem é meu interesse saber. Com o “Advent Market” é dada a largada para a preparação do Natal, é mutirão de decoração aqui, “outing” pra compras ali, tradições e caprichos todos os dias, como acender uma vela a cada semana, abrir calendários com surpresinhas todos os dias, e todas essas coisas que fortalecem a celebração natalina. Toda sexta-feira a tarde a comunidade se reunia para um chá com biscoitos e musiquinhas de Natal, divertido e ao mesmo tempo morgado.


No começo de Dezembro minha casa saiu para Dundee, para fazer compras, como temos 6 co-workers e 6 residentes, cada co-worker ficou reponsável por ajudar um residente a comprar seus presentes, ou seja, você recebia um papel com a lista do residente, dinheiro suficiente para as compras, segurava a mão dele e saia andando pelo shopping até comprar tudo. Meu residente, ou seja, aquele que eu devo ter maior foco (eu que escolhi, inclusive) é o B., autista, 46 anos, gordinho e totalmente incapaz de comprar um presente. Pelo menos não foi uma tarefa difícil, pois ele não têm família, então enquanto eu via meus colegas co-workers estressados procurando presentes para vô, vó, pai, mãe, irmão, irmã, tio, tia, eu só precisava comprar dois presentes, um para a advogada de B., a única pessoa que ele “têm” fora de Corbenic, e um para outra residente, pois também há na casa uma espécie de amigo secreto.

Para a advogada, compramos uma caixa de cosméticos já preparada como presente, e para a residente compramos uma almofada bonitona com uma coroa bordada e uma frase que não lembro. Eu ainda tinha que comprar algo pro meu amigo secreto, tirei um residente e comprei pra ele alguns brinquedos, depois fiz uma caixa e embrulhei, ganho 20 libras da casa para fazer isso. Depois durante o mês comprei os presentes que eu mesmo precisava comprar com meu dinheiro, quase todos para os outros que trabalham comigo aqui. Mas isso vou falar melhor no próximo post.

Queria concluir este texto fazendo uma reflexão sobre como é interessante o Natal na Europa, como é forte e especial, como as tradições são presentes, as músicas, o clima e como fiquei triste ao descrever o Natal de meu país. As pessoas sempre me perguntavam como é o Natal no Brasil, e eu falava da reunião de minha família, esse era o único aspecto positivo, o resto era algo mais ou menos assim: “O Natal em meu país é altamente bizarro e tosco, pois somos um país de clima tropical totalmente manipulado e influenciado pelas ideias americanas, ou seja, temos árvores artificiais para tentar imitar as árvores do clima de vocês, temos eventos e celebrações exatamente tentando imitar os americanos, usamos neve artificial e coisinhas de inverno, alguns usam chapéuzinho de papai Noel, assistimos filmes de natal e as crianças desenhos animados, totalmente americanizados, as crianças crescem idolatrando a figura do Papai Noel americano, enfim, acontece que no Brasil temos um grande vazio cultural no Natal, basicamente tentamos imitar os EUA, o que chega a ser ridículo, porque não fazemos isso naturalmente, nós nos ESFORÇAMOS para isso, como se o Natal não fosse Natal sem os costumes americanos.”

Amigos brasileiros, em cada país de cultura forte que vocês forem, vocês verão um Natal diferente, segundo aquela cultura, por exemplo, se eu perguntar pra minha namorada o que é Papai Noel, ela vai dizer que é “something from the americans”, ou seja, alguma coisa dos americanos, ela não tem Papai Noel na Áustria. Então vamos tentar ser mais brasileiros durante o Natal, principalmente os nordestinos, parem de imitar o que aparece na televisão e o que o capitalismo manda você fazer. Ninguém merece chegar no exterior e falar que nosso Natal é uma mera imitação americana. Abaixo deixo um vídeo que minha irmã me mandou e é claro que tem muito a ver com o que eu vivi esses dias. Abraços!