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sábado, 2 de dezembro de 2023

A libertadora certeza de que não sei de nada

Desde o fim do tempo de escola lembro que passei a me interessar mais por entender como o mundo funcionava. Não tanto o mundo natural, mas o social. Isto me aproximou das ideias políticas, sociais e econômicas, além da história, que diferentemente do que acontecia no período escolar, passou a me atrair de uma forma mais orgânica, de um interesse que realmente vinha do meu ser, e não de um professor ou um ambiente de sala de aula.

Neste tempo, mergulhei principalmente no que chamo de “esquerdosfera”, todo o universo de interpretação dos fatos sociais e históricos sob a ótica da esquerda política e acadêmica, que entendo como tendo sua grande base fundamentada por Marx e Rousseau. Este é o caminho natural de qualquer jovem que se interessa por entender a grande estrutura social em que vive, e é por isso que a grande maioria das pessoas que mergulham um pouco no assunto se tornam o que chamaríamos de “esquerdistas”. A interpretação do mundo pela ótica destas ideias é extremamente atraente, simples de entender e fornecedora de muitas respostas. E como queremos respostas quando estamos curiosos!

Após este período de iniciação passei a me sentir muito seguro sobre vários assuntos e estava mergulhado em idealismo. Porém não é da minha personalidade se acomodar na “segurança”. Aproveitando o primeiro ano na faculdade de economia, passei a me interessar por pensadores que atacavam frontalmente o que eu acreditava, afinal eles deveriam existir, não é mesmo? Foi então que conheci os liberais, cheios de argumentos e ideias muito interessantes que colocavam em dúvida tudo que acreditava. De repente Marx e Rousseau não eram tão grandes assim, e Adam Smith e Hobbes passavam a chamar muita atenção.

Eu poderia passar horas escrevendo sobre todo este conflito de ideias que passei a viver nesta época, mas este não é o assunto do texto. O ponto importante foi que nesta época eu me deparei com uma ideia muito marcante encontrada na mentalidade de muitos liberais, mas de um em especial, Friedrich Hayek, que não era nada mais que uma simples constatação: o conhecimento está disperso na sociedade e indivíduos sabem pouco, muito pouco.

Este pensamento foi um meteoro na minha jornada de compreensão do mundo. Colocado da forma acima, parece simples, mas na verdade ele traz uma série de reflexões sobre o mundo moderno e a “pretensão do conhecimento”, como o próprio Hayek chamava, chegando a escrever um livro intitulado “A Arrogância Fatal”, que em outras coisas descrevia como políticos e planejadores sociais tentavam solucionar os problemas humanos e sociais e quase sempre fracassavam em suas empreitadas, não apenas não solucionando os problemas, como os agravando.

E Hayek não era qualquer pensador, era um ganhador de Prêmio Nobel de Economia. Nada mais nada menos que um vencedor de Prêmio Nobel tinha como uma de suas grandes mensagens, em outras palavras, o seguinte: nós não sabemos nada! É claro que ele não queria dizer que não sabemos nada literalmente, o que ele queria dizer é que vivemos em um mundo complexo, e muitas das ideias decoradas de sofisticado racionalismo não são mais que especulações ou uma parte muito superficial do conhecimento de determinado assunto. Hayek enxergava em nosso tempo uma certa arrogância, uma tendência irresistível das pessoas em querem ser especialistas em assunto que nem os especialistas dominam completamente.

Partindo desta premissa, passei a perceber que aquela máxima popularmente conhecida fazia muito sentido: “quanto mais busco o saber, menos sei”. Ao analisar os assuntos que me dispus a me aprofundar durante toda a minha vida, percebi que quanto mais adentrava naquele campo, mais me sentia ignorante, mais me sentia inseguro sobre a verdade e a exatidão dos fatos. Neste caminho, algo solidificou ainda mais esta ideia em meu íntimo: o estudo da estatística, matéria obrigatória nos cursos de economia. Ao entender como os estudos, pesquisas e levantamento de dados são feitos, ficou ainda mais claro para mim como tudo é tão frágil, tão aberto a interpretações e manipulações, e como nossa sociedade neste século XXI se tornou um show de horrores estatísticos com pessoas de todos os tipos usando dados soltos sobre determinados assuntos para “provarem” seus pontos e posarem de detentoras do conhecimento.

Mais recentemente fiquei estarrecido com a pandemia de Covid-19 que transformou a “ciência” em uma ferramenta de embate político. Milhares de pessoas que mal sabem descrever o que é ciência e método científico, passando a dizer que “acreditam na ciência”, como se a ciência fosse uma fonte de respostas seguras e imutáveis que devem ser assimiladas e aceitas sem questionamentos. Que sacrilégio. Ora, a grande característica da investigação científica é justamente o ceticismo, a insegurança, a cautela nas observações e processamento dos dados. A ciência é tudo de incerteza e praticamente nada de segurança. Conclusões científicas seguras somente são consideradas seguras após um grande período de aceitação unânime, e ainda assim qualquer cientista minimamente honesto sabe que a mais segura das conclusões pode ser desafiada, questionada e refutada, e foi assim que a ciência se desenvolveu durante seus séculos mais nobres em nossa história. Como uma grande arena de batalha, em que visões aceitas eram refutadas e substituídas do dia para a noite. A instabilidade e a imprevisibilidade foram as bases do modelo científico moderno, e foi justamente seu caráter incerto que o tornou alvo de ataques por parte daqueles que desejavam um mundo estável baseado nos preceitos e tradições religiosas.

Então como, diante de todos esses fatos, políticos e pessoas aleatórias sem nenhuma formação científica passaram a dizer que “apoiam a ciência”? Ora, se você apoia a ciência você apoia a incerteza! E não apenas isso, em geral o que observo em nossos dias é uma pretensão do conhecimento implacável a avassaladora nos mais diferentes campos: nutrição, fármacos, atividades físicas, psicologia etc etc. As pessoas hoje em dia estão achando que encontraram as respostas para tudo e que uma está mais certa que a outra. Parece um grande hospício de senhores e senhoras certezas.

Entendam: vocês não sabem de nada! Este mundo e a maioria dos assuntos que vocês discutem é extremamente complexo, as variáveis são muitas, a previsibilidade é quase inexistente, e este é o mundo como ele é. Este lugar incerto que está mais para uma grande aventura, cheia de surpresas que moldarão seu caráter em questão de horas. Libertem-se! Libertem-se da pretensão do conhecimento! Tirem este fardo de suas costas e vivam uma vida leve! Sejam humildes! Abracem o desconhecido! Digam para si mesmos: eu sei pouco, muito pouco, e está tudo bem!

Como é libertador aceitar a imensidão de variáveis desde mundo, do ser-humano, das sociedades humanas, da biologia, da química, da história, da psicologia, da astronomia. Como é fascinante saber tão pouco e poder investigar os fatos sem querer uma resposta final para tudo. A vida é uma grande incerteza, e é nesta incerteza que nos entregamos e mergulhamos na maravilhosa obra do criador. Se ele quisesse que soubéssemos tudo, provavelmente nos faria diferentes, não tão pequenos e limitados.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Bolsonaro pode estar no poder, mas ainda estamos no Brasil de Lula e Dilma

Resultado de imagem para desempregados sao pauloÉ extremamente comum nos depararmos com pessoas reclamando de um momento político "atual", atribuindo o cenário não ao governante que passou por ali, mas àquele que está no poder no momento em que há a insatisfação. Este é um grande problema da democracia de massas, as pessoas atribuem tudo que está acontecendo ao governo de momento, sem compreender a amplitude dos sucessivos eventos que construíram aquele cenário perceptível.

Por exemplo, quando Lula assumiu o poder e durante todo o seu primeiro mandato, ele não governava o "Brasil de Lula", ele governava o "Brasil de FHC". Lula administrava um país com uma política a nível federal moldada durante oito longos anos por FHC e seu partido. Política pública é assim, você faz algo hoje para só ver efeito depois de uns três anos ou mais.

Neste momento, o Presidente da República é o Sr. Jair Bolsonaro, que assumiu seu cargo há cerca de nove meses. Bolsonaro não governa o "Brasil de Bolsonaro", e nem o de Michel Temer (que esteve no poder por dois anos), Bolsonaro ainda governa o "Brasil de Dilma Rousseff" e seu Partido dos Trabalhadores. A conjuntura econômica que vivemos neste momento foi construída por aqueles que estiveram no poder nos últimos dez (ou mais) anos. É verdade que Michel Temer mudou esta rota, mas ainda faz muito pouco tempo para as alterações serem sentidas.

É claro que algumas coisas acontecem e podem ser atribuídas ao mandatário de momento. Por exemplo, o Brasil neste ano teve uma queda significativa na ocorrência de diversos crimes, como roubos de carga, estupros e homicídios. Tenho certeza que muitos discordariam de mim, mas atribuo esta queda ao fato de termos um presidente extremamente hostil a esses crimes que há anos perturbam acintosamente a ordem social brasileira. Sei que a segurança pública não é uma responsabilidade da união, porém desconfio que parte da "bandidagem" está pensando mais antes de proceder com seus crimes, com a ideia de que se fizerem coisa errada, "o Bolsonaro vai pegar".

Mesmo considerando estas exceções, as políticas públicas demoram um tempo para serem sentidas, principalmente no que se refere à economia. Neste campo, o que a equipe de Bolsonaro liderada por Paulo Guedes está fazendo - e ao meu ver está fazendo bem - só será sentido daqui a alguns anos, talvez uns dois. Além dessas coisas levarem um tempo, ainda há a demora para que o Congresso aprove as medidas, como a Reforma da Previdência, essencial para o equilíbrio fiscal do país, mas que só deve ser aprovada pelo Senado no começo de outubro. Vamos demorar longos dez meses para aprovar uma reforma que já deveria ter sido feita há anos. Mas não deveríamos nem reclamar, afinal pelo menos as coisas estão acontecendo, depois de tudo que passamos, a situação poderia ser bem pior.

Por isso se alguém reclama da situação econômica neste exato momento e atribui os números a Bolsonaro, atrevo-me a dizer que este alguém não tem muita noção sobre como as coisas acontecem. Críticas mais contundentes ao governo Bolsonaro poderão ser feitas quando seu mandato estiver chegando ao fim, talvez a partir de 2021. Antes disso os ataques não deverão passar de espantalhos ou de manifestações ressentidas de quem ainda não aceitou o resultado das eleições em 2018. Como costumavam dizer no início do segundo mandato de Lula: "deixa o homem trabalhar". É impressionante como "deixar o homem trabalhar" não parece ser uma ideia palatável aos agitadores quando seus representantes não estão no poder.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Coletivismo não é fraternidade e Individualismo não é egoísmo

Resultado de imagem para coletivismoUma das grandes dificuldades no processo de difusão do pensamento liberal é a desmistificação de alguns termos que até então parecem favorecer os socialistas. Dois desses termos, muito citados na literatura liberal, é o "individualismo" e o "coletivismo". O primeiro nós ouvimos desde que somos crianças: "Não podemos ser individualistas, temos que dividir.", o mundo nos diz. E com toda razão, a solidariedade e a partilha são parte de nossa cultura e considero algo benéfico.

Acontece que, quando falamos de Ciência Política, o "individualismo" não significa esta noção de egoísmo e mesquinharia, e sim a liberdade de determinada pessoa agir da maneira que quiser, contanto que não fira as leis que regem a sociedade (e sim, as leis são necessárias). No modelo "individualista", o Estado é formado em torno da proteção do indivíduo, e não de grupos, isto garante que a autonomia de cada pessoa seja respeitada, protegendo, em especial, as minorias, aquelas que a esquerda costuma defender sempre mas não admite que são as mais perseguidas quando seus regimes socialistas se encaminham para realidades autoritárias.

O segundo termo, "coletivismo", soa como algo benevolente, ligado à fraternidade entre os homens: "Pensemos no coletivo!", dizem. E não há nada demais nisso, contanto que se atue coletivamente de forma voluntária, e não se utilize a força coercitiva do Estado para criar estruturas de proteção a determinados grupos (o que acontece muito no Brasil). Um modelo de Estado coletivista não pode conviver com um modelo individualista, quanto mais coletivista um Estado, mais ele compromete a autonomia individual e força as pessoas a se sujeitarem a um suposto "bem comum", e foi exatamente isto que aconteceu com as ideologias colocadas em prática ao longo do século XX. No começo, parecia uma salvação coletiva rumo a um paraíso, depois, logo se transformou em um inferno administrado por uma elite despótica.

Há de se destacar que uma pessoa que defende um regime político "individualista" não necessariamente é alguém que pensa apenas em si mesma, pelo contrário, talvez esta pessoa esteja bem inserida socialmente e coletivamente, mas por uma convicção ética prefere um modelo que proteja as "minorias" e até ela mesma (caso um dia ela se torna alguém "diferente" do todo"). Assim como uma pessoa "coletivista" talvez não seja tão fraternal assim. Muitos coletivistas - e aqui destaco os socialistas - são daqueles que endossam uma ideologia política que poderia salvar a humanidade mas não têm a coragem de mover uma palha para ajudar alguém mais próximo, como um familiar que está logo ali ao lado. Em outras palavras, são aquelas pessoas que "amam" a humanidade mas odeiam o ser-humano.

Estados individualistas formam estruturas sociais voluntaristas, enquanto Estados coletivistas formam estruturas sociais coercitivas. Há uma grande tendência a nos deixarmos levar por promessas de regimes coletivistas, pois costumam prometer "fins" compensadores, entretanto devemos haver cuidado com essas promessas, afinal um grande Estado capaz de "fazer o bem" é um grande Estado capaz de fazer o mal. Portanto, por via das dúvidas, talvez seja melhor manter este Estado contido, evitando assim processos de tiranização. Isto é Ciência Política clássica, coisas que fundaram nossa civilização, mas parece que há a necessidade de sempre relembrarmos, principalmente em um país em que seus cidadãos cedem tanto poder aos governantes, abrindo mão da própria liberdade em troca de promessas de direitos e segurança econômica.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Porque votarei em Bolsonaro

Não pretendo convencer ninguém, até porque a distância ideológica entre mim e alguém que votará em Haddad é muito grande para ser revertida em um só texto. Mas tentando ser objetivo para não tomar muito seu tempo:

- Não comungo de nenhuma forma com classificações de personalidade segundo gênero, cor e orientação sexual, por isso reprovo muito do que o candidato disse, embora o que foi dito tenha sido insistentemente tirado de contexto e maximizado pelos seus adversários para fins de combate político.

- O terror em volta de Bolsonaro como uma ameaça a determinados grupos da sociedade é artifical, trata-se de narrativa previamente orquestrada, uma vez que as ideias políticas da esquerda só prosperam em ambientes de grande fragmentação, e o termo "minorias" é pensado justamente para este fim. Quem está preso neste grande jogo de narrativas, naturalmente verá o candidato como o mais tenebroso dos seres. Não estou nessa.

- Apesar do poder executivo federal não agir na área diretamente, Bolsonaro é a única esperança para que a União sinalize aos Estados um ambiente mais propício ao fortalecimento da segurança pública, que está em calamidade total, enquanto Haddad segue com aquela postura complacente com a criminalidade, sem dar nenhum indício de que poderemos um dia vislumbrar ruas e áreas públicas seguras em nosso país. 

- Não há nenhuma ameaça à democracia, nós não estamos em 1964, a Guerra Fria acabou e não temos um inimigo interno explodindo bombas e sequestrando gente por aí. A única ameaça que a democracia tem nesta época é seu aparelhamento por um partido hegemônico que vai cooptando as instituições ao ponto de não ter mais seu poder ameaçado, e você sabe bem quem fez isso nos últimos quinze anos (até o Ciro Gomes sabe).

- A educação brasileira está completamente aparelhada ideologicamente, sendo utilizada de forma criminosa para articulação política e engenharia social, isso atrasa muito o país (além de ser um grande desperdício de dinheiro). Bolsonaro pode ser o início de uma mudança, atuando para quebrar esta estrutura em nível nacional, começando pelas universidades.

- Bolsonaro praticamente não tem um plano de governo, apenas propostas soltas, o que é ótimo, o país precisa de um pouco de senso comum, fazer as coisas óbvias e parar de achar que planos de governo super racionais e detalhados inferem resultados melhores. Em política, não fazer muito e não se meter em tudo são propostas dignas de apreciação.

- Não precisa falar sobre posse de armas, o brasileiro já votou contra o desarmamento. Aqueles que ainda assim resistem, demonstram só respeitar a democracia quando convém.

- Há uma sinalização para efetivação real de nossa federação, reduzindo o poder da União e fortalecendo estados e municípios, menos poder em Brasília, mais poder para perto das pessoas.

- Economia deve ser o menos necessário em comentar, Bolsonaro sinaliza para um economia mais livre: maior abertura comercial, desregulamentações, desburocratização, redução de impostos, responsabilidade fiscal, reformas necessárias, estabilidade monetária, câmbio flutuante, privatizações, enxugamento do Estado (que impacta na redução da corrupção) etc. São propostas tão mais realistas e sensatas que nem dá pra comparar com as do soviético que está no outro lado da disputa.

- Na política externa Bolsonaro também sinaliza um realinhamento drástico, abandonando as parcerias ideológicas da última década e se aproximando aos países civilizados, o que melhora substancialmente o posicionamento geopolítico do Brasil, visando ganhos incomensuráveis em termos econômicos, diplomáticos, militares e sociais. Como nosso país é um líder regional, isto também terá impactos na ditadura venezuelana, que há muito tempo se transformou em uma grave crise humanitária.

Os motivos acima já seriam suficientes para fundamentar os votos em Bolsonaro, e não meramente por um "ódio ao PT". Votei em João Amoêdo no primeiro turno, que tinha propostas mais claras e até melhores, mas no segundo turno não tenho dúvidas, Bolsonaro representa a civilização (por mais bufão que seja) e Haddad representa a estagnação no subdesenvolvimento, eternizando nosso país na periferia do mundo. 

Pronto, simples né? Pois é, também gostaria que nossa política ficasse mais simples, daria menos espaço para corrupção e utopias destrutivas. Pena que a simplicidade não faz parte do vocabulário de quem acha que vai mudar o mundo pelo Estado.

sábado, 21 de abril de 2018

A proteção de interesses e a manutenção da pobreza

Desde o Século XVIII a humanidade já conhece a solução para a pobreza. Talvez tenha demorado para que a solução amadurecesse, mas no fim ela amadureceu, mesmo diante de ferrenhos opositores. Hoje não há mais desculpas para que um país permaneça na pobreza. Nações com recursos naturais escassos prosperaram brilhantemente, assim como povos "iletrados" conseguiram melhorar suas condições adotando instituições adequadas.

Se o Brasil, diante de toda a prosperidade produzida no mundo nos últimos 200 anos, ainda sofre com a escassez, é muito mais por uma questão de manutenção de interesses, e não por meras fatalidades do mundo "subdesenvolvido". Isso porque, aqueles que protegem interesses foram colocados como "amigos dos pobres", enquanto aqueles que sugerem o fim dos privilégios, abrindo mão da demagogia, até hoje são tachados de "elitistas" ou "inimigos da nação".

Quem não quiser cair nesta guerra chula de narrativas, e ao invés disso buscar entender os processos da prosperidade, perceberá que os discursos quase nunca batem com os números, e os números nunca se curvam à pompa dos discursos. Não há um só político que consiga multiplicar a riqueza de uma nação por meio de um decreto, tornando-se capaz de entregar todas as suas promessas populistas a partir do nada. Sempre que um político prometer demais, saiba que você está a frente de um demagogo que, provavelmente, inflacionará a moeda, endividará o Estado ou elevará os impostos até onde não puder mais. Não há mágica.

Nas últimas semanas estive lendo a biografia de Eugênio Gudin, tido como o primeiro economista brasileiro em termos formais (Gudin fundou a primeira faculdade brasileira de Economina), pensava que o Brasil deveria ter disciplina em suas contas, investir na educação básica e se abrir para o comércio com as outras nações. O resultado? Foi acusado de "entreguista" e representante do "grande capital". Apesar de ainda muito respeitado (sendo até o chefe da delegação brasileira em Bretton Woods), Gudin teve suas ideias ignoradas, e o Brasil escolhe o caminho do desenvolvimentismo, que não passa de outra palavra para "gastança de dinheiro que não existe". Hoje somos este país economicamente emperrado, onde tudo gira ao redor do Estado e a instabilidade monetária nunca dá sossego.

Hoje, toda vez que um homem toma a frente propondo austeridade e pés no chão, ao invés de gastança e "investimentos", já busco conhecer mais sobre ele, pois só a coragem de ir contra a maré do populismo já demonstra uma diferenciação quanto aos outros que ocupam os palanques por este Brasil afora. Este país é tão contaminado pela demagogia e pela mentira que fica difícil acreditar que um dia poderemos ter gente responsável ocupando os postos mais altos da nação. Liberar a economia, tanto a interna (regulações excessivas, burocracia e alta carga tributária) quanto a externa (protecionismo) deveria ser prioridade para que um dia cogitássemos acabar de verdade com a pobreza.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Os brasileiros não são democratas

O que prejudica o debate político brasileiro desses tempos é que há um certo desprezo por aqueles de opinião divergente. O brasileiro tem muita dificuldade em ouvir e simplesmente respeitar determinada posição que não esteja alinhada com suas próprias ideias.

Paradoxalmente somos bem tolerantes quanto à pluralidade religiosa, mas extremamente inquietos quanto à heterogeneidade de pensamento político. Observando a democracia francesa, britânica ou americana, nota-se um verdadeiro zelo em proteger o “divergente”, como se o bom funcionamento do “todo” dependesse do atrito mantido pelos “poucos”.

Aqui, se o sujeito fala que é a favor da liberação das drogas, não se conclui que ele tem argumentos razoáveis que fundamentam sua ideia, mas que é um “Zé Droguinha” querendo melhor acesso aos produtos. Se o sujeito é contra o desarmamento, não se pensa que ele refletiu sobre a melhor maneira de termos um país mais livre e pacífico, mas que deve ser algum tipo de psicopata belicista que vai sair por aí aterrorizando tudo e todos. O diálogo fica inviável, os bons se retiram, e a palavra acaba ficando com aqueles que transformam tudo em um grande ringue de calúnias e destruição de reputações.

Este é o cenário ideal para a ascensão de mentes totalitárias, afinal, onde não há diálogo civilizado, haverá o embate pela força, e o embate pela força costuma resultar em um vencedor tirânico o suficiente para calar todas as vozes dissonantes. A democracia parece não ter sido pensada para um munco incivilizado. Quando a voz é concedida a todos e nem todos sabem usar a palavra, o resultado é o caos e a materialização dialética da degeneração. Aqueles que cultivam o bom debate acabam sendo suprimidos por aqueles que passam por cima de todas as regras.

A democracia pode ser bela em um pequeno vilarejo suiço onde todos se conhecem e avaliam as opiniões uns dos outros com respeito e cordialidade, mas em um grande território tomado pelas massas e pela desigualdade, o resultado parece não ser aquele pensado pelos gregos. A tendência é a busca imediata por vantagens, com pouca ponderação e quase nenhuma prudência, sendo necessário algum limite que proteja a liberdade individual.

Entra então o império da lei. Entra então o constitucionalismo. Mas nada adianta uma constituição que não limite o poder da maioria, e que ao invés disso aprofunde a força deste rolo compressor que parece não dialogar com o divergente. Penso que esta é a maior diferença entre a constituição americana e a brasileira, e por motivos de incompatibilidade geográfica e demográfica, considero um erro pensar o que seria bom para o Brasil tomando por referência os países europeus e seus modelos de bem-estar social feitos para uma população homogênea e uma economia já altamente produtiva. Nessas terras selvagens, ou temos lei, ou temos despotismo.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O socialismo não leva ao socialismo

Seria interessante se o socialismo realmente nos levasse ao socialismo, não que em algum momento o socialismo chegasse a ser um sistema moralmente aceitável, mas se pelo menos funcionasse e nos levasse a uma condição de sobrevivência tolerável, poderíamos até reconhecê-lo como algo "discutível". Porém a realidade é muito, muito longe da teoria. O socialismo não nos leva ao socialismo, ele nos leva à escravidão.

Imagine um senador do PSOL defendendo esta ideologia e dizendo que com ela teremos mais liberdade, ele pode ter as melhores intenções, mas desconhece o que está realmente defendendo. Quando jovens inexperientes caem neste erro podemos até tolerar, mas adultos experientes defendendo tal ideia somente nos leva a duas possibilidades: (I) o sujeito tem alguma deficiência cognitiva ou (II) trata-se mesmo de um mau-caráter querendo subir ao poder.

Está mais que provado, tanto pela teoria praxeológica austríaca, quanto pelas experiências históricas reais, que a tomada dos meios de produção e a coletivização da propriedade pelo estado nos leva, inevitavelmente, ao colapso econômico, à destruição de riquezas, à pobreza e, consequentemente, ao despotismo, pois apenas uma tirania violenta conseguiria se manter no poder frente à dizimação humana que estaria em curso.

Em outras palavras, podemos apenas relacionar "socialismo" a "liberdade" se deturparmos completamente o sentido de "liberdade", de forma tal que um presidiário pudesse ser considerado um homem livre, simplesmente porque ele tem um teto, alimentação e pequenos momentos de lazer. Ora, não seria isso a situação do regime cubano em suas devidas proporções? Será que isso é liberdade para os socialistas? Simplesmente sobreviver? Não entrarei no mérito se os cubanos são felizes ou não, eles podem até ser, assim como um escravo pode ser feliz ao ser bem tratado por seu senhor. Mas isto definitivamente não é liberdade.

Eu sou mais feliz sendo livre, pois gosto de tentar coisas novas, empreender, ter meus projetos individuais, lidar com o desconhecido, mas este sou eu, e sei que nem todos aspiram os mesmos valores. Você não precisa ser livre para ser feliz, até porque quanto mais liberdade se tem, mais responsabilidade também é colocada sobre seus ombros. O socialismo é uma revolta contra a responsabilidade, é uma luta pela libertação da realidade, é uma fuga e, sendo um pouco mais duro, uma forma de suicídio.

Aquele socialista cheio de energia humana e que vive falando de amor, está, na realidade, morto, ele está se desligando das coisas como elas são, ele não quer alterá-las de forma engenhosa e racional como os empreendedores, ele quer a destruição imediata de tudo e um redirecionamento cósmico para sua utopia. Ele busca liberdade e, sem perceber, conduz a sociedade à escravidão, ao declínio e até a sua destruição.

E o que esperar de um país onde as aspirações políticas estão canalizadas para um objetivo intangível? Simplesmente a ascensão da demagogia mais vulgar, da hipocrisia, da mentira e do solapamento dos valores morais mais fundamentais. Quanto mais forte é o ideal socialista em uma sociedade, mais caótica ela será, e quanto mais tempo ela for liderada por tais ideias, mais difícil será reverter o processo. A vigilância sobre o avanço desta ideologia deve ser constante, implacável e incansável, pois nós ainda temos um pouco de liberdade, mas seria lamentável se nossos descendentes fossem coagidos a acreditar que "não há nada mais livre que a escravidão".

domingo, 9 de agosto de 2015

Escolha a liberdade

A sensação de exploração sempre existirá enquanto os recursos forem escassos, a luta pela sobrevivência fez, faz, e sempre fará parte de nossa existência. Você pode escolher entre se isolar em um ponto distante na natureza, produzir seu próprio alimento e viver da maneira que melhor o(a) satisfaz, ou você pode viver em sociedade, oferecer seu trabalho e buscar as melhores vantagens e oportunidades de acordo com suas ambições pessoais.

O capitalismo não impõe uma forma pré-determinada de como as pessoas devem viver, este é um sistema de liberdade, de livre-escolha. Você pode escolher ter uma vida simples, um salário modesto, vestir uma calça furada e andar por aí ajudando os pobres e necessitados, ou você pode empreender, investir em algum negócio, acumular bens materiais e ter uma vida de rei (se for bem sucedido).

Elites sempre existirão, mas qual seria a melhor opção? Uma elite de políticos poderosos que nada produzem à sociedade e utilizam a força para sua manutenção no poder, ou uma elite econômica que só pode ser sustentada através da melhor oferta de bens e serviços possíveis aos demais? O mercado é o sistema democrático mais implacável que existe, nele milhões, bilhões, trilhões de votos estão sendo computados diariamente, nele quem tem poder é o indivíduo, e a paz é uma dos preceitos indispensáveis para sua sobrevivência.

Em uma economia de mercado ninguém é forçado a nada, não existe uma maioria impondo o que é melhor para todos, o que existe são indivíduos buscando seus objetivos, cada um com sua personalidade e distinção, ao mesmo tempo que empoderam aqueles outros indivíduos que merecem reconhecimento pelos bens e/ou serviços que ofertam, sejam eles materiais, intelectuais, artísticos etc.

Quanto mais poder (dinheiro) é direcionado à classe política, mais fraco se torna o mercado, quanto mais fraco o mercado e a economia, maior a sensação de exploração. Muito se trabalha, pouco se poupa, parece que nunca conseguimos sair da corrida dos ratos. Mas quando o mercado tem seu espaço e os indivíduos podem prosperar, tudo se transforma, mais riqueza e oportunidades são geradas, as pessoas conquistam mais autonomia e a vida ganha uma nova dinâmica de otimismo, motivação e cooperação.

Optar pelo mercado ao invés do Estado significa optar por uma libertação gradual, longe das receitas mágicas e das ideologias utópicas, é focar em si mesmo e oferecer o melhor que se pode fazer, é gerar valor e encontrar oportunidades onde há demanda, é construir a própria segurança e depois olhar para trás e reconhecer que você é muito maior e mais capaz do que imagina. No final das contas, não existe almoço grátis, mas é melhor lutar pelo seu almoço na liberdade do que ter seu almoço dependendo daqueles que acreditam saber o que você precisa para ser feliz.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Considerações sobre liberdade individual

Sou totalmente contra o fumo, porém sou totalmente contra qualquer lei que limite a utilização de cigarros. Sou quase que totalmente contra o uso de drogas, porém sou totalmente contra qualquer lei que limite o uso de drogas. Sou totalmente contra a utilização de armas, porém sou totalmente contra leis que limitem a utilização de armas. Acho que não sou a favor de andar sem roupas em ambientes públicos, porém sou totalmente contra leis que proíbam uma pessoa de se vestir da maneira que quiser, ou mesmo de não se vestir. Não gosto muito de cambistas, porém sou totalmente contra qualquer lei que limite a pratica do cambismo, considerando que essa é uma prática comercial legítima (uma prática comercial legítima é uma troca voluntária entre dois indivíduos independente da regulação e tributação do estado). Não como carne e sou contra o consumo de animais como alimentos, porém sou totalmente contra qualquer lei que limite o consumo dos mesmos.

Tenho meus princípios e os defendo, porém sou contra qualquer nível de coerção que force outros indivíduos a seguirem o que acredito, pois isso não seria nada mais que as crenças de um determinado ser (no caso eu), ou grupo, sobre outro determinado ser ou grupo. Quem somos nós para determinar o que outro indivíduo deve fazer ou acreditar que o que sustentamos é o melhor para todos? Eu acho cigarro ruim, mas quem sou eu para dizer que a minha colega Julia deve parar de fumar? Talvez isso seja bom para ela e eu até possa tentar convencê-la de que o cigarro é ruim, mas defender uma lei que force a Julia a parar de fumar? Quem sou eu? Quem sou eu para dizer que um indivíduo não pode ter uma arma por motivos de segurança? Sou por acaso um Deus ou um PhD que entende tudo sobre segurança pública e comportamento humano? Talvez se eu fosse um PhD nessa área saberia que grande parte de países e estados que a população é mais armada são aqueles com os menores índices de homicídios.

Quem sou eu para acreditar que uma lei que proíbe os clientes do bar do João de fumar é benéfica à comunidade? O bar não é do João?! Então deixem que o João decida se pode fumar ou não em seu estabelecimento! A melhor legislação é aquela que privilegia as liberdades individuais, é aquela que dá ao ser-humano a bela oportunidade de errar, acertar, e aprender de acordo com seus êxitos e fracassos. Uma legislação que reprime as escolhas dos indivíduos baseada na crença de que é a “vontade da maioria” não é mais que a imposição de certos valores sobre outros indivíduos, que deveriam vir a este planeta livres e em totais condições de usufruírem de seu livre-arbítrio para viverem de acordo com suas aspirações e necessidades subjetivas. Por que temos tanta ânsia em impor nossos valores aos outros? Por que queremos mudar o mundo nos baseando no que acreditamos? Visivelmente esse desejo não é mais que a manifestação de nosso deplorável orgulho que não permite aos outros indivíduos uma vida que fuja de nossos princípios, afinal, sempre estamos certos. Agora com franqueza, a melhor maneira de mudar o mundo é sem dúvida fazermos a nossa parte, respeitarmos as diferenças e sermos eternos defensores das liberdades individuais, pois as liberdades individuais constituem a grande força motriz que faz a civilização humana experimentar o verdadeiro e natural progresso, e quando a liberdade é reprimida, o resultado é sempre desastroso (ditaduras, opressão etc).


Mas até onde vai o limite da liberdade individual? Em que momento o indivíduo deve se sujeitar aos interesses da maioria? Bom, parece-me que a liberdade individual acaba quando ela invade ou ameaça outra liberdade individual, é o caso do homicídio, do cárcere privado, do roubo, da escravidão, da ameaça à vida e uma série de outros crimes que no fundo do entendimento humano sempre foram crimes e tudo indica que sempre serão. Se eu estou em um parque e um sujeito está fumando ao meu lado e isso me incomoda, eu apenas mudo de lugar, pois sou livre para me distanciar daquele indivíduo. Porém, se este indivíduo começar a me seguir, claramente ele está cruzando o limite de sua liberdade individual e adentrando criminosamente em minha liberdade individual, e isso não é aceitável.

Regulações e leis que limitem as liberdades individuais nunca vão trazer verdadeiras e profundas mudanças na sociedade, e sim deformidades que acabam sendo muito piores, como o tráfico. As verdadeiras mudanças deverão acontecer de acordo com o diálogo, a reflexão, a educação direcionada ao pensamento próprio de cada indivíduo, e tudo isso em um ambiente de total liberdade, livre de repressão sobre as decisões pessoais de cada um. Por isso, devemos refletir quando uma nova lei for criada sob aplausos e elogios acalorados, pois afinal de contas, feliz é aquela nação livre que pouco precisa de coerção.