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quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Nossa vida em Camphill Village Copake


Após alguns meses desde o último post deste blog, retorno para contar um pouco da experiência que eu e minha esposa, Iasmim, estamos vivendo desde que deixamos o Brasil para passar uma temporada no EUA. Escrevo neste momento de nosso aconchegante quarto em Tamarack, uma das várias casas do Camphill Village Copake, a maior comunidade Camphill da América do Norte, onde vivem cerca de 235 pessoas distribuídas em cerca de 300 hectares de lindas terras ao norte do estado de Nova York.

Desde que chegamos aqui ficamos impressionados com o tamanho e a infraestrutura deste Camphill, de dimensões muito diferentes das do que vivi na Escócia em 2011 e 2012. São várias casas, vários workshops, clínica médica, centro administrativo, centro de convivência com café e loja, fazenda com grande produção diária de carne e laticínios, centro de eventos, todo tipo de maquinário para produção agropecuária, campos férteis para agricultura e tudo que podemos imaginar de necessário para uma comunidade vibrante e praticamente autossustentável.

Para quem é novo em meu blog e não viu outros posts, uma comunidade Camphill é um lugar criado para a inclusão social e profissional de pessoas com necessidades especiais. Essas pessoas podem viver aqui a vida inteira e conquistam um nível de autonomia e dignidade que sequer conseguimos imaginar muito bem no Brasil. Nós vivemos em uma casa com 5 pessoas especiais de diferentes diagnósticos.


Como as experiências que temos no Brasil com pessoas especiais costumam ser raras e até pobres, é difícil explicar a um brasileiro a realidade de uma comunidade Camphill, um lugar incrível que só conseguimos conceber realmente quando estamos nele. Viver e trabalhar com essas pessoas é extremamente gratificante, estimulante e divertido. E é por isso que cada vez mais brasileiros vão passar uma temporada em uma comunidade Camphill ao redor do mundo. Aqui em Copake, além de mim e Iasmim, temos mais 3 brasileiros. Porém eles vêm e vão, e muitos passaram por aqui em outros anos.

Todos que se inscrevem para viver aqui e são aceitos, são alocados em algum local de trabalho. No meu caso eu me tornei um fazendeiro integral, trabalhando na fazenda tanto de manhã quanto à tarde. Um trabalho desafiador que tenho me identificado cada vez mais, havendo sempre algo novo para aprender todos os dias. Já a Iasmim foi alocada em duas posições diferentes, pela manhã ela cuida da casa e geralmente faz almoço, e pela tarde ela trabalha em um workshop chamado “Estate”. Esta é um workshop difícil de explicar aos brasileiros, mas no geral é ligado a uma longa lista de trabalhos ao ar livre, como corte de grama, corte de madeira com serra elétrica, armazenamento de madeira para o inverno, produção de Maple Syrup, e serviços que exigem ação física e operação de máquinas.


Além do trabalho em nossos workshops, também trabalhamos na casa onde moramos, tanto com atividades domésticas comuns como limpeza e preparação de refeições, tanto com os cuidados aos residentes especiais. Em uma comunidade Camphill aprendemos um pouco de tudo, e é por isso que considero este local um dos melhores lugares para alguém se desenvolver como ser-humano. Este é um lugar da prática e você está sempre com as mãos e a mente ocupadas com diferentes tarefas. Em verdade muitos brasileiros que chegam aqui acostumados com uma vida de estudos ou trabalho em escritório, geralmente contando as horas para irem para casa, ficam impressionados com o quanto se desenvolvem e o tanto de coisas que podem fazer durante um dia.

Além de uma vida muito ocupada com todas as responsabilidades que lhe são atribuídas, quem vive e trabalha em Copake usufrui de um cenário natural exuberante de morros, florestas, rios, riachos, lagos e animais. O contato com a natureza é total e a qualidade de vida imensurável, totalmente diferente da realidade urbana de se viver em uma grande metrópole brasileira, como Fortaleza, de onde viemos. Desde que chegamos aqui nossa saúde nunca foi tão boa. A minha sempre foi boa, mas melhorou ainda mais. Já Iasmim praticamente se curou de uma série de problemas pequenos que tinha, como gripes frequentes, crises alérgicas, entre outras coisas que eram um incômodo constante no Brasil.

Estamos nos aproximando de completar 6 meses neste lugar incrível e teria muito o que falar sobre o Camphill, a América, nossos passeios na região, entre outros assuntos, mas deixarei tudo isso para próximas oportunidades. Meu objetivo neste post era apenas lhe dar uma breve introdução sobre onde estamos e o que estamos fazendo, e a partir disto poderei puxar mais assuntos. Até breve.


Tamarack, nossa casa

Fim de tarde tirando leite ao ar livre

Desbravando trilhas e cuidando dos animais da fazenda

quarta-feira, 31 de maio de 2023

O que mais valorizo em países livres

Vez ou outra me pego pensando sobre o que mais me causa desconforto no Brasil. Por algum tempo, talvez por apreciar o estudo da economia, tendi a acreditar que os assuntos econômicos me pareciam mais relevantes. Porém os anos foram passando, minhas visões foram amadurecendo e comecei a enxergar uma importância cada vez mais maior em algo que é muito falado, mas talvez não seja tão compreendido e bem dimensionado: a falta de segurança.

Falando assim o leitor pode estar se preparando para mais um daqueles desabafos clichês de alguém que tem medo de ser assaltado ou que fica revoltado com o noticiário constante de crimes bárbaros que quase nunca são solucionados. Mas não, ao meu ver a falta de segurança no Brasil é algo que há muito tempo passou dessa preocupação corriqueira de sofrer um assalto, tendo já ganhado proporções que alteraram com certa profundidade o psicológico coletivo e como a sociedade brasileira se organiza cultural e estruturalmente.

Ao tocar no assunto, alguém já pode se antecipar e dizer: “mas o Brasil sempre foi assim!”. E eu respondo: não, o Brasil nunca foi um país muito ordeiro, mas também nunca chegou a ser o caos e a completa hegemonia do crime como vemos hoje. Basta olhar os números para observar o aumento de crimes violentos nos últimos 50 anos, em especial a partir dos anos 90, com o aprofundamento das políticas socialdemocratas. E se você não gostar muito de números, basta conversar com alguém que viveu da década de 90 para trás. Naquele tempo já havia coisas como assaltos, roubos, insegurança etc, mas nada comparado ao cenário atual. As grandes cidades brasileiras eram muito mais tranquilas, e os interiores mais ainda, completa paz e estabilidade com crimes pontuais que vez ou outra chocavam a população.

Eu nasci no início da década de 90 e, portanto, pude testemunhar o avassalador colapso de nossa liberdade à medida em que o tempo foi passando. De lá para cá, saímos de uma realidade em que praticamente não tínhamos preocupações com o crime, usufruindo de uma paz em ir e vir e desfrutar de lugares públicos, a um contexto radicalmente diferente, em que gastamos considerável parte de nossas rendas para pagar vigilância humana, câmeras, cercas elétricas, alarmes, controles de acesso cada vez mais sofisticados, carros blindados (quem pode), assim como fomos adquirindo todo um padrão de comportamento para nos protegermos de sermos alvos.

A ascensão meteórica do crime na sociedade brasileira mudou nosso comportamento e até a estrutura de nossas cidades, áreas públicas se tornaram subutilizadas e shoppings fechados ganharam um forte impulso, passando a ser pontos de encontro e sociabilidade da população. O brasileiro não para o carro na rua sem olhar desconfiado em todas as direções, não para em um sinal de trânsito sem olhar no retrovisor se há alguma moto se aproximando, não pega um ônibus sem analisar as pessoas ao redor e tentar identificar possíveis ameaças, não deixa um pertence na areia da praia enquanto toma um rápido banho de mar, não deixa que um familiar ande a pé por ser uma área perigosa etc.

Quando um estrangeiro chega aqui, fica impressionado com o tanto de orientações alarmistas que os brasileiros fazem, achando que todo esse medo é exagero. E com frequência pode ser mesmo, mas carrega um fundo de verdade: o brasileiro vive apavorado, e quando alguém acostumado a ser livre chega no país, os residentes tentam passar a ele ou ela todas as restrições de liberdade que deve ter ciência para que se proteja.

Isso tudo já se tornou repetitivo pois já faz mais de 10 anos que se tornou uma realidade a ser aceita e até não questionada, em razão do “espírito da época”, que passou a tratar o crime como um “probleminha de comportamento” que deve ser “administrado” de forma branda e “humanista”. Cenário em que criminosos são tratados como vítimas e vítimas que se revoltam são tratadas como criminosos, uma realidade angustiante para quem busca uma justiça objetiva e comum, dentro da lógica tradicional de que quem prejudica o outro deve ser punido, sistema óbvio que funcionou relativamente bem em todas as civilizações minimamente estáveis.

O fato de o assunto ter se tornado repetitivo e muitos terem até deixado de reclamar é o que me causa mais perplexidade. O brasileiro, como que em um experimento social de adaptação de longo prazo, acostumou-se a ser confinado, aceitou sua tragédia e desistiu de lutar. É como se um homem livre tivesse se tornado escravo e por muitos anos tivesse tentado se rebelar, mas ao ver que nada acontecia, cansou, e aceitou sua triste realidade. Hoje uma pessoa de classe média comum vive em um condomínio de segurança máxima, pega seu carro, e vai de um ponto ao outro sem se expor, pulando de “ilha” em “ilha” para tocar sua vida como se tudo fosse normal, com frequência acreditando que esta é uma vida livre e ordinária de qualquer pessoa que vive em uma sociedade funcional. Se durante esta rotina ela ver alguém sendo assaltado na rua, trata-se de um evento corriqueiro, nada a se preocupar, nem a polícia é mais acionada. É assustador.

Mas o assustador mesmo é que isso não é assustador para grande parte dos brasileiros, pois os mesmos sequer sabem que existe algo diferente. Eu, como muitos que moraram em países ordeiros no exterior, ficamos perplexos com a aceitação geral da população, com a quase total entrega das liberdades a grupos criminosos e até grupos políticos que não confrontam o problema. Por isso é tão difícil a readaptação no Brasil após uma temporada fora. Quando você passa um tempo considerável em um país livre, o retorno ao “confinamento” é avassalador. É claro que isso também varia de pessoa para pessoa, e aqui chegamos ao motivo de eu falar sobre isso, pois este é um relato pessoal, e eu sou um desses que se sente muito mal com esta realidade.

Passados alguns anos de reflexão, entendi que o bem que mais vale para mim é a liberdade de ir e vir, de usufruir o mundo sem estar sempre se sentindo ameaçado, como se estivesse sempre fugindo em um estado de alerta que muito se assemelha a realidades de conflitos bélicos. Hoje em dia viver em uma capital brasileira exige um nível de alerta e mobilização preventiva maior que a de um homem medieval vivendo em um vilarejo pacato e isolado composto por algumas dezenas de pessoas. Lembro-me que os momentos mais felizes da minha vida foram em ocasiões em que pude desfrutar de grande liberdade e segurança em experiências em lugares públicos que tive no exterior: passeios de bicicleta e caminhadas no meio da estrada, acampamentos, voltar de um jantar no meio da noite pelas ruas de uma cidade etc. Coisas que parecem banais, mas têm um valor inestimável.

Imagine que existisse uma empresa brasileira que nos vendesse a mesma sensação de segurança e liberdade que temos em países ordeiros no exterior, como se fosse uma mágica. Você pagaria mensalmente um valor para ter a sensação de um europeu, um americano ou um canadense. Quanto isso custaria? Já passou para pensar? É difícil até de precificar tal serviço, pois reflete um valor imenso e abstrato. Mas tenho certeza que quem pudesse, estaria disposto a arcar com tal despesa, viabilizando uma experiência existencial muito mais rica e estimulante.

Após muito refletir, entendi que o que me fascina no estrangeiro não é tanto a possibilidade de conquistas econômicas, mas sim a liberdade que o cidadão comum perdeu no Brasil. Para quem já experimentou a liberdade, viver em confinamento é uma angústia que até acabamos aceitando, mas nunca realmente superamos. Isto também me traz outras conclusões, de que talvez não queiramos tantas coisas assim, de que não sejamos tão exigentes. Se tivéssemos um país minimamente funcional, com uma justiça previsível e confiável e o cenário da criminalidade controlado, imagino que muitos brasileiros que hoje vivem no exterior cogitariam retornar. Porém a realidade é dura, pois não há previsão para que o Brasil saia desta, devendo o estado de confinamento se prolongar por décadas.

Lembro-me daquela clássica lição de ciência política: para se construir algo bom (como a liberdade) precisamos de décadas ou séculos, mas para se destruir, bastam alguns anos. Não subestimem a possibilidade de a situação piorar ainda mais, como por exemplo com a restrição da liberdade de expressão. Isto pode acontecer de repente, e se consolidar com poucos meses. Sendo que esta é apenas uma das frontes de liberdades civis que o brasileiro pode perder, havendo algumas poucas outras que ainda se sustentam.

Adendo: esta é a realidade de um homem de classe média em uma capital do Nordeste, a situação pode variar muito a depender do gênero, posição geográfica e situação econômica de cada indivíduo.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Considerações sobre síndrome do regresso

Nunca cheguei a fazer um intercâmbio de estudos como os que estamos acostumados a ver, na vez que quase fui, umas coisas deram errado e acabei não indo. Mas como você pode ter visto neste blog, já morei no exterior, um ano na Europa e uns cinco meses nos EUA. Ambas as experiências foram ótimas, especialmente a primeira, porém não queria falar sobre isso, e sim sobre o "depois".

Muita gente tem a tal "síndrome do regresso", uns têm pouco e passa rapidinho, outros demoram mas depois de um certo tempo fica tudo bem, outros têm muito mais dificuldades em superar a mudança radical, geralmente saindo de um lugar melhor para uma vida brasileira bem "marromeno". É claro que isso varia muito de pessoa pra pessoa, até porque todos têm circunstâncias diferentes.

Digo isso pois acredito que os mais "bem de vida" não sentem tanto o impacto. Peguemos por exemplo um filho de empresários bem sucedidos que viveu em Londres por um ano e voltou pra casa, ele chegará em casa e seu padrão de vida continuará elevado, por mais que o Brasil esteja um caos. Ele tem carrão, mora num condominiozão, quase não tem preocupações etc. Ele ficará triste por não fazer mais viagenzinhas na Europa, mas vai passar.

Agora pegue um jovem de classe média com dificuldades financeiras que viajou pelo "Ciência sem Fronteiras", o sujeito passou um ano na Austrália bancado pelo governo e tendo experiências completamente "fora do comum" em relação à sua vida média brasileira. Não se preocupava com assaltos, vivia bem, estudava em uma universidade de primeira e assim por diante, dá pra imaginar como uma temporada assim é especial pra essa pessoa (é bom salientar que ainda assim sou contra o programa).

Este segundo sujeito vai ter um choque violento quando voltar pra casa. Não conheci tantas pessoas que fizeram o programa, mas conheci pessoas de classe média que passaram um tempo no exterior e voltaram: man, it's sad. Eu sou uma dessas e confesso que mesmo há três anos no Brasil (decidi me formar aqui antes de fazer qualquer outra coisa mundo a fora) a readaptação é muito difícil. Eu tive e ainda tenho certa dificuldade, mas conheci pessoas em situações muito piores.

É complicado. Vivi no Reino Unido, em um interior belo e civilizado, num clima muito agradável (sim, acho o clima britânico agradável) e ainda lembro a sensação de liberdade, segurança, bem-estar, pessoas educadas, moeda forte e todas essas coisas clichês que já sabemos sobre o primeiro mundo. E então voltamos ao Brasil, no meu caso a uma capital do nordeste: calor, violência, trânsito caótico, pessoas mal-educadas, muros altos, pichações, inflação, salários baixos, impostos sem retorno, escândalos de corrupção e nada funciona com exceção de algumas partes do setor privado (se você puder pagar).

Só quem viveu fora sabe, e é por isso que às vezes fico com inveja de quem nunca conheceu o lado de lá (parece que estou falando de outra dimensão, né?), essa pessoa pode até não ter tido as experiências que tive, mas pelo menos ela costuma ser satisfeita com sua realidade. O ser-humano é muito adaptável, se você criar ele em um casebre sem eletricidade e água encanada, ele vai aprender a viver e pode até ser feliz, mas se você colocar ele em uma mansão por alguns anos e depois obrigá-lo a voltar ao casebre, aí a coisa fica feia. Ele pode até voltar, mas provavelmente vai passar muitos anos em melancolia, lembrando dos momentos que teve enquanto morava naquela mansão.

Há muita gente nessa situação, ou prestes a entrar nesta situação, a sugestão que tenho é que siga vivendo e tente encontrar o lado bom da vida, por mais tenebroso que tudo possa parecer estar, aos poucos você vai se readaptando. Tenha paciência e lembre-se: somos muito adaptáveis. No meu caso duas coisas são de extrema importância, uma é a religião e os diálogos constantes com Deus, a outra são os livros, onde posso viajar a vontade, conhecer lugares e pessoas interessantes sem sair de casa, mas o mais importante mesmo é se esforçar para se reintegrar à sua realidade, e isto exige aceitação para assimilar as circunstâncias e dedicação pra seguir em frente sem olhar para trás.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Salzburgo, a cidade que respira música

Mirabellgarten
Durante os dias na Áustria não deixariamos de ir a Salzburgo, algo que já estava planejado, principalmente por estarmos na região Noroeste do país. Pegamos um trem partindo de Frankenmarkt pela manhã e chegamos à bela estação de trem de Salzburgo depois de um pouco mais de uma hora de viagem. A paisagem do trajeto é sensacional, como descrevi no post passado, um visual que aconchega juntamente com a calma, porém rápida, locomoção tocada pelo trem. Viajar de trem na Europa é uma experiência que brasileiros não podem deixar de fazer, até para valorizarmos esta ideia e quem sabe um dia usufruirmos deste serviço em nosso país. Rápido, seguro, confortável, ecológico e inteligente.

Estava um dia agradável na cidade, temperatura amena e como sempre milhares de turistas, Salzburgo é sustentada pelo fluxo de viajantes que chegam até lá para apreciar a rica vida cultural da cidade que encanta os visitantes com sua música e sua conservada atmosfera de cidade do século XVIII, infestada de carruagens e desenhada numa arquitetura herdada dos períodos imperiais. Uma cidade que estaria parada no tempo se não fosse a gigante Red Bull investindo em inciativas privadas juntamente com outras empresas da região. E sim, este império chamado Red Bull é de lá, de Salzburgo, inclusive o nome do time de futebol é “Red Bull Salzburg” e aquele cara que saltou do espaço também é de lá.

Centro da Cidade
A cidade é realmente bonita como todos dizem, organizada, limpa, com um comércio interessante e muito para se olhar e admirar, no meu caso a admiração se voltou a um Pretzel gigante que deu até dor de cabeça depois de comer tudo. Vale salientar que o Pretzel tradicional é salgado, não doce como estamos acostumado a conhecê-lo no Brasil, e comer um Pretzel doce daquele tamanho não é uma decisão das melhores, mas vale a pena uma vez na vida. Um dos pontos que mais gostei de Salzburgo foi a liberdade para se locomover como pedestre, pois a utilização de carros no centro é rigorosamente limitada, controlada ao extremo, uma decisão inteligente para uma cidade que quer se tornar competitiva no turismo. Assim as ruas e becos ficam livres e longe da confusão dos carros, promovendo uma experiência bastante agradável de ir e vir aproveitando o clima ameno e até sentando num dos charmosos restaurantes e experimentar a comida austríaca que carrega suas peculiaridades.


Casa onde Mozart Nasceu
Apesar da cidade ser de grande importância no roteiro de qualquer turista que visita a Europa, ela ainda não é uma das minhas favoritas, pois querendo ou não, em algumas cidades do continente fica claro aquele nível de ostentação de superioridade por alguns nativos e também visitantes endinherados que procuram um recinto para se diferenciar das pessoas “normais”. Portanto, infelizmente, Salzburgo é deste tipo de cidade que atrai em grande parte um público que está mais preocupado em mostrar o que tem do que qualquer outra coisa. Na Escócia isso acontece em Edimburgo, por isso que gosto mais de Glasgow.

Mas é claro que os pontos positivos estão muito a frente dos negativos e vale a pena conhecer este lugar que foi berço  de Wolfgang Amadeus Mozart, este gênio da música clássica que aos cinco anos de idade já impressionava o velho continente com suas precoces composições. Ao caminhar por Salzburgo, com certeza você avistará uma edificação amarela no centro de uma das praças principais onde o músico nasceu, não só você como vários outros turistas dos quatro cantos do mundo que estarão tirando fotos por todos os lados. Mozart é o símbolo da cidade, ele está em todo lugar, em edificações, apresentações, caixas de bombom, lembrancinhas de todos os gêneros, a verdade é que após um dia em Salzburgo você não quer mais saber desse rapaz, é um êxtase de Mozart para dizer chega!

Pretzel Gigante
Pela noite é aquela mesma estória de sempre, boate, bar e restaurante, escolha um ao seu gosto, eu fui a um bar com minha namorada e uma turma dela. O lugar era exuberante, em frente ao Rio Salzach com vista para a fortaleza, ponto mais alto da cidade, uma vista belíssima. Sabe aqueles bares que no Brasil dá uma dor no bolso só de você pisar dentro? Pois é, era desse tipo, logo pensei que iria falir ali, mas felizmente eu estava errado, os preços eram os de sempre, aliás isso é uma facilidade que vemos na Europa, não importa onde você vai, os mesmos produtos sempre terão preços similares, e não importa se você é rico ou pobre, você sempre terá acesso a um lugar com uma bela vista e um bom serviço, pois seu salário mínimo é suficiente para estar num nível de dignidade frente aos outros cidadãos.

Outro ponto interessante da noite era que ao passar por alguns bares e ver os cardápios, fiquei impressionado com o número de bebidas brasileiras, algumas coisas eu nem se quer sabia que existia, Caipirinha, Caipiroska, dificilmente você achará alguém numa cidade turística que não saiba o que é isso, o negócio é mais sério do que pensei. Inclusive devo salientar que o Brasil está mesmo na moda, todo país que você for, econtrará uma marca de Brasil, pode ser em bebidas, roupas, uma bandeira, de alguma forma você verá um rastro verde e amarelo. E pra ser sincero, é uma sensação divertida ser brasileiro no meio de um monte de gringos, parece que você veio de um lugar fora do planeta Terra, e então você reconhece como é prazeroso o desafio de se adaptar àquelas pessoas com a cultura muito longe da sua, um dia ainda quero ir a Ásia fazer esta experiência.

Para fechar, ao visitar Salzburgo, não esqueça de visitar o famoso jardim “Mirabellgarten”, principalmente se você for mulher ou um homem querendo fazer uma mulher sorrir, o lugar é bacana, principalmente na primavera é claro. O transporte público também funciona muito bem e não te deixará na mão. Deixamos a cidade na manhã seguinte também de trem e só então eu reparei que não tinha comprado nenhuma lembrancinha para trazer, mas não me arrependi pois o dinheiro de trabalhor voluntário era curto, quem sabe na próxima eu trago. Obrigado a você que visita o blog, espero que esteja gostando, em breve tem mais, abraços!

Artistas de Rua por toda a parte.

Cardápio de um dos Bares.

Vista a Noite.

Rio  Salzach com vista cartão postal da cidade ao fundo.

Cadeado dos Casais em uma das principais pontes.

Lembrancinhas do Mozart por toda a parte, muito chocolate.

Xadrez Gigante.
Passeio de Carruagem?

Volta de Trem, tranquilidade ao extremo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Considerações sobre a Áustria

Paisagens da Estrada - Primeiro Dia
Apesar de ter se passado quase um ano desde que fiz esta viagem, não poderia deixar de escrever sobre as minhas impressões deste belo país, algo que de certa forma não pude fazer devido à reta final do trabalho na Escócia. Mas isto não vem ao caso, pois qualquer hora é hora de falar de lugares especiais. Viajei para este país com minha namorada para conhecer sua família, seu país e finalmente ter um intervalo no trabalho, é difícil descrever o quão eu estava esperando o dia dessas férias, viajar é muito bom, desde as semanas que antecedem até todos os detalhes vividos naquele novo lugar.

Saímos de Edimburgo em direção à Alemanha, Munique, onde iriamos de carro até Frankenmarkt, pequena cidade na Alta Áustria, próxima a Salzburgo, capital da música clássica e berço de Mozart. Desde o momento em que o avião pousava na capital da Bavária eu já podia ver coisas que me chamavam atenção, uma delas era a organização que se podia ver lá em baixo, desde a forma em que as residências se colocavam, até à divisão de propriedades tomadas por uma agricultura forte de um país onde cada pedaço de terra tem um grande valor. Mas o que ficou mesmo na minha mente foi a impressão de alta velocidade que percebia assistindo a movimentação dos automóveis naquelas perfeitas estradas alemãs. Enquanto em outros países eu estava acostumado a ver os carros lá em baixo se locomovendo devagarzinho, na Alemanha tive a impressão de que eles funcionavam com alguma tecnologia diferente que dá até a impressão de que estão levitando rapidamente, falarei mais disso em breve.

Cume da Montanha
Chegamos ao Aeroporto de Munique num dia de muito calor, mas calor para quem está saindo da bolha fria e chuvosa do Reino Unido é só alegria. O Aeroporto é bem grande e foi interessante estar naquele país com mais uma nova língua que chegava aos meus ouvidos, é sempre atrativo quando chegamos num país de língua muito diferente e vemos todas aquelas pessoas se comunicando de uma forma que nunca vimos antes, logo no aeroporto se percebe aquele choque cultural, é quando você olha para se mesmo e fala: “Sou brasileiro”, eu particulamente adoro esta sensação, não por vaidade, mas sim pelo sentimento de estar movendo a cultura do meu país a outras partes do planeta e estar vulnerável às lições que tirarei da cultura a qual estou visitando.

Saímos do aeroporto de carro com a gentileza do pai da namorada que dirigiu cerca de duas horas e meia para estar lá no momento de nossa chegada. Logo na estrada a imagem lá fora já me prendia por completo, que visual, que grama verdinha! As montanhas no fundo com uma camada de neve as cobrindo, as flores amarelinhas pelos campos por razão da primavera que havia chegado, as belas casas da Bavária mostrando a sutil presença humana naquele espaço, igrejas com uma arquitetura que nunca vi antes, edifícios de pequeno porte tão organizados e bem cuidados, tudo com tanto esmero, mostrando uma das melhores formas de desenvolvimento que a humanidade pôde empreender até aqui. Rodovias largas e bem sinalizadas, pessoas respeitando a lei de forma admirável, carros passando em velocidades assustadoramente altas (para um brasileiro) na faixa da esquerda, tudo funcionando conforme deve ser, eis o momento que você percebe o que a educação de um país pode construir, é uma pena ainda não haver esta consciência em nosso país, só aqueles que possuem educação sabem o valor dela.

Típico Lago Austríaco
Durante o trajeto um suculento lanchinho havia sido trago numa bolsa térmica, sanduíches em pães de particular consistência e sabor, junto com saborosos ingredientes orgânicos como aqueles queijos que só comemos na Europa. As férias de uma semana não poderiam ter começado melhor. O tempo passava e quanto mais perto chegávamos da Áustria, mais montanhas apareciam com toda sua opulência mostrando o que se destaca na paisagem daquele país, são elas que definem as limitações geográficas, protegem cidades e têm grande papel na cultura dos países alpinos. Você não é membro de um país alpino enquando não caminhar ou escalar até o topo de uma dessas montanhas e deixar sua marca lá em cima. Algo que também me chamou atenção, porém ainda no trajeto alemão, foi a quantidade de painéis solares vistos ao longo da estrada, a Alemanha é o país recordista em produção de energia solar, e você sabe quem é o responsável por isso? O governo?! Não, é claro que o governo faz sua parte, mas os maiores responsáveis são os cidadãos comuns que investem nesta forma de produção de energia, o povo com o seu próprio dinheiro compra os painéis sabendo da importância que é a produção de energia limpa nos dias atuais. Pois é, enquanto meus compatriotas defendem a construção de hidrelétricas ultrapassadas devastadores de florestas, outros países já estão suprindo suas necessidades elétricas por meio de fontes de energias renováveis e harmônicas com a natureza.

Caminhada rumo ao topo da Montanha
Chegamos na Áustria após este trajeto e já havia escurecido, os outros dias se seguiram com visitas a algumas cidades, caminhadas ao topo de montanhas, várias experiências gastronômicas, visita a Salzburgo, visita a florestas de volta a Alemanha (é uma região de fronteira, portanto estamos sempre em transe entre Áustria e Alemanha), celebrações de família e muitas outras coisas, minha nossa, você só nota o quanto viveu quando começa a querer escrever sobre isso, portanto pensando bem, creio que deixarei para falar mais em detalhes em outros posts, pois notei que seria muita informação para um post só, mas pelo menos a introdução já foi feita. Mesmo assim não deixarei de falar aqui sobre algumas impressões da Áustria.

A Áustria é um país belíssimo devido às suas paisagens que mesclam belos campos, alpes, lagos e florestas, variando muito seu visual dependendo da estação do ano, fazendo com que o clima do país tenha um dinamismo muito amplo (assim como na maioria dos países de clima temperado). Com um IDH elevadíssimo é sem dúvida um dos melhores países para se viver no planeta, oferecendo excelentes opções para as necessidades básicas de seus ciadãos, como educação, saúde, transporte etc. Nada é caro de forma que o cidadão não possa pagar (geralmente), pois todo serviço prestado no país leva em consideração o poder aquisitivo de sua população e a legislação tenta favorecer os poucos menos afortunados que precisam de maior suporte do governo. Criança tem suporte financeiro do governo até seus 25 anos de idade, faixa etária estimada para concluir o ensino superior, além de ter educação gratuita até a se formar no ensino médio. O acesso ao ensino superior varia, porém não é difícil ingressar numa universidade pública sem custos, há muitas vagas e o processo seletivo está longe de ser essa selva de competição que acontece no Brasil. Além de que lá eles levam bastante em conta as experiências pessoais do estudante que quer ingressar, portanto ir bem num teste ao estilo vestibular só quer dizer que você é um bom absorvente de informação, isso está longe de definir a sua real condição e capacidade humana.

Kässpatzen, muito bom!
As pessoas são muito tranquilas e amigáveis, falam um dialeto alemão diferente do tradicional, alguns dizem até que falam Austríaco, mas se uma pessoa fala o alemão tradicional é só questão de tempo para se adaptar ao alemão da Áustria. Em geral são bem privadas, mas creio que isso seja uma característica européia mesmo, cada um na sua, respeitando seus limites e o espaço do outro. Isso até me faz lembrar de um vizinho de outro prédio(em Fortaleza) que gosta de ouvir música alta durante as noites de sábado até altas horas da manhã, e nem adianta chamar polícia porque ninguém vem, na Áustria algo como isso não acontece, e se acontecesse não levaria muito tempo até um carro da polícia chegar e acabar logo com a festinha que incomoda centenas de outros cidadãos.

Para falar a verdade eu não vi nenhum ponto negativo durante o tempo que passei naquele país, quero passar mais tempo e prestar mais atenção, ou até viver lá para descobrir os defeitos que podem ainda existir, pretendo voltar em Julho e com certeza verei muito mais pois terei muito mais tempo e já terei superado aqueles primeiros dias de choque cultural. Por enquanto é só, tentarei escrever posts sobre experiências específicas em breve, pois este já ficou muito longo. Áustria é isso, um exuberante país de nível social elevado, pessoas amigáveis, organização, segurança, clima bom a maior parte do ano e muito mais que descreverei em breve, abraços.

Mirante com placa indicando a direção de outras montanhas.

Lagos e mais lagos.

Montsee

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A vida após Camphill

Despedida da Padaria.
Hoje resolvi dar uma olhada no blog e nas postagens antigas para lembrar um pouco do ano passado (e retrasado) para ver o que eu podia tirar de bom para me inspirar neste momento da vida, sem dúvida um novo momento, após tanta coisa atípica que vivi no último um ano e meio. Estou no Brasil desde Julho do ano passado, mas sinto como se tivesse chegado só agora em Janeiro, pois quando cheguei  de verdade a vida ainda estava muito longe de voltar ao normal.

O Camphill foi uma experiência fantástica que me enriqueceu muito como ser humano, posso notar isso em todos os aspectos, porém essa viagem não me mostrou uma das principais coisas que eu esperei que mostrasse: o que diabos eu ia fazer na minha vida (em termos de estudo) e onde eu iria fazer isso, as opções eram muitas e as vontades também. Cheguei decidido a tentar estudar na Europa, principalmente porque a namorada não ia gostar da ideia de um relacionamento a distância. Preparei tudo, busquei informações, preparei documentação, porém cada vez mais a dificuldade burocrática me distanciava, além do lado financeiro que não iria ser fácil, a verdade é que estudar na Europa regularmente como membro da classe média brasileira é uma possibilidade para poucos.


Acabou que desisti da Europa e tive que entrar num acordo com a namorada para que meus estudos aqui não durassem muito tempo e me abrissem portas para uma atuação profissional na Alemanha ou Áustria (ela é alemã mas mora na Áustria), e de repente surgiu um velho curso que sempre simpatizei na Universidade de Fortaleza, Comércio Exterior, que sempre havia evitado devido ao meu enferrujamento na matemática. Nada poderia cair melhor, um curso eclético, com oportunidades no mercado e principalmente internacional, o que abre muitas portas para intercâmbios acadêmicos e pontes para interação com outras países.  A Unifor mantém uma parceria com uma faculdade da Alemanha que garante aos alunos intercâmbistas um diploma duplo (brasileiro e europeu), o que cai perfeitamente para mim e pode me capacitar mais rapidamente a entrar no mercado de trabalho lá, inclusive conheço pessoas que estão lá hoje por este meio. Além do mais o curso também me parece bastante interessante e acredito que vou gostar.

No último semestre, também ao chegar, fiquei sabendo que uma escola de línguas estava selecionando novos professores, o que me fez aceitar um novo desafio logo ao chegar, sem intervalo para adaptação nem nada, isso iria pesar depois de alguns meses. Tenho que dizer que a readaptação após um intercâmbio desse é um pouco complicada, um dia eu estava numa comunidade rural para deficientes mentais na Escócia e no outro dia estava numa cidade brasileira tostando de calor e vivendo num sistema totalmente diferente, com pessoas diferentes, regras diferentes, sentia-me definitivamente como um peixe fora d’água entrando numa seleção de professores. Sabe quando você está totalmente por fora da vida e não sabe nem falar direito? Pois é, eu estava em outro mundo, tenho certeza que as pessoas me achavam estranho naqueles primeiros meses, mas fui levando e a readaptação foi vindo, apesar de muito conturbada por causa da decisão do que eu iria fazer e quais decisões eu iria tomar numa vida bagunçada no Brasil e uma namorada na Europa.

Despedida no Boliche.
No final das contas eu passei e me tornei professor nessa escola, outra experiência bastante interessante, ensinar para adultos e adolescentes na mesma escola que eu frequentava quando estava aprendendo inglês. No começo foi um pouco difícil, mas depois de pegar o jeito é que você percebe que ser professor é uma profissão fantástica e muito gratificante. Porém tive que abandonar o trabalho em setembro por vários motivos, primeiro porque eu senti a falta de um intervalo entre o Camphill e a vida aqui, eu estava precisando urgentemente de férias para processar o que aconteceu e simplesmente descansar, o que eu não conseguia fazer muito na Escócia e estava contando os dias para fazer no Brasil, segundo porque eu estava considerando estudar no exterior e toda aquela burocracia estava me enchendo a cabeça e não me deixava em paz para preparar boas aulas na escola, além de que eu tinha que estudar mais inglês para ter uma boa nota no IELTS, acabei que nem fiz, mas fiz o TOEIC por iniciativa da escola em que trabalhava e fui muito bem (IELTS é o teste de inglês acadêmico britânico e TOEIC é um teste de inglês profissional mais utilizado por empresas), e terceiro minha namorada estava para chegar no fim de setembro para passar 3 meses no Brasil, assim finalmente eu teria minhas férias e poderia decidir tudo o que iria fazer, para alguns isso pode parecer um semestre perdido, mas acredite em mim, foi muito necessário.

Minha namorada chegou e aqui ficou por três meses, durante esse tempo eu a ensinava português e ela me ensinava alemão, é claro que ela aprendeu português muito mais rápido por estar num país de língua portuguesa, inclusive quando retornou a Alemanha havia uma brasileira de Minas no Aeroporto na hora do desembarque perdida e procurando ajuda, e adivinha quem a ajudou? Theresa (namorada), a nova alemã falante de português, depois disso ela veio toda orgulhosa me contar, e o pior é que foi verdade, essa brasileira só desgrudou dela quando encontrou a filha no lado de fora do Aeroporto. Eu acho que a melhor parte de aprender uma língua estrangeira é ajudar os outros que passam por problemas de comunicação, desde que voltei ao Brasil já ajudei muitos comerciantes a vender artesanato para estrangeiros, que gratificante! Além daquelas situações que o cara tá perdido, precisando de informação e você aparece para salvá-lo, é muito bacana!

Neste tempo em que Theresa esteve aqui eu entrei neste acordo de que iria estudar aqui e trabalhar para juntar dinheiro para visitá-la em todas as férias (Julho, Dezembro, Janeiro), além de continuar estudando alemão e tentar manter um bom nível acadêmico para conseguir o intercâmbio para a faculdade da Alemanha que falei (Deggendorf). O fato é que 2013 marca o meu reinício, nova faculdade, trabalho (quero voltar a dar aula), novos planos, tudo novo! Sinto como se a vida estivesse começando agora, o que passou foi só ensaio. E aqui finalmente fecho o bloco Camphill e Escócia do Blog, apesar de saber que não consegui postar muito mais durante o ano passado, uma experiência marcante que claramente mudou o curso da minha vida como humano, estudante, profissional, cidadão e membro de família. Bom início de ano para todos também!

Despedindo-nos do velho e querido quarto, tudo arrumado para os novos voluntários.

De volta ao Brasil viajando pelas praias do Ceará.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Arte no sangue, primeiras impressões da Europa

Depois de um longo vôo de nove horas em direção ao velho continente, cansada e com uma mala cuidadosamente preparada para enfrentar o mês que estava por vir, os meus primeiros passos em solo europeu, na verdade, aconteceram no subsolo do metrô de Madrid. Depois de entrar em um vagão errado e, por fim, aprender na marra a desvendar o metrô espanhol, finalmente chego à estação de destino, já exausta pela longa viagem e pelo peso da mala. Ao subir os primeiros degraus em direção à cidade, deixando para trás a estação, tudo me arrebatou de uma só vez - o frio, a ansiedade, a expectativa, o barulho de pessoas, a movimentação dos carros e a música. Sim, a música!

Uma música viva e alegre, servindo de trilha sonora para os passantes e dando novas cores aos meus primeiros minutos de viagem. A melodia vinha de uma banda de rua, composta por saxofones, trompetes, pandeiro, violoncelo, bateria, enfim, vários instrumentos afinados em um só tom, à espera de algumas poucas moedas. Me senti protagonizando uma cena de filme, onde aquela música era o presente de Madrid para mim, para me receber. Foi uma cena inesquecível.

Ao longo do mês descobri que essa situação era extremamente comum nas grandes cidades européias. Em bandas, em duplas, solitários, quer seja com uma simples flauta ou com violinos, dentro do metrô, em frente a lojas de luxo, ao lado do rio, em cima da ponte, no meio da calçada... qualquer hora é hora de música. Os estilos variavam desde a música eletrônica, passando por coldplay e chegando até a música clássica. Percebi que esse hábito está no coração do europeu. Andar nas ruas ganha outra sensação, os prédios cinzas ganham novas cores e um dia ruim ganha novos rumos, não só pela música mas também pela arte de rua.

Lá a pichação e o grafite viram arte, transformando as paredes e muros em telas brancas que são preenchidas de formas muitas vezes engraçadas, servindo como protestos, brincadeiras irônicas e até mensagens irreverentes. Tudo sem perder o tom artístico. Banksy, artista de rua famoso nas ruas londrinas pelos seus desenhos irreverentes e sarcásticos, cheios de significado nas entrelinhas, é um ótimo exemplo do que podemos encontrar ao andar com atenção pelas ruas da cidade.

A arte, entretanto, não para apenas nas ruas. Na verdade, lá ela apenas começa. O principal está dentro das paredes dos museus, presentes na maioria das grandes capitais. É comum observar excursões escolares, até mesmo para os mais pequenos, para visitar obras de pintores como Van Gogh, Picasso, Matisse, Modigliani, Salvador Dalí, Leonardo da Vinci, Miró e muitos outros nomes inclusive de arte moderna, que não me agrada tanto, mas que também conquistou o seu espaço por lá. Nas alas dos museus sempre há estudantes de desenho com os seus cadernos de rabiscos em busca de inspirações entre as esculturas e obras de arte, geralmente sentados desenhando por horas a fio. Em muitos países, os residentes europeus têm direito a entrada franca ou a passes mensais com custo reduzido aos museus que não são gratuitos.

Em Londres, onde a maioria dos museus não cobra ingresso, contando apenas com a doação voluntária dos visitantes, é possível inclusive pesquisar mais sobre as suas obras preferidas - há cartões magnéticos à disposição dos visitantes que, quando passados em frente aos leitores de cartão ao lado de cada obra, colectam os dados do quadro selecionado. Em casa, com o cartão em mãos, basta entrar no site do museu e digitar o número de série do seu cartão para ter acesso a mais informações a respeito de sua obra. E o melhor: tudo é grátis, desde a entrada ao museu até o login no site.

Uma das melhores partes, entretanto, está na saída dos museus. Nas lojas, ao fim da visita, ou mesmo nas mãos de vendedores ambulantes nas proximidades dos museus, é possível comprar reproduções e releituras de quadros famosos a preços acessíveis, inclusive para trazer para casa como souvenirs. As ruas se transformam em verdadeiras mostras de arte, cada pintor com o seu trabalho, uma obra mais criativa que a outra, quer seja a tinta ou a lápis, é possível ver a arte se manifestando nas suas variadas formas. É difícil não se deixar levar.

Sem desmerecer a arte brasileira, que também é sensacional e sem dúvidas tem o seu valor, por mais que ainda tenha que conquistar o seu espaço, mas a minha viagem ao velho continente foi uma surpresa agradável nesse sentido. Não é difícil entender porque grande parte das tendências de arte, música e moda surgem todas de lá, onde a arte corre no sangue e o clima se espalha pelo ar. O amor a arte só cresce quando cultivado, em qualquer parte do mundo.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Aberdeen, a capital dos Camphills

Entrada do Cemitério na Avenida Principal.
Aberdeen é uma cidade localizada no nordeste da Escócia, a terceira mais populosa do país, dona de uma praia bacana e congelante a maior parte do ano, um grande porto e uma movimentada universidade (University of Aberdeen). Além disso é possível batizá-la de sede dos Camphills, pois foi lá onde o movimento começou e se espalhou por todo mundo, vários deles estão lá, inclusive o primeiro Camphill que apliquei antes de Corbenic foi Simeon, um lugar que abriga idosos, não fui aceito pois no mesmo ano eles aumentaram a idade mínima dos Co-workers para 21 anos, o que foi muito bom, pois Corbenic é um lugar fantástico e acho que está enriquecendo bastante minha vida.


139 km separam Perth de Aberdeen.
Para chegar em Aberdeen saímos de Corbenic de manhã em direção à rodoviária de Perth, é o ponto de partida de qualquer viagem de ônibus. O time da vez era eu, Zé (brasileiro), Julia, Lilith e Theresa, todas alemãs. De Perth até Aberdeen são aproximadamente duas horas de estrada, com uma parada em Dundee totalmente fora de mão, mas até que passou rápido com a ajuda de uma musiquinha no iPod. Viajar aqui é bem tranquilo, trem ou ônibus, raramente você vai ter algum momento de tensão, eu pelo menos nunca tive, principalmente em trem, é tão tranquilo e suave que você nem sente a viagem toda, chega sempre rápido.

Chegamos em Aberdeen perto da hora do almoço, a rodoviária da cidade é sensacional, porque não é só rodoviária, é também estação de trem e um mega shopping center bem no coração da cidade. Acho isso fantástico, a maioria das estações da Escócia, principalmente de trem, são bem no centro das cidades, ou seja, quando você chega não precisa ir atrás de táxi ou ônibus desesperado, você apenas sai da estação e já está na rua ou na praça principal, vendo um monte de pontos turísticos de uma vez só.


Union Square, nosso local de desembarque.
Uma estação de trem e ônibus que ao mesmo tempo é shopping center pode ser uma grande vantagem, mas não quando você está viajando com três mulheres, definitivamente, eu e Zé ficamos esperando um pouco mais que uma horinha até as três terminarem de explorar cada detalhe da mega loja de roupa que não lembro o nome. Além disso sempre rola aquele momento de crítico de moda onde a sua namorada fica perguntando qual peça é melhor e você sempre diz: “Esse é perfeito”, “Esse é ótimo”, “Nossa, você tá maravilhosa, paga e vamos embora”.

Fim de compras e reunião para saber qual seria a próxima parada, a decisão foi ficar no shopping pois todos estavam com fome e queriam almoçar. Os restaurantes do shopping estavam lotados e todos tinham fila de espera de pelo menos vinte minutos. Reservamos os lugares em um e lá estava eu de novo seguindo mulher fazendo compra, ô benção. Depois dos 20 minutos na farmácia, voltamos para o restaurante escolhido pelo público por conter algumas promoções enganadoras na fachada, quando na realidade a comida era cara e vinha tão pouco no prato que sai de lá mais triste que argentino depois de jogo contra o Brasil.

Avenida Principal da Cidade.
Dica de hoje: Quando você estiver no exterior e tiver em dúvida de que lugar comer, nem sempre arriscar é a coisa certa, você pode gastar muito e comer pouco. Corra para a pizzaria mais próxima! Sempre funciona. Mas não nego que quando você arrisca também há chances de comer um prato novo e delicioso por um ótimo preço, por isso informação é sempre fundamental antes de uma viagem.

Comemos e eu gastei 11 pounds num prato mixuruca de macarrão com um suquinho de maça que tava mais pra água que para suco. Depois da decepção, finalmente saímos do infernal shopping center, desculpa quem gosta, mas shopping para mim é entrar, comprar e ir embora o mais rápido possível. Pegamos a avenida principal da cidade e começamos a caminhar, senti algo estranho com tanta gente num mesmo lugar, viver muito tempo na roça faz com que a cidade te deixe um pouco ébrio de informação, agora eu entendo porque o caipira quer sair correndo de volta pro interior quando chega na cidade, deve ser meio assustador mesmo.

The West Tower.
O visual de Aberdeen é bem mesclado entre velhas e novas arquiteturas, algo que chama atenção é a tonalidade de cor da cidade, muito mais clara que o normal entre os outros centros urbanos da Escócia. Creio que é algo que eles estão tentando fazer, pois percebi alguns prédios restaurados com cores claras, bem bonito por sinal, algo que sai da mesmice escura e cinza do país. A avenida principal é bem movimentada, bastante gente circulando nas calçadas e grande fluxo de carros e ônibus.

Seguimos caminhando aproveitando as paisagens da cidade e perguntei onde as meninas queriam ir, nenhuma surpresa, queriam ir à praia, ver o mar, algo absurdamente interessante para mim que morei a vida toda em Fortaleza. E então continuei, cansado de tanto bater perna e aguentando o vento frio de lascar. A praia extremamente sem graça, escura, fria, cinzenta e deserta. Chegar a ser bizarro as européias todas felizes por estarem vendo o mar, isso me faz refletir um pouco, acho que tenho que dar mais valor às prainhas que tenho no Ceará.



Parte da Universidade.
Deixamos a praia, passamos no super-mercado, compramos pizzas e fomos para o ponto de ônibus, iriamos para o Camphill School Aberdeen, onde passariamos a noite e eu finalmente conheceria Monise, a brasileira que acompanhei pela internet durante mais de um ano antes de me aventurar neste viagem, ela me ajudou bastante descrevendo o estilo de vida do Camphill e todos os desafios que um co-worker brasileiro poderia enfrentar. Além disso também fomos recebidos por Rodrigo, outro brasileiro que nos acomodou com excelência.

Um fato que marcou um pouco esta viagem foi quando estávamos esperando o ônibus na avenida principal, aqui a parada de ônibus é virada para o lado oposto das paradas do Brasil, ou seja, você senta e fica de frente para as edificações, não para a rua. Eu estava sentado e minha carteira caiu bem na divisória entre a calçada e a rua, num lugar que praticamente ninguém a veria, e eu distraído, conversando e me divertindo com os outros nunca perceberia que não estava com ela. De repente um casal de velhinhos surge com uma carteira na mão, a senhora perguntou se era minha e quase não acreditei quando vi que não estava no meu bolso, ou seja, minha carteira com quase todo meu dinheiro, vários documentos e cartão de débito estava no chão da avenida principal da cidade por longos minutos em que qualquer um poderia ter pegado e continuado andando tranquilamente.


Universidade.
Ela me entregou a carteira e eu falei todo o meu vocabulário de agradecimento em inglês, isso até deixou a velhinha um pouco desconcertada. Isso me fez refletir por alguns minutos o quanto é bom estar em um lugar de pessoas honestas, como é boa a atmosfera de fraternidade e respeito ao próximo. Até hoje estou agradecendo a ela por este gesto de honestidade. Não é querendo ser pessimista sobre o meu país, mas se fosse no Brasil, com certeza as chances de isso acontecer seriam minúsculas.

Pegamos o ônibus e fomos para o Camphill, uma estrutura de encher os olhos, várias casas, sinalizações, mapa na entrada, algo que nem se compara ao meu Camphill Rural, mas cada um com suas vantagens. Foi lá que eu realmente senti a força do movimento Camphill, senti o quão é nobre a ação deste movimento na sociedade, e o quanto é importante para as pessoas com necessidades especiais desenvolverem suas habilidades de forma saudável e terapêutica. Chegamos, comemos as pizzas e Rodrigo nos mostrou os quartos que ficariamos. Eu e minha namorada num quarto no primeiro piso da casa, as duas alemãs no quarto de um residente que estava fora durante o final de semana e Zé no mesmo quarto que Rodrigo.


Curtindo o calorzão na praia.
De noite fomos para uma balada no centro da cidade, a boate era bem interessante, simplesmente porque era uma IGREJA, é isso ai, balada na igreja, imagina só, do lado de fora um prédio centenário e do lado de dentro uma boate de primeiro mundo cheio de pessoas embriagadas “dançando”. Lá dentro é aquele mesmo negócio de sempre, pra mim balada é que nem shopping, sempre igual, gente fazendo movimento estranho achando que tá dançando, nego vomitando no canto da parede, menina constrangida porque alguém passou a mão nela e um bêbado sem noção olhando para sua namorada fazendo cara de mal. É sempre a mesma coisa.

Saímos da balada e fomos até o ponto de ônibus, durante o caminho uma atmosfera bem pesada, você só percebe como é triste o fim de uma noite quando permanece sóbrio para assistir os pobres indivíduos totalmente fora de si após horas de porre e descontrole emocional. Neste momento eu estava torcendo para chegar logo ao clima harmonioso do Camphill. Chegamos e fomos para a cama, estava encerrado o dia em Aberdeen, na manhã seguinte pegamos o carro e fomos para outro destino que você conhecerá em breve através deste site.


Os companheiros de viagem.
Árvore de Natal na Praça Principal.
Cidade já preparada para as celebrações de Natal.
Ruas do Camphill.
Mapa de Localização na entrada.
St. Christopher, a casa que ficamos.
Um dos corredores da casa, pela decoração nota-se a predominância de co-workers.
Dando um passeio pela comunidade.
Diversas casas da comunidade Camphill ao fundo.
Visão externa de uma das casas.
Um lugar tranquilo e propício para o desenvolvimento humano.
Placa indicando a localização da piscina e academia, só para matar os caipiras de inveja.
Mais visão externa da comunidade.