sexta-feira, 29 de julho de 2011

Chegada em Corbenic na Escócia


Finalmente eu estava no carro me dirigindo ao Camphill, Guilherme conduzia enquanto Tânia estava no assento traseiro, naquele momento esqueci de toda exaustão e dividia meu interesse entre perguntar várias coisas ao amigo brasileiro ou contemplar a maravilhosa vista do lado de fora. Se antes eu já gostava de viajar de carro e ir apreciando a vista, imagine fazer isso na Escócia, onde os raios suaves do sol de verão pousam na vegetação preservada com esmero e o vento frio vai batento no seu rosto dando as boas-vindas àquela terra rara.

Viajar de carro aqui é simplesmente o máximo, enquanto todos já cresceram vendo essas paisagens e consideram normais, eu fico encostado na janela babando cada metro quadrado de natureza e construções antigas. O trajeto de Edimburgo até o Camphill é cerca de uma hora, e essa uma hora pareceu dez minutos por conta de tanta informação que recebi, mal sabia que estava só começando o bombardeio de vida nova, pessoas novas, lugares novos. Ainda não descobri de onde tirei tanta energia.

Antes de chegar em Corbenic paramos em um pequeno vilarejo para comprar algumas coisas, haveria uma reuniãozinha entre os co-workers naquela noite e Guilherme e Tânia queriam comprar algumas coisas, nem me contive vendo tudo diferente e bati foto até do estacionamento. Já estava rindo comigo mesmo de tanta alegria naquele lugar novo. É uma sensação incrível quando você planeja algo a longo prazo e consegue ver se realizando, por isso que os sonhos são importantes para a vida humana, e quando você alcança esses sonhos, tudo cresce, é como se aquela realização te elevasse em todos os aspectos, como se o espírito desse um salto, ganhando força, vitalidade, sabedoria, grandeza.

Deixamos o super mercado e em poucos minutos chegamos no Camphill. Corbenic tem 5 casas, 3 delas ficam numa casa imensa, como se fosse uma matriz, e duas ficam do lado de fora. Explicarei isso melhor em breve. Como eu estava morrendo de fome, Guilherme me levou a sua casa, onde começou a maratona de cumprimentos e gente nova. Logo de cara o housefather, Bruce, estava do lado de fora e foi o primeiro a conhecer depois de Tânia, ele é o único que me chama de “Leonardo”, quando falei pra ele que podia chamar de “Léo” ele disse que não, preferia “Leonardo”, pois lembra Da Vinci! Ou como ele diz com dificuldade: “Leonáro”. Tudo bem, ele é bem legal, ou melhor, é difícil encontrar alguém rancoroso por aqui, o clima é sempre bom e iluminado.

Depois de Bruce conheci Markus, um co-worker alemão de 19 anos, o que não falta aqui é alemão, tem pra todo lado. Guilherme, sempre prestativo e muito atencioso, foi logo arrumando uma pizza vegetariana que sobrou do almoço, pegou o travessa e colocou no forno, aqui eles não usam microondas. Falei um pouco com Markus e subi com Guilherme para ver a casa. Conheci as acomodações e alguns residentes, uma hora apareceu um correndo sem roupas pelo corredor até o banheiro, levei um susto e no fim achei graça.

A pizza estava quente, comi dois super pedaços sem me importar com nada, a fome era tão grande que se me deixassem do lado de fora da casa eu começava a comer a grama. Terminamos e Guilherme me levou a minha casa, uma das 3 que ficam na casa matriz. Tirei minha bagagem do portamala e fui seguindo ele conversando algumas coisas em português e enquanto subiamos a escada apareceu outro brasileiro, Daniel, que me cumprimentou alegre e voltou aos seus aposentos.

Enfim cheguei em minha casa, Lindsfarne é o nome dela, como outra co-worker brasileira me explicou antes de vir (Monise), aqui parece o filme do Harry Potter, cada casa tem um nome e cada pessoa da comunidade pertence a uma, Lochran, Cottage, Lindsfarme etc. Ainda nem tive tempo de aprender o nome de todas. Guilherme me levou ao meu quarto onde Benjamin, outro alemão, já estava acomodado e aguardando minha chegada, cumprimentei-o e a partir dali seria ele quem ia me ajudar. Agradeci Guilherme e ele foi embora. Benjamin me mostrou o armário com toalhas, me deu umas informações iniciais e conversou sobre um monte de coisas mais, inclusive que ele estava de saída e em breve eu não precisaria dividir o quarto.

Finalmente pude tomar um banho, peguei a toalha e minha roupa limpa, cheguei no chuveiro e avisei comigo mesmo com cautela: “Calma Léo, você precisa tomar banho mas banheiro diferente é sempre perigoso, cuidado onde você coloca a mão”. Todo cuidado é pouco quando você está num canto novo. O chuveiro é ótimo, o banheiro é espaçoso, o vaso sanitário funciona muito bem, o único problema é a falta de chuveirinho, caceta, como eu odeio papel higiênico. Tomei meu aguardado banho e fui pro quarto me preparar para dormir.

O quarto que estou agora é demais, é para duas pessoas, por isso é bem espaçoso, tem um armário gigante, dois gaveteiros, uma mesa bem grande para estudos, uma poltrona bem aconchegante com luz para leitura, duas camas, vários tapetes, chão de madeira e principalmente, uma super vista em frente a mesa de estudos. Mas devo me mudar logo logo, não quero esse quarto, pois além de não precisar de tanto espaço, também não quero dividir meu único espaço individual com ninguém, preciso um pouco de sossego e privacidade. Quando divido quarto com alguém, sempre sinto que estou incomodando e isso me perturba.

Arrumei minha cama, capotei, e deixei meu corpo finalmente descansar, que beleza, que alegria, parecia até que saia fumacinha dos meus ouvidos de tão super aquecido que estava meu cérebro. Dormi durante um bom tempo mas nem tanto quanto eu esperava, não consigo dormir muito quando estou muito cansado, não sei o porquê.

Acordei umas 9 horas da noite e me lembrei que Guilherme tinha me convidado para a reuniãozinha dos co-workers em sua casa, coloquei minha roupa apropriada para o frio do lado de fora e subi a ruazinha que dá até Lochran (casa de Guilherme). Fui abrindo as portas até chegar na cozinha onde o pessoal já tava todo reunido, música rolando, cerveja, rum, e outras bebidas que não sei o nome. Todo mundo gritou quando cheguei, a galera já tava bem animadinha, hehe, gritei também com cara de retardado e sai cumprimentando um por um sem entender nem 20% dos nomes, um mais complicado que o outro.

Ficamos lá algumas horas, foi bom pois conheci logo todo mundo de uma vez num clima alegre e descontraído, fui embora quando o sono bateu e voltei a dormir a espera do outro dia, muitas novidades ainda estavam por vir. Minha cabeça estava turbulenta, muita transição para um dia só, mas devagar tudo ia se encaixando.


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